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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Na roda da vida

Mestre de capoeira mistura luta baiana e globalização em Nova York
Gonçalo Junior
Edição Impressa 156 - Fevereiro 2009


Pesquisa FAPESP - © Reprodução
Mestre João Grande: o pescador de futuros adeptos da capoeira
Nascido em Itagi, no interior da Bahia, João Oliveira dos Santos cresceu como lavrador e gostava de observar a movimentação dos bichos no mato – que, mais tarde, associaria à da capoeira. Órfão de mãe, sem ter frequentado escola, virou tropeiro até que num domingo, aos 20 anos, quando descansava nos degraus da igreja da cidade, um casal de mascates lhe perguntou se não gostaria de ir para Salvador. Não pensou muito e partiu com uma trouxa de roupa. Ao chegar, deparou-se com uma roda de capoeira angola e reconheceu um lance que havia visto em sua infância, sem saber do que se tratava. Curioso, perguntou a Mestre Barbosa o que era aquela dança, ele respondeu: “É capoeira”. E João recorreu ao Mestre Pastinha para ensiná-lo.

Surgia o Mestre João Grande, que, ao lado de João Pequeno, tornou-se o guardião da capoeira angola, mesma expressão pela qual era conhecido Mestre Pastinha. Destacou-se tanto na capoeira angola em Salvador a ponto de Mestre Canjiquinha, um expoente da arte, ter afirmado: “Foi Deus quem fez João Grande jogar capoeira”. Mas ele não vivia da dança, trabalhava na construção civil. Até que decidiu fazer shows folclóricos. Ingressou no Viva Bahia, o pioneiro grupo folclórico de Emília Biancardi, e viajou para a Europa e Oriente Médio, na década de 1970. Antes disso, em 1966, foi à África com Mestre Pastinha participar do Festival de Artes Negras de Dacar, no Senegal. Na década seguinte, enquanto Pastinha morria pobre e cego num cortiço do Pelourinho, João Grande trabalhava num posto de gasolina.

O mestre não mais praticava ca­poeira quando surgiu um movimento de resgate da luta na Bahia durante a década de 1980. E ele retomou o ofício de ensinar no Forte Santo Antônio, onde já estava instalado Mestre João Pequeno. O lugar começou a ser frequentado por intelectuais norte-americanos interessados na dança, que viam como legado da diáspora africana. Foram os casos de Ken Dossar e Daniel Dawson, que o convidaram para participar do Festival de Artes Negras de Atlanta, Nova York, em 1990. Ao fim do evento, recebeu um convite de um capoeirista chamado Nego Gato para dar aulas no Harlem. Mestre João Grande aceitou e, graças a uma aluna inglesa, a professora universitária Tisch Rosen, que ele apelidou de Risadinha, conseguiu abrir sua academia, Capoeira Angola Center, na rua 14, em Manhattan.

Hoje, aos 75 anos, Mestre João Grande pode não ser o mais conhecido capoeirista baiano, mas, talvez, nenhum tenha recebido títulos tão importantes e homenagens relevantes quanto ele. Em 1994 tornou-se doutor honoris causa pela Upsala College, de Nova Jersey. Sete anos depois, levou o National Heritage Fellowships, só para citar dois. E acaba de se tornar tema do doutorado Na roda do mundo: Mestre João Grande entre a Bahia e Nova York, defendido na USP por Maurício Barros de Castro, com orientação de José Carlos Sebe Bom Meihy. O estudo procura relacionar a globalização e o impacto da ancestral capoeira angola na moderna e cosmopolita cidade americana. O autor explica a importância das tradições no vertiginoso mundo moderno, a partir da reflexão sobre o papel da capoeira no processo histórico brasileiro, diante dos conflitos entre a ancestralidade africana e a construção da identidade nacional.

© Flávio Florido/Folha Imagem
Castro conta que sua pesquisa nasceu de uma indagação: como Mestre João Grande conseguia manter suas tradições numa cidade como Nova York, onde “tudo que é sólido se desmancha no ar”, segundo expressão de Karl Marx utilizada por Marshal Berman, que escreveu um livro com esse título e trata, entre outros assuntos, da questão da modernidade na maior cidade americana. “A pergunta era importante porque a capoeira angola é uma cultura que se baseia na preservação e transmissão das tradições e Nova York é considerada o centro do mundo globalizado”, explica. Ao contrário do que se pode pensar, prossegue ele, as tradições fazem parte da modernidade. “O discurso da tradição foi pronunciado justamente com o advento da sociedade moderna, como forma de resistência a ela. A própria modernidade possui centenas de séculos e pode ser definida como uma moderna tradição, conforme dizem Octavio Paz e Renato Ortiz.”

Para o pesquisador, na sociedade moderna, o culto da tradição está mais forte do que nunca. “Um dos pilares do sucesso de Mestre João Grande em Nova York é uma valorização da cultura tradicional existente na cidade, apesar de ela refletir a modernidade global e produzir cenas como a da explosão das torres gêmeas do World Trade Center.” A capoeira angola de Mestre João Grande é valorizada pela intelectualidade e juventude de Manhattan por ser considerada uma importante forma de resistência cultural à sociedade capitalista globalizada. “Mas é claro que Mestre João Grande, por exemplo, também é favorecido pela globalização, viaja para vários lugares do mundo, tem alunos de vários países, mas isso não impede que ele mantenha seu cultivo da tradição.”

Assim, a globalização serve ao Mestre João Grande possibilidades de transitar pelo mundo e divulgar sua arte. Por outro lado, coloca-lhe armadilhas no caminho. “A questão da identidade é fundamental na ‘modernidade líquida’, como define Berman. Temos uma multiplicidade de identidades, conforme Homi Bhaba.” O desafio de Mestre João Grande, portanto, está em manter sua identidade de mestre de capoeira angola – uma condição que remete à manutenção de rituais afro-descendentes – no ambiente globalizado em que tudo é imposto, inclusive a língua. “Ele afirma que nunca precisou falar inglês para ensinar capoeira – os alunos buscam aprender o português para cantar nas rodas.”

Hegemônico - Na globalização, observa Castro, existe um multiculturalismo hegemônico que tenta reduzir tudo a uma cultura comum. “É o caso das tentativas de alguns grupos de capoeira de introduzir canções em inglês nas rodas. Mestre João Grande resiste a isso, e não apenas porque não fala inglês, mas porque percebe que isso mais enfraquece do que fortalece a identidade da capoei­ra angola”, afirma o pesquisador, que cita as entrevistas que realizou como principais fontes do trabalho. Outras referências foram as músicas da capoei­ra, notícias de jornais e revistas e uma ampla bibliografia.

O pesquisador ressalta que normalmente se associa o debate entre a capoeira angola e a regional à discussão sobre pureza e mestiçagem, em voga entre os intelectuais da época, como Gilberto Freyre, Edison Carneiro e Roger Bastide. “Mas acho que, na verdade, Pastinha e Bimba tinham ideias muito próximas, ambos queriam socializar e ensinar a capoeira para um público mais amplo, defendiam seus aspectos esportivos e tinham fortes referências negras.” Bimba, que era filho de negros, até mais do que Pastinha, que era filho de um espanhol com uma baiana. “A diferença entre eles era que Pastinha mantinha o discurso da ancestralidade africana e Bimba afirmava que a capoeira nascera na Bahia, era uma cultura local.”

© Caio Guatelli/Folha Imagem

Arte feita para ser praticada por todas as raças de qualquer estrato social

De acordo com o pesquisador, Pastinha também defendia as tradições da capoeira, enquanto Bimba quis modernizá-la. “Tratava-se de duas estratégias distintas de afirmar a cultura negra na sociedade brasileira.” Um outro aspecto importante que vale ressaltar, acrescenta, é que se trata de um estudo dedicado à capoeira angola e não à capoeira de uma forma geral, como é mais comum encontrarmos nas pesquisas sobre o tema. “A capoeira encanta pessoas de todo o mundo e já está difundida em mais de 150 países e em todos os cinco continentes. Este foi um dos motivos que levaram o governo a reconhecê-la como Patrimônio Cultural do Brasil, em julho de 2008.”

A preparação da tese de Castro sobre um mestre de capoeira pode ser vista como exemplo do crescente interesse da academia por temas populares, em particular aqueles que se prestam à consideração de manifestações públicas como o futebol, a religiosidade, as festas. “Esses assuntos passam gradativamente a preocupar setores crescentes e uma boa dimensão disso pode ser notada pelo número de dissertações e teses acadêmicas que convivem com artigos em jornais e revistas sobre comportamento”, afirma José Carlos Sebe Bom Meihy, orientador de Castro. “A antropologia, como seria de esperar, saiu na frente, abrindo caminho para a sociologia e para a história e, hoje, estudos se estendem às áreas de psicologia, esportes e lazer.”

Neste quadro, acrescenta Meihy, o caso da capoeira é significativo, uma vez que a perspectiva histórica sugere a superação das análises estruturalistas, limitadas à sincronia. “Dependentes da diacronia, pela história, despertam-se novas interpretações que questionam modelos presentes indicando reconstruções de aspectos menosprezados. No caso específico da capoeira, a dominação da capoeira regional, como padrão hegemônico, desafia entendimento das fases históricas de apropriação de linhas que receberam apoio oficial – em particular sob o governo de Getúlio Vargas – e assim abafaram o outro ramo.”

Patrocínio - A capoeira angola, diz o orientador, modalidade menos prestigiada, “asilou-se” na memória de poucos e recentemente tem ressurgido como manifestação crescente e paralela à sua irmã, a regional. “A história da estranha relação entre duas modalidades é importante para o entendimento das escolhas do patrocínio governamental e também da popularidade que chegou a eclipsar o adjetivo distintivo entre as duas. A institucionalização de uma política cultural orientadora do critério de seleção de modelos deve ser contrastada com a memória, resistente, da manifestação preterida. Por mais que a capoeira angola tenha sido deixada de lado, não morreu, sobreviveu na obscuridade, mas reponta agora com força e prestígio desafiadores de explicações.”

Outro fator interessante na sua opinião é o sucesso da capoeira angola, em particular na cidade de Nova York. “Com incrível popularidade entre os norte-americanos, a figura do mestre João Grande é exemplar. Vivendo no sofisticado Soho nova-iorquino, o mestre nordestino, que não fala inglês, exerce sua função de capoeirista como se o cenário fosse o Brasil.” E seus “alunos” são das mais variadas procedências do mundo. “A sobrevivência da capoeira angola na mais moderna cidade do globo, em Nova York, é um fenômeno que expõe os critérios de seleção promovidos pela globalização que acolhe esta modalidade como se ela fosse universal.”

Revista FAPESP