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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Arqueologia: às favas com os poderosos


A arqueologia nunca esteve tão determinada a descobrir como vivia o povão da Antiguidade. E a tecnologia é uma ferramenta poderosa na busca de informações sobre ele
por Texto José Sérgio Osse

Os exploradores de hoje são bem diferentes daqueles que escreveram a história da arqueologia até a 1ª metade do século 20. Agora eles têm outro foco. Em vez de poderosos governantes, cidades perdidas, tesouros mesopotâmicos e tumbas faraônicas, estão bem mais preocupados com o estudo do dia-a-dia, do cotidiano de grandes civilizações da Antiguidade. É claro que descobertas extraordinárias ainda acontecem, e com uma freqüência como nunca se viu (leia mais no mapa das págs. 44 e 45). Mas raramente elas vêm acompanhadas de uma múmia cercada por objetos de ouro.

“A arqueologia tende a se ver mais como uma ciência social, para a qual palácios ou tesouros muitas vezes são menos importantes do que as questões que eles podem responder”, diz Roger Bagnall, o diretor do Instituto para o Estudo do Mundo Antigo da Universidade de Nova York, nos EUA. O britânico Robin Boast, curador do Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, concorda: “Mais para o fim do século 20, houve uma grande mudança de interesse, que migrou de ‘civilizações’ para ‘culturas’ e ‘sociedades’”.

Esse novo olhar lançado sobre o passado ampliou o horizonte da arqueologia e transformou em achados importantes alguns artefatos que, antes, eram considerados de pouco interesse. É o caso dos grafites de várias cidades romanas, como Pompéia. “Eles tratam dos sentimentos da população, na forma de poemas, desenhos e até piadas, revelando romanos muito diferentes daqueles que encontramos na literatura erudita”, diz Pedro Paulo Funari, professor de arqueologia e coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo. “Por meio desses grafites, o quadro da cultura romana se tornou mais amplo e variado.”

Conceitos superados

A nova arqueologia acabou derrubando velhos conceitos, como o de que os povos da Antiguidade se mantiveram isolados a maior parte de sua história e só entraram em contato uns com outros no campo de batalha. Em 1990, uma descoberta de Manfred Beitak, professor do Instituto Austríaco de Arqueologia, fez desmoronar o que restava dessa teoria. Escavando grandes murais em Tell El Da’ba, no delta do Nilo, ele percebeu que aquelas pinturas, embora estivessem num sítio genuinamente egípcio, eram idênticas às encontradas na ilha de Creta, feitas por outra civilização. Estava provado que, além de manter relações comerciais, antigas civilizações também trocavam influências culturais e artísticas.

Se a arqueologia nunca fez tantas descobertas quanto nos últimos 50 anos, ela certamente deve esse fato, em boa parte, à tecnologia que foi sendo transformada em instrumento de trabalho nesse mesmo período. Hoje, os arqueólogos contam com recursos que Howard Carter – o descobridor da tumba de Tutancâmon, em 1922 – não imaginaria nem em seus sonhos mais desvairados. Mapeamento de escavações com imagens de satélite, radiografia de artefatos arqueológicos e tomografia computadorizada de múmias são apenas alguns exemplos. A ferramenta tecnológica que mais tem facilitado o avanço da ciência, porém, é mais corriqueira: a internet. “Ela abriu um canal de comunicação e colaboração entre as diversas comunidades de especialistas”, diz o arqueólogo Robin Boast.

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