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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Periferia do mundo


País não consegue explorar sua grande potencialidade turística

OSWALDO RIBAS


Piscina do Praia do Forte Eco Resort (BA)
Foto: Célia Thomé



A natureza exuberante, o imenso potencial de atrações e a diversidade cultural ainda não conseguiram transformar o Brasil em uma marca de peso no multibilionário e concorrido mapa-múndi da indústria turística internacional. Embora o país esteja hoje entre as 12 maiores economias do mundo, o turismo brasileiro mantém-se numa posição periférica, num distante 34º lugar no ranking global, exibindo números tímidos quando comparados aos dos gigantescos mercados europeus e norte-americano.

Para se ter uma idéia, enquanto a França recebeu 76,5 milhões de visitantes estrangeiros no ano passado, ao Brasil, segundo dados oficiais da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), vieram menos de 4 milhões. Detalhe importante: desse total, cerca de 70% eram procedentes da Argentina e, com a crise econômica no país vizinho, é fácil deduzir que as perspectivas para o Brasil não são das mais auspiciosas.

A pequena participação brasileira no mercado turístico global – que deverá girar a astronômica cifra de US$ 1,28 trilhão neste ano, de acordo com dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), a entidade responsável pelo fluxo internacional de informações do setor – também pode ser medida na comparação com outra potência mundial: nos Estados Unidos, a receita direta com viagens e hospedagens de visitantes estrangeiros gera um movimento anual de US$ 72,3 bilhões. No Brasil, em 2003, a expectativa é, no melhor dos cenários, de alcançar US$ 3,5 bilhões, um resultado superior ao de 2002, mas ainda bem abaixo do pico de US$ 4,2 bilhões, obtido em 2000.

Contra o turismo no Brasil, na avaliação dos especialistas, vem ocorrendo uma combinação triplamente perversa de fatores. No plano interno, a estagnação econômica, associada à troca de comando político em Brasília, aumentou o clima de incertezas e reduziu a demanda no setor. No externo, a crise na Argentina e a retração mundial observada após os ataques terroristas nos Estados Unidos em setembro de 2001 acabaram eliminando rotas e levando empresas, como agências de viagens e companhias aéreas, à falência. E, para complicar ainda mais, epidemias, como a da pneumonia Sars, e a guerra no Iraque deram sua contribuição nada desprezível para retardar a recuperação da atividade turística, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Quando se analisam os números que medem a baixa atração que o mercado nacional vem exercendo sobre o viajante estrangeiro, descobre-se também que, internamente, os destinos brasileiros perdem para a concorrência internacional. Ou seja, apesar da desvalorização do real no ano passado, que conseguiu alavancar o setor exportador brasileiro, o mesmo benefício não pôde ser observado na balança turística, que se mantém deficitária. O país continua a se caracterizar como um emissor de turistas, isto é, envia mais viajantes ao exterior do que recebe de fora, especialmente no caso de mercados como Estados Unidos e Europa.

A preferência do brasileiro de viajar para o exterior a prestigiar destinos nacionais se evidencia nos números divulgados pelo Banco Central (BC), que mostram um déficit no setor turístico de US$ 113 milhões, no primeiro trimestre de 2003. Apesar de o resultado indicar uma sensível desaceleração do desequilíbrio financeiro em relação ao mesmo período de 2002, quando a conta negativa ficou em US$ 452 milhões, a nova tendência, segundo os técnicos do BC, é conseqüência mais de os brasileiros estarem cortando suas viagens ao exterior, devido à alta do dólar, do que de mais turistas estrangeiros estarem ingressando no país por conta dos baixos custos internos para quem tem moeda forte no bolso.

"Há uma acirrada concorrência na indústria turística global pelos destinos internacionais, em que ainda se alinha a força das promoções e do câmbio", explica José Eduardo Barbosa, diretor da Flot Operadora Turística e vice-presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa – Brazilian Tour Operators Association), entidade que reúne as 57 maiores e mais importantes operadoras do país. "Dependendo da época do ano, um resort caribenho pode oferecer preços bem mais convidativos que outro no nordeste, por exemplo, e acabar atraindo o veranista brasileiro", acrescenta. "No turismo, como em qualquer outro setor da economia, o consumidor opta por produtos que ganhem em qualidade e preço."

Mas não é só a concorrência internacional que inibe os roteiros nacionais. Apesar dos avanços, verificados principalmente nos curtos períodos de estabilidade econômica, o turismo de lazer se mantém em descompasso com suas possibilidades de crescimento no Brasil. O alto preço das passagens aéreas e o declínio de renda da classe média, entre outros fatores, são os principais inibidores do fluxo interno de viajantes.

"A perda de poder aquisitivo do brasileiro certamente é um complicador para a indústria, e esse é um problema estrutural da economia que escapa à capacidade de interferência dos agentes de fomento turístico", admite Eduardo Vampré do Nascimento, presidente do Sindicato das Empresas de Turismo do Estado de São Paulo (Sindetur-SP).

A crise econômica brasileira, na opinião dos analistas, está na raiz do maior de todos os obstáculos à atividade turística, já que ela também faz proliferar a pobreza geradora da violência nos grandes centros urbanos. Certamente, cada turista assaltado nos calçadões de Ipanema ou vítima de arrastões nas praias e no trânsito congestionado contribui para dilapidar a imagem brasileira e fazer com que mais e mais pessoas decidam alterar seus roteiros de viagem, procurando evitar regiões de risco. "É bem verdade", como lembra Vampré, "que a violência está disseminada pelos grandes centros urbanos do mundo, devido aos potenciais atentados terroristas em cidades norte-americanas, européias ou asiáticas e aos conflitos religiosos, étnicos e raciais, que acabam nivelando o risco." Mas ele reconhece que o ritmo de violência que tomou conta das metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro, o principal destino turístico do país, é uma barreira para um setor por definição avesso às turbulências sociais.

Não é de estranhar, portanto, que o levantamento brasileiro do Estudo de Demanda Turística Internacional 2002, da Embratur, tenha chegado a resultados preocupantes. Descobriu-se, por exemplo, que a principal queixa dos que visitam o Brasil refere-se à falta de segurança pública. Quase 11% dos turistas elegeram a violência como a maior preocupação. Um ano antes, esse item estava em quarto lugar na mesma pesquisa. As demais reclamações se dividiram entre saneamento básico (ou falta de limpeza pública), sinalização turística precária, trânsito caótico nas grandes cidades, mau estado de conservação dos táxis e falta de educação dos motoristas.

Na opinião dos viajantes, essas carências demonstram o descaso das autoridades e da população em geral com os visitantes estrangeiros. Mas quem é esse turista que pede um Brasil mais limpo e calmo? Dados fornecidos pela Embratur indicam que são cinco os países que mais contribuem com visitas internacionais: Argentina, Estados Unidos, Alemanha, Paraguai e Uruguai. Este último, em 2002, perdeu a quarta posição para o Paraguai. A crise argentina, por tabela, acabou levando a uma diminuição de 26,7% das chegadas uruguaias. A boa notícia vem dos Estados Unidos, com um aumento de 6% em relação a 2001. Os números mostram também que mais da metade (51,21%) dos 3.783.409 estrangeiros no Brasil em 2002 veio a lazer. Outros 23,48% estiveram aqui a negócios.

Quase 90% de todo o turismo internacional dirigiu-se principalmente a cinco grandes centros. O Rio de Janeiro lidera, com 38,58% da preferência, seguido por São Paulo (20,84%), Salvador (12,76%), Foz do Iguaçu (9,28%) e Recife (8,24%). Dado dos mais relevantes da pesquisa sobre o perfil do visitante estrangeiro é o de que 97% deles, ao deixarem o Brasil, admitiam ter o desejo de voltar – aliás, 64% já haviam visitado o país mais de uma vez.

Ministério exclusivo

O governo brasileiro parece ter tomado consciência do papel que a indústria turística tem a cumprir na busca pela retomada do desenvolvimento econômico do país, tanto pela possibilidade de gerar divisas e, assim, contribuir para o equilíbrio das contas externas, como pela criação de emprego e renda no âmbito doméstico. Agora encarado como uma ferramenta para alavancar investimentos e arrecadar dólares, o turismo foi isolado num ministério exclusivo (sem as parcerias dos esportes e da cultura), com orçamento próprio. De acordo com o ministro Walfrido Mares Guia, a estratégia inicial é aperfeiçoar as estatísticas sobre o setor, para obter avaliações mais exatas dos mercados existentes, dos custos atuais dos empreendimentos, das parcerias possíveis e das potencialidades de futuras iniciativas nas diversas regiões do Brasil.

Para recuperar terreno perdido, o governo está traçando planos ambiciosos e quer dobrar a receita turística anual, para US$ 9 bilhões, com a geração de 1,2 milhão de novos empregos até 2007. Também fixou a meta de aumentar para 9 milhões o número de estrangeiros que visitam o país. Para dar consistência ao projeto, o ministério concentrou sua estratégia no Plano Nacional do Turismo (PNT), lançado em 29 de abril. Trata-se de um amplo projeto de políticas oficiais para incentivar o setor e dar sustentabilidade a ele.

"Todos os estudos econômicos apontam o segmento de serviços como o que mais cresce na economia globalizada e, nele, o turismo ocupa um papel de grande relevância. Vale lembrar que o setor, caracterizado por ser uma atividade limpa, ‘sem fumaça’, é o mais importante na formação do PIB de vários países, como Portugal e Espanha, para citar dois expoentes latinos, que recebem a cada ano um número de visitantes estrangeiros muito superior ao de sua população", diz Mares Guia.

Nos últimos anos, o ramo de hotelaria tem realizado grandes investimentos em território nacional. Enormes complexos turísticos já foram erguidos e inúmeros projetos, dos mais variados portes e categorias, encontram-se em execução. Esses empreendimentos, como os resorts Beach Park, em Fortaleza (CE), Costa do Sauípe e Praia do Forte Eco (BA), e Nannai Beach, em Porto de Galinhas (PE), resultam tanto da iniciativa de redes hoteleiras internacionais quanto de investidores brasileiros oriundos também de outros segmentos econômicos.

"A expansão da rede de hospedagem, principalmente no nordeste, deve-se à ação indutora do poder público, que tem alocado recursos para construção ou modernização da infra-estrutura necessária ao suporte dos novos empreendimentos", destaca José Eduardo Barbosa, da Braztoa.

Os resorts, ou grandes hotéis de lazer, vivem um momento de explosão no país. Localizados em geral em meio a belas paisagens ao longo do litoral ou em ilhas paradisíacas, esses super-hotéis são o segmento que mais tem atraído investimento no turismo brasileiro. Segundo a Embratur, existem 43 projetos de novos resorts em construção no país, com investimentos estimados em R$ 3,5 bilhões.

A infra-estrutura hoteleira no Brasil reúne os mais variados tipos de hospedagem, com opções para todos os gostos e bolsos. No total, são mais de 10 mil estabelecimentos, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), espalhados pelas cinco regiões do país. Entre eles há os super-hotéis, localizados tanto na costa quanto no interior de regiões como a Amazônia; os de médio porte; os cinco-estrelas das redes nacionais, como Othon, Transamérica, Rede Tropical e Eldorado, e os internacionais, como Sheraton, Intercontinental, Meridien, Club Mediterranée, Caesar Park, Hilton, Copacabana Palace (Orient Express) e Meliá.

Com base nessa ampla rede de hospedagem, o governo vem procurando redesenhar a política nacional de desenvolvimento do setor, que inclui a promoção e a divulgação interna e externa dos roteiros nacionais. Mares Guia vem reiteradamente anunciando que a parceria com a iniciativa privada é um dos eixos fundamentais do PNT. Afinal, lembra o ministro, "o presidente Lula assegurou que o turismo pode ser a maior alavanca para a geração de empregos".

Cético, contudo, Luiz Vecchia, presidente do Sindicato dos Empregados nas Empresas de Turismo (Seetur), diz "só acreditar vendo". Ele menciona o fato de, a cada mês, aumentar o desemprego no setor e de os rendimentos dos empregados do segmento turístico terem sido achatados em 18%. "Para funcionar, o ministério deveria ter uma direção técnica. Além disso, sabemos que o orçamento é muito restrito", critica.

De toda forma, as principais metas do PNT estão centradas em financiamentos de projetos de grande, médio e pequeno porte para ampliar a malha turística brasileira e contribuir para a melhoria da qualidade dos serviços prestados. "A promoção de investimentos no setor é eixo fundamental para a estratégia da geração de empregos no Brasil, mas, para que ela venha a se concretizar, o ministério reconhece ser necessário enorme esforço de desenvolvimento de infra-estrutura, o que compreende uma melhor logística de transporte, obras de acesso e urbanização de pontos de interesse turístico, hotelaria e expansão da oferta de empreendimentos voltados ao lazer", informa Maria Luiza Leal, secretária de Desenvolvimento de Programas do Ministério do Turismo.

Em síntese, os objetivos do PNT concentram-se em cinco áreas principais: ampliar e melhorar a infra-estrutura turística em todo o país; aquecer o mercado interno com financiamento ao consumidor final; gerar divisas promovendo captação de investimentos para o Brasil, inclusive para regiões remotas, ainda não desenvolvidas; incentivar a pequena e média empresa, facilitando o acesso ao crédito; e criar postos de trabalho por meio do aquecimento da atividade e da construção de novos equipamentos turísticos.

"A expansão nas áreas de hotelaria, agências de turismo e atividades voltadas para o mercado de lazer depende da disponibilidade de linhas de financiamento compatíveis, em termos de custo financeiro, condições de pagamento e adaptação à realidade do setor no país", afirma Maria Luiza. Ela explica que a principal meta do PNT é a oferta de créditos: R$ 600 milhões para pequenos e médios empreendedores, por meio de linhas da Caixa Econômica Federal (CEF) e do Banco do Brasil, R$ 700 milhões por meio dos Fundos Constitucionais de Financiamento, que abrangem, entre os tomadores potenciais, de microempresas a grandes empreendimentos, e uma verba de R$ 490 milhões que está sendo disponibilizada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para empresários de maior porte.

Além dessas linhas, cujas taxas de juros chegarão a ser menos da metade das oferecidas no mercado, os técnicos do governo irão em busca de outras fontes de financiamento no exterior. Entre as metas também consta desenvolver e implementar um modelo de acompanhamento dos investimentos feitos no setor, assim como a observação da saúde financeira do segmento turístico.

Leonel Rossi Jr., principal executivo da agência de viagens Decatur e diretor de Assuntos Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), elogia o esforço do governo em procurar apoiar o setor, mas discorda da decisão do ministério de subsidiar pacotes turísticos para o consumidor. "Na verdade, o turismo brasileiro precisa do governo nas grandes obras de infra-estrutura e na promoção do país no exterior. O resto é bobagem", critica ele, acrescentando que as empresas do segmento necessitam é de "menos burocracia e corte de impostos" para poder respirar.

Para Rossi, a iniciativa privada está fazendo a sua parte, mas cabe ao governo executar a promoção institucional do país, o mais rapidamente possível. "Temos uma excelente estrutura turística montada, agora só falta os estrangeiros saberem disso", diz ele, pedindo aos órgãos públicos que intensifiquem uma estratégia de inserções na mídia global, em tevês, jornais e revistas, para "neutralizar a torrente de informações ruins sobre o Brasil que se propagam por meio do noticiário. Todos os países fazem isso, e precisamos aprender a fazer também."

Maria Luiza concorda que ainda há muito a ser feito, mas, bastante satisfeita com os resultados dos primeiros seis meses da atual gestão, ressalta que é preciso ver os pontos positivos que têm contribuído para que os projetos saiam das gavetas e deslanchem no mundo real, como a captação de recursos e a articulação entre as diferentes pastas ministeriais. "Em grande parte, esses investimentos têm sido viabilizados com o apoio de agências multilaterais, em especial o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur/NE)", acrescenta, revelando que, graças a essa interatividade, com a contrapartida da União e dos governos estaduais, rodovias estão sendo construídas ou recuperadas e aeroportos, como o de Fortaleza, foram ampliados.

Mão-de-obra

A carência de pessoas capacitadas a atender as necessidades da indústria turística é outro grande problema ainda à espera de solução, principalmente no nordeste. "A melhoria da qualidade dos serviços prestados é essencial para aumentar o fluxo de visitantes e, assim, criar mais oportunidades de trabalho, desencadeando o círculo virtuoso que permitirá melhorar as condições de vida da população brasileira", reconhece Maria Luiza, que está desenhando, em cooperação com o Ministério da Educação, um amplo programa de profissionalização do setor.

Uma das metas do PNT é estabelecer meios de acesso a cursos de qualificação, de forma a permitir um processo de contínuo aprimoramento da mão-de-obra. "Nesse aspecto, a contribuição do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) tem sido muito valiosa", ressalta Maria Luiza, referindo-se às atividades em turismo e hotelaria da instituição, que a tornaram um dos maiores centros de formação profissional do setor em todo o país, tanto em cursos superiores quanto técnicos.

Patrícia Garcia, coordenadora dos cursos superiores de turismo do Senac-SP, reconhece que, embora possam existir dificuldades no mercado de trabalho, a demanda por profissionais qualificados é constante. "Da recepcionista ao gerente, sempre haverá vagas para aqueles que tenham participado de programas de capacitação", afirma. Ela estima que, só no estado de São Paulo, em escolas do Senac existam cerca de mil alunos em cursos profissionalizantes nas áreas de turismo e hotelaria e outros 400 na graduação.

O PNT defende a certificação de ocupações e competências do setor turístico e o estabelecimento de mecanismos de interação entre a oferta e a demanda da qualificação profissional. A meta, até 2007, é certificar 300 mil profissionais do setor.

Para alcançar objetivos tão ambiciosos, a indústria turística nacional está ingressando numa nova fase de parceria entre agentes públicos e privados em que, teoricamente, todos podem sair ganhando. "O setor privado sempre se queixou da falta de apoio governamental, e é exatamente esse o ponto ao qual estamos nos dedicando mais intensamente, por meio do PNT", declara Milton Zuanazzi, secretário de Políticas de Turismo do ministério. As empresas do setor precisam alongar o financiamento dos pacotes e, para que isso se torne possível, o governo está oferecendo linhas de financiamento com taxas de juros 50% abaixo das cobradas no mercado, exatamente para que o consumidor final seja beneficiado.

Ferramenta das mais importantes na dinamização do turismo brasileiro, tanto interno quanto externo, além é claro das linhas de financiamento e articulação das políticas públicas, são as promoções e as campanhas de divulgação da marca Brasil pelo mundo. Desde que o Ministério do Turismo foi isolado numa pasta única, o governo decidiu estabelecer uma espécie de "Tratado de Tordesilhas", no qual tudo o que se referir à promoção do país no exterior fica por conta da Embratur, enquanto todos os aspectos de divulgação de feiras, eventos e atrações no mercado interno são da alçada dos técnicos do ministério.

Capital Buenos Aires

A promoção do turismo nacional no mercado externo terá como conceito estratégico a diversificação da imagem do país. "O trabalho de marketing irá orientar a construção do Brasil como destino turístico moderno, com credibilidade, alegre, jovem e hospitaleiro", declara José Francisco Salles Lopes, diretor de Estudos e Pesquisas da Embratur. Segundo ele, esse programa levará em conta a essência da cultura brasileira, sua diversidade étnica, social e natural e, claro, a difusão da localização geográfica do país para evitar as célebres confusões que persistem entre turistas menos avisados, que "ainda querem conhecer Buenos Aires, a capital do Brasil".

A promoção e o apoio à comercialização dos produtos turísticos nacionais se darão a partir de diversas ações. Entre elas a Embratur destaca a participação em feiras internacionais do setor, com a ampliação da agenda já existente, com foco não somente em lazer, mas também em turismo de negócios, realização e participação em promoções, além de ações de oportunidade em grandes eventos internacionais e brasileiros realizados no exterior.

Entre os filões a que a Embratur dedica grande ênfase está o turismo esportivo. Nesse segmento, a movimentação maior gira em torno da realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, e uma possível Olimpíada de 2012. "Mas também estamos ganhando concorrências para eventos de menor porte, como o campeonato internacional de golfe, de grande impacto entre públicos específicos. Apostamos também na segmentação", acrescenta Lopes.

Particularmente no setor de comunicação e pesquisas, Lopes revela que está sendo criado também um programa de geração e disseminação de informações sobre o turismo no país, com o objetivo de tornar mais transparente o impacto da atividade na economia nacional, assim como orientar os investimentos e a promoção dos resultados obtidos. "Dessa forma, poderemos melhor monitorar as políticas públicas e privadas", afirma.

Ascensão Ásia/Pacífico

Vista num contexto mais amplo, a tarefa da Embratur ganha ainda mais importância. Dados recentes da Organização Mundial do Turismo (OMT), o principal organismo para regulamentação do mercado turístico internacional, com sede em Madri, na Espanha, revelam que em mais 17 anos o problema não será apenas a falta de interesse dos estrangeiros em visitar o Brasil, mas as Américas em conjunto. Estimativas da OMT, no último relatório anual da entidade, indicam que em 2020 o total de chegadas internacionais alcançará a estratosférica cifra de 1,5 bilhão – em 2002, esse volume foi de 714 milhões. Nessa ocasião, a região sudeste asiático/Pacífico terá superado o continente americano como o segundo maior destino turístico global, atrás apenas da Europa.

Os europeus, na avaliação da OMT, se manterão na frente, com 717 milhões de chegadas (mais que o volume mundial observado em 2002), seguidos dos asiáticos (397 milhões). Na seqüência, viriam as Américas (282 milhões), a África (77 milhões) e o Oriente Médio (68 milhões).

Esses números, na avaliação da OMT, indicam uma irresistível ascensão asiática, com destaque óbvio para a China, que nesse período deverá disputar com o Japão o lugar de segundo maior PIB do mundo. Embora a Europa consiga manter a liderança, a OMT adverte que sua fatia tende a ficar gradativamente menor. Em 1995, os destinos europeus representavam 60% do turismo mundial. Em 2020, esse índice terá caído para 45%. Com uma taxa de crescimento de 6,5% ao ano, a região Ásia/Pacífico, num cenário ainda mais distante, caminha para ser o centro hegemônico dessa atividade no mundo. Isso explica, em parte, outro resultado surpreendente das pesquisas da OMT: as viagens de longa distância terão um crescimento mais acentuado que os deslocamentos intra-regionais de média e curta distâncias: representarão 24% de todas as rotas em 2020 (contra 18% em 1995).

Futuramente, também é esperada a ascensão do continente africano, que passará a apresentar o segundo maior crescimento no mundo. E as Américas? O continente americano, na estimativa da OMT, deverá perder precioso ponto percentual na partilha do turismo global. Da fatia de 19,3% em 1995, deverá cair para 18,1% em 2020.

Esses dados são importantes quando cruzados com as informações do WTTC. Daqui a dez anos, as expectativas são de que o impacto econômico das atividades turísticas no mundo oscile em torno de US$ 9 trilhões. Essa cifra, hoje correspondente ao PIB dos Estados Unidos, contém não só a atividade turística direta, mas todas as transações que, de alguma forma, estejam ligadas a ela. Certamente uma riqueza nada desprezível, principalmente para um país em desenvolvimento como o Brasil.

Para todos

Quando se leva em conta que 70% da população brasileira, por suas limitações socioeconômicas, está excluída da indústria turística convencional, fica evidente a importância estratégica que assume, a cada dia, o segmento chamado de turismo social, uma atividade que, por princípio, procura estender a todas as pessoas, sem exceção, o direito e as condições de se deslocar de sua casa, hospedar-se em novas localidades, vivenciar experiências culturais, comerciais ou simplesmente de lazer a que não estão habituadas e retornar, com segurança e a baixo custo, a seu lar. "Na sua essência, a expectativa é universalizar esse grande meio de crescimento pessoal que é o turismo, corriqueiramente usufruído apenas pelos grupos mais favorecidos da sociedade", relata Carlos Cappelini, consultor de agências de viagens, estudioso do assunto e idealizador do portal Girus (www.girus.com.br), dedicado a debater os desafios do setor pela Internet.

Segundo os especialistas, no Brasil, onde cerca de metade da população vive com aproximadamente três salários mínimos mensais, esse segmento possui enorme potencial de desenvolvimento. Apesar de ainda pouco explorado comercialmente, analistas como Cappelini acreditam que, diferentemente da modalidade convencional, em que é alta a margem de lucro nos serviços de transporte e hospedagem, o turismo social pode ser rentável se administrado numa perspectiva de ganho de escala, ou seja, pelo volume de operações.

"Funciona, mais ou menos, como as grandes lojas de atacado, que geram altos faturamentos por meio do elevado número de vendas e não do lucro sobre o produto unitário. Às vezes os ganhos do comércio popular batem os dos estabelecimentos dirigidos às elites", revela Cappelini, atualmente um incentivador da atividade em Santa Catarina, onde atua profissionalmente. Ele lembra, ainda, que o turismo social, por mais paradoxal que possa parecer, é muito mais desenvolvido nos países ricos: "Itália e Alemanha, por exemplo, berços desse tipo de atividade, dispõem de sistemas bastante evoluídos de financiamento de férias das classes de menor poder aquisitivo, e, portanto, não é à toa que esses mercados estão entre os líderes mundiais do setor." Mais recentemente, a China também anunciou estar empenhada em proporcionar um turismo em larga escala e com baixo custo para sua gigantesca população trabalhadora.

No Brasil, Cappelini cita as atividades desenvolvidas pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) como a mais bem-sucedida experiência do setor. "É um exemplo a ser seguido."

Há exatos 40 anos, o Sesc tem procurado difundir quatro princípios básicos em seus programas de turismo social: a democratização do acesso; o caráter de desenvolvimento social dos participantes em ações destinadas a integrá-los em novos ambientes e nos meios sociais visitados; o princípio da educação pelo turismo, entendida como meio educativo informal e, por isso mesmo, de fácil transmissão e absorção de conhecimentos; e a educação para o turismo, que visa à conscientização das pessoas sobre maneiras de desfrutar das viagens e das visitas de forma harmoniosa e responsável.

"Ou seja, entendemos o turismo como um conjunto de ações que impulsionam a sociabilização, favorecem a compreensão dos bens culturais e educam as pessoas para que consumam criticamente um produto turístico, com uma oferta de serviços acessível ao poder aquisitivo do participante", declara Flávia Roberta Costa, a coordenadora de Turismo Social do Sesc-SP. Ela esclarece que a grande maioria daqueles que utilizam os programas desenvolvidos pelo Sesc nessa área, cerca de 70%, tem renda inferior a cinco salários mínimos. Dependendo da situação, contudo, há casos em que são atendidos grupos totalmente carentes, que demandam, portanto, excursão a custo zero para os integrantes.

Educação ao vivo

Dentro desse universo alternativo, com seu evidente conteúdo social, o turismo educativo, entendido como o deslocamento do aluno para estudar in loco um ambiente natural, também vem demonstrando ser uma importante ferramenta como complemento das atividades em sala de aula e na conscientização das novas gerações sobre a realidade brasileira. "Definitivamente é uma forma supereficiente de dar um banho de realidade no estudante, que, por meio de programas bem estruturados, pode experimentar, empiricamente, o que em sala de aula ele vê apenas teoricamente ou, no máximo, em imagens de vídeo ou pela Internet", afirma Marcelo Krings, diretor da agência de viagens Uggi, especializada em educação ambiental. Como exemplo, ele cita programas para estudar biologia tropical, astronomia, manguezais, história do Brasil barroco, acidentes geográficos ou atividades agrícolas.

Entusiasmado com a idéia de levar os programas de estudo de meio, mais comuns nas escolas destinadas às classes média e alta, também aos estabelecimentos públicos, Krings queixa-se, contudo, das dificuldades de lidar com a burocracia oficial. "Nossa idéia é incluir crianças e adolescentes de famílias de renda mais baixa nesse tipo de atividade, mas, infelizmente, as tentativas de parceria com o Estado têm sido frustradas", comenta.

A possibilidade de trabalhar com a rede pública de ensino também anima Paulo Marcos Ragnole Silva, diretor da agência Quíron. "Seria ótimo em todos os aspectos, especialmente sob o prisma da causa social." Ele ressalta, contudo, que para ser sustentável a experiência teria de contar com o apoio de toda a rede fornecedora dos pacotes, incluindo hospedagem, alimentação e transporte, que teria de se contentar com uma margem menor de lucro. "O incentivo do Estado a essa atividade, a exemplo do que acontece com a Lei Rouanet na cultura, também ajudaria a tornar o projeto viável."

revista problemas brasileiros

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