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domingo, 4 de outubro de 2009

Um ponto final para a desigualdade

Júlia de Medeiros
18 de novembro de 2008
Francisco Diniz

A importância de políticas para a inclusão das minorias no Brasil foi o principal tema do debate sobre "Democracia, raça e pobreza", realizado pela revista VEJA no dia 18 de novembro, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís. O correspondente de Veja em Belo Horizonte, José Edward, mediador do debate, abriu a discussão questionando os participantes sobre a possibilidade de haver um retrocesso na democracia brasileira no campo político e indagando se o país pode ser considerado uma democracia do ponto de vista social.

Para a cientista política e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro, Maria Celina D'Araújo, não há riscos de retrocesso, pois a democracia política já está bem consolidada no país e é até admirada no mundo todo. A especialista acha, entretanto, que as instituições políticas brasileiras precisam passar por um processo de aprimoramento. "O nosso modelo brasileiro é bom, porém o seu funcionamento tem ainda algumas precariedades", afirmou a pesquisadora. Ela se referiu especificamente ao fato de que alguns políticos não cumprirem as promessas de campanhas e de muitos deles se envolverem em esquemas de corrupção. Já no âmbito social, a professora Maria Celina considera que o Brasil ainda não pode ser considerado democrático. "Uma prova disso é que o Brasil está entre as nações com maiores índices de desigualdade social e de concentração de renda do mundo", afirmou.

O antropólogo Carlos Benedito da Silva, coordenador do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros da UFMA, acredita na eficiência de ações governamentais, como as cotas para negros em universidades e o programa Bolsa Família, para diminuir a desigualdade social no país. "Na verdade, o que precisamos é de políticas públicas consistentes para sanar essas deficiências. Mas, enquanto isso não acontece, são necessárias medidas emergenciais para reduzir as grandes diferenças existentes entre ricos e pobres e entre negros e brancos", sustentou. Sobre as cotas para negros nas universidades, o professor, que foi um dos responsáveis pela instituição dessa política na UFMA, citou como exemplo o caso do Maranhão. Segundo ele, o estado tem quase 80% da sua população composta por negros, mas apenas 3% dos universitários do estado são afro-brasileiros.

Um dos destaques do evento foi a participação de estudantes de professores da UFMA que lotaram o auditório da Faculdade de Odontologia e fizeram várias perguntas aos debatedores. Quase todas foram respondidas. Uma delas, questionou se existem países em que a política de cotas solucionou o problema da desigualdade racial nas universidades. A professora Maria Celina D'Araújo respondeu, afirmando que apenas as cotas para negros nas universidades não são suficientes para acabar com o problema, mas que ajudam a colocá-lo na ordem do dia. "No Brasil, a idéia das cotas despertou uma discussão nunca vista e fez com que as pessoas refletissem sobre o assunto, o que sem dúvida trará benefícios", disse.

A pesquisadora da FGV lembrou ainda que a desigualdade social existente no país não está limitada apenas à cor e classe social, mas também ao gênero. Ela citou como exemplo o fato das mulheres ainda ganharem em média menos do que os homens, apesar de serem maioria na população economicamente ativa do país. Além disso, lamentou o fato da política ser dominada pelos homens. "A participação das mulheres e também dos negros nessa área é ínfima. Nossa elite política é formada apenas por meninos branquinhos", concluiu Maria Celina, arrancando aplausos da platéia.

Para finalizar o debate, o mediador perguntou aos especialistas se eles viam com otimismo o futuro da democracia e da redução de desigualdades sociais na América Latina, tendo em vista as eleições de líderes de minorias e movimentos sociais em vários países, como foram os casos do ex-operário Luis Inácio Lula da Silva no Brasil, do índio Evo Morales na Bolívia e do negro Barack Obama nos Estados Unidos. Os dois debatedores mostraram-se otimistas. "Esse é um processo que acontece há alguns anos, e começou com Alejandre Toledo, de descedência indígena, que foi presidente do Peru entre 2001 e 2006. Nesse ponto de vista, as Américas estão à frente da Europa", afirmou a cientista política Maria Celina D'Araújo. "As perspectivas de mudanças políticas e sociais são muito boas, embora ainda tenhamos um longo caminho a percorrer", acrescentou o antropólogo Carlos Benedito da Silva.

Revista Veja

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