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quinta-feira, 22 de julho de 2010

o olhar sobre a trajetória da asesp 2

Lutas da ASESP


Na década de 1980, já no declínio da ditadura militar, em São Paulo, a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo - ASESP em um movimento em prol do retorno da disciplina de Sociologia no antigo 2º grau, em parceria com um órgão da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, a Coordenadoria de Ensino Pedagógico, [CENP] foi construída uma proposta curricular (diretrizes e normas, metodologia e bibliografia de ensino de Sociologia) para as escolas de 2º grau paulistas. Em 1984, vários comícios são realizados em todo País em favor das eleições diretas. O movimento ficou conhecido como Diretas Já.


Depois do reconhecimento da profissão em 1980 e da regulamentação por Decreto em 1984, muitas entidades sindicais foram fundadas nos Estados, propiciando o aparecimento do Sindicato de Sociólogos, até então uma novidade para estes profissionais das Ciências Sociais


Às vésperas do comício do Vale do Anhangabaú, uma passeatacom mais de 500 sociólogos saiu da antiga sede da ASESP e do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, então na Rua Augusta, e dirigiu-se ao local do comício, tendo à frente Vinícius Caldeira Brant, pesquisador do CEBRAP, presidente à época do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo e ex-presidente da UNE, e que foi professor da UFMG. Seus estudos sobre movimentos sociais e relações de trabalho contribuíram para a evolução da sociologia brasileira.


Em 1986, por reivindicação da ASESP e do Sinsesp, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo realiza concurso público para provimento de cargos de professor em diversas disciplinas e abre vagas para a disciplina de Sociologia, privativa dos sociólogos. Cerca de 1.500 sociólogos se inscrevem e 450 foram considerados aprovados. Em 1991 é motivo de inúmeras congratulações e júbilo a escolha do tema do VI Congresso dos Sociólogos do Estado de São Paulo - "Participação: Realidade e Mito.


Um Olhar sobre a Utopia", tendo em vista os impasses políticoeconômicos da vida brasileira e a necessidade de se refletir sobre a participação de todas as camadas da população no esforço nacional de superação da crise. Sobre o tema, o professor Florestan Fernandes, sociólogo, respeitado intelectual dentro e fora do Brasil, expressou: "(...) Os sociólogos entendem a utopia como a 'negação da ordem existente'.


Não se trata de uma perspectiva irrealista e romântica de descobrir os requisitos de uma 'sociedade perfeita'. Porém de definir tensões e contradições que possam concorrer para a reprodução da ordem existente. Em termos concretos, é a situação histórica em que se debate o Brasil. Por isso, encontro-me compensado pela temática desta convenção. Ela repõe os sociólogos no campo da luta econômica, social e política (...)"



Na literatura sociológica, algumas referências marcantes sobre a ASESP são encontradas em diferentes autores, teses e pesquisas, como "O mercado de trabalho dos cientistas sociais" (Bonelli, 1994); "Sociólogos & Sociologia", "História das suas entidades no Brasil e no mundo", (Mattos & Carvalho, 2005), dentre outras. Desde 2003, lamentavelmente, a ASESP encontra-se desativada, apesar de sua significativa contribuição e legado para a democracia e a sociologia, em diferentes momentos pelos quais passou o associativismo científico e profissional dos sociólogos brasileiro.





Ex-presidentes da ASESP, na sessão solene em comemoração aos 30 anos da Associação, em 2001. Da esquerda para a direita: Sedi Hirano, Carmen Junqueira, Nancy Valadares, Francisco de Oliveira, Antonio Gonçalves, Paulo Edgar A. Resende, Levi Bucalem Ferrari


Na mídia


Vários jornais destacaram a fundação da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo como um marco histórico e passo decisivo no reconhecimento da profissão. Esta caracterização e repercussão da fundação da ASESP aparece, entre outros, em "Sociólogos fundam Associação Diário Popular, 10/8/71", "Fundação da Associação dos Sociólogos de SP Folha de São Paulo, 8/8/71", "Associação de Sociólogos elege primeira diretoria Folha de São Paulo, 11/8/77", "Sociólogos fundam sua Associação Folha da Tarde, 12/8/71", "Sociólogos de SP, já têm a sua associação" Diário Popular, 12/8/71", "Sociólogos fundam Associação Ultima Hora, 12/8/71", "Sociólogos fundam associação O Globo,11/10/71".



ReferênciasBONELLI, Maria da Gloria. "O mercado de trabalho dos cientistas sociais". In Revista Brasileira de Ciências Sociais, no. 25, ano 9, junho de 1994, págs. 110-126 CARVALHO, Lejeune Mato Grosso X.& MATTOS, Sergio Sanandaj. Sociólogos & Sociologia. História das suas entidades no Brasil e no mundo. Vol. I, São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2005. C ARVALHO, Lejeune Mato Grosso & MATTOS, Sérgio S., "Sociólogos e Sociologia: Breve Cronologia da Historia da Ciência, da Organização Estadual e Nacional e da Profissionalização no Brasil", Caderno da Federação Nacional dos Sociólogos, n. 1, março, São Paulo: 1997, 19 p.; MATTOS, Sérgio Sanandaj, Considerações Sobre a Formação Histórica da Asesp e a Profissionalização do Sociólogo, São Paulo: Asesp, 1993, 30 p.




Revista Sociologia

domingo, 18 de julho de 2010

o olhar sobre a trajetória da asesp 1

A ASESP, vocacionada para o debate, esteve sempre presente em diferentes e importantes momentos da trajetória política do País, compartilhando saberes, solidariedades e utopias




O movimento associativo dos sociólogos é um fenômeno historicamente recente. No Brasil, os processos de redemocratização levaram ao surgimento de uma série de organizações e de reflexões sobre o significado do fazer sociológico. Nos anos de 1970, disseminou-se a necessidade da regulamentação da profissão de sociólogo, quase restrita ao campo acadêmico e universitário, formação necessária à intelectualidade brasileira para o avanço da sociedade urbano-industrial.


Seus óbvios reflexos conduziram à ampliação das funções dos sociólogos que passaram a estar presentes, não só nas universidades, mas no campo da educação básica, na área de recursos humanos, nos setores de pesquisa de opinião e de mercado, na assessoria legislativa parlamentar, marketing político, planejamento e desenvolvimento urbano, entre tantas outras. No final da década de 1960, um grupo de sociólogos paulistas começou a se mobilizar para constituir uma associação profissional, tendo em vista a necessidade de lutar pela regulamentação da profissão e delimitação do campo de atuação profissional.


Formou-se então, a partir de outubro de 1969, a "Comissão Pró-Formação da Associação de Sociólogos do Estado de São Paulo - ASESP". Essa Comissão era composta por Eva Alterman Blay, Lia de Freitas Fukui, Sandra Aparecida Baptista de Souza Cabezas, Ana Maria da Cunha Mohor, entre outros. O estudo de campo "Pesquisa sobre a Profissão de Sociólogo", da Professora Aparecida Joly Gouveia, serviu de base preliminar sobre a situação do sociólogo no Estado de São Paulo e deu início ao processo de criação de uma Associação de Sociólogos.
O movimento conquistou o apoio de sociólogos de renome nacional e internacional, bem como da sociedade civil, e, assim, após dois anos de estudos preparatórios, em 10 de agosto de 1971, foi finalmente fundada a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (ASESP) que mereceu significativo destaque na imprensa paulista e nacional, passo decisivo para o reconhecimento da profissão.


A atuação



A ASESP, desde a sua fundação, cumprindo uma exigência histórica, sempre esteve presente nas lutas por democracia (Campanha da Anistia, Diretas Já, etc.) e em diferentes momentos pelos quais passou o associativismo científico e profissional dos sociólogos brasileiros, contribuiu na reflexão crítica e produziu inúmeros estudos. Uma cópia dos anais do seminário "Prática x Produção: Uma reflexão sobre os estudos da Cultura Negra no Brasil hoje" (1982), integra o acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.


Em 1975, diante da morte brutal do jornalista Vladimir Herzog, a diretoria da ASESP, através de nota divulgada nos principais jornais, convidava seus associados para a cerimônia ecumênica a ser realizada na Catedral da Sé, em sua memória. Herzog era marido de Clarice Herzog, socióloga e ex-diretora da ASESP. Esse evento reuniu mais de 10 mil pessoas na Catedral da Sé no dia 31 de outubro de 1975, um evento de repúdio à ditadura militar. Em 1979, levantamento efetuado pela Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo demonstrava a existência dentre os formandos de 34 faculdades, no total de 7.764, no período de 1936 - 1975 (no Estado de São Paulo) de 4.337 Licenciados em Ciências Sociais, 2.605 Bacharéis em Ciências Sociais e 807 Bacharéis e Licenciados em Ciências Sociais.


Em 1981, por iniciativa de Francisco de Oliveira, então presidente da ASESP, foi realizado o 1º Congresso Estadual de Sociólogos no Estado de São Paulo. Ao longo de sua trajetória os congressos da ASESP discutiram temas gerais, como "O Sociólogo e o Futuro da Democracia no Brasil: Condições e Possibilidades (USP, 1981); O Sociólogo e a Questão Social. 50 Anos de Sociologia no Brasil (USP, 1983); Os Sociólogos e a Constituinte (USP, 1985); Caminhos da Sociedade no Brasil Balanço e Perspectivas (USP,1987); Sociologia: Ordem e Desordem (USP,1989); Participação: Realidade e Mito. Um Olhar sobre a Utopia (USP,1991); Velhas e Novas Crises: O papel das Ciências Sociais (Unicamp,1993); Globalização, Neoliberalismo e Questão Social (PUC/SP,1995); Democracia: Consolidação ou Incertezas (USP, 1997); Democracia Social: Social Democracia ou Democracia Radical (Unesp,1999); Olhar sociológico para o novo século: O Brasil e as trajetórias políticas e sociais emergentes (PUC/SP, 2001). Este foi o último realizado, sendo que desde 2003 a entidade encontra-se inativa.


Uma das maiores conquistas da ASESP foi sem dúvida o reconhecimento da profissão e também a criação em 1º de outubro de 1982 da APSESP, entidade pré-sindical, convertida em Sindicato em 1985


O primeiro presidente da ASESP foi o Prof. Dr. Luiz Pereira, livre docente da Universidade de São Paulo. Posteriormente presidiram a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo, intelectuais que formavam boa parte da tradição sociológica brasileira, como Duglas Teixeira Monteiro, Carmen Sylvia A. Junqueira, Cândido Procópio Ferreira de Camargo, Francisco de Oliveira, José Álvaro Moisés, Gabriel Cohn, Sedi Hirano, Eder Sader, Antônio Gonçalves, Levi Bucalém Ferrari, Nancy Valadares de Carvalho, Paulo Edgar de Almeida Resende e Heleieth Iara Bongiovani Saffioti.


Depois do reconhecimento da profissão em 1980 e da regulamentação por Decreto em 1984, muitas entidades sindicais foram fundadas nos Estados, propiciando o aparecimento do Sindicato de Sociólogos, até então uma novidade para estes profissionais das Ciências Sociais. Uma das maiores conquistas da ASESP foi sem dúvida o reconhecimento da profissão e também a criação em 1º de outubro de 1982 da APSESP, entidade pré-sindical, convertida em Sindicato em 1985. A criação do Sindicato dos Sociólogos é consequência de um processo de debates que se iniciou em 1980, entre os sociólogos paulistas.


Início oficial


A sessão solene que instituiu a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo ocorreu no auditório da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientae da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Presidiu a assembléia de fundação da ASESP a Profª Drª Eva Alterman Blay, secretariada por Ana Maria da Cunha Mohor, com a participação do professor Cyro Berlink, da Escola de Sociologia e Política, Maria Alice Forachi Mencari e Luiz Pereira. Agregando, desde então, muitos dos nomes mais expressivos da sociologia brasileira, teve entre os sociólogos sócio-fundadores, além dos componentes acima mencionados, Maria Isaura Pereira de Queiróz, Luiz Pereira, Lia de Freitas Garcia Fukui, Sandra Aparecida Baptista de Souza Cabezas, Léa Maria da Rocha, José de Souza Martins, Mauricio Eduardo Guimarães Cadaval, Antônio Carlos Boa Nova, Sérgio Vassimon, Maria Christina de Souza Campos, entre outros. I


* Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e secretário-geral do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Sinsesp) e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (ASESP). É co-autor do livro Sociólogos & Sociologia. Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo (ss.mattos@uol.com.br)


Revista Sociologia

quarta-feira, 23 de junho de 2010

dito e contradito 2

André Leclerc • Canadense, mas trabalha no Brasil desde 1995. É pesquisador do CNPq pela Universidade Federal do Ceará em Fortaleza e doutor pela Universidade do Québec. Atua em Filosofia da Mente e da Linguagem e possui diversas publicações nessas duas áreas, dentre elas: Meanings, Actions and Agreements. Manuscrito (UNICAMP). , v.32-1, p.249 - 282, 2009

Não

Permita-me descartar de início o dualismo das substâncias. Defender a substancialidade da mente, hoje, não passa de uma curiosidade teológica (pace Swinburne). O verdadeiro debate, há décadas, acontece no seio do Naturalismo Filosófico e opõe os fisicalistas (ou materialistas) reducionistas – partidários da identidade mente-cérebro –, e os fisicalistas não reducionistas que se dividem em vários campos: superveniência, emergentismo, naturalismo biológico, funcionalismo, etc. Neste último caso, a relação não é de identidade, e sim de dependência: o mental, que não é mais concebido como algo substancial, é amarrado ao físico.

O problema com a identidade mente-cérebro é a identidade. Dizer de uma sensação de dor que ela não é nada a não ser a inervação de certas fibras nervosas não é suficiente para calar a pergunta: mas, esta sensação atual de dor no joelho, tão diferente da dor de dente que senti ontem, qua sensação de dor, não tem propriedades diferentes das propriedades da atividade eletroquímica que a causa ou da qual ela depende? Nossa intuição, invariavelmente, quer responder “sim”. Se a identidade é aquela relação regida pelo princípio da indiscernabilidade dos idênticos (Leibniz), se x e y são idênticos se e somente se x e y têm exatamente as mesmas propriedades (e não importa o tipo de propriedade), então, a relação entre a dor e sua base física subjacente, dificilmente, é de identidade.

A mente é “a face representacional do cérebro” (Dretske). As propriedades semânticas dos conteúdos representacionais como ter um sentido, uma referência, uma força, um conteúdo verocondicional, são propriedades relacionais, da mesma família que ser acerca de algo ou representar algo. A questão mais fundamental da semântica filosófica é precisamente a questão de saber como passamos “do físico para o semântico”? Um problema paralelo em Filosofia da Mente, conhecido como o Problema de Brentano, pode ser formulado da seguinte maneira: como um sistema físico, um organismo, por exemplo, pode produzir e manter estados que são acerca de algo distinto de si mesmo? Será que a atividade eletroquímica do cérebro pode produzir algo como a intencionalidade, a propriedade relacional de “ser acerca de algo”, uma propriedade que, obviamente, não sobrevém localmente? Como nossos estados mentais adquirem tal característica? Aqui a teoria da identidade não tem resposta clara.

Tenho uma fotografia em preto e branco do meu pai no dia de seu casamento. É uma fotografia de meu pai, mas o que existe realmente na fotografia é uma distribuição de pontos pretos e brancos sobre um pedaço de papel; meu pai não está “realmente” na fotografia. Se a mente é a face representacional do cérebro, então, neste sentido e por analogia, os conteúdos representacionais e mentais dependem da atividade eletroquímica do cérebro, mas não podem estar por inteiro na cabeça.

Revista Filosofia

Dito e contradito 1

Você acha que cérebro e mente são a mesma coisa?



Gustavo Leal Toledo • Graduado em Filosofia na UERJ e mestre pela PUC-Rio com a dissertação O Argumento dos Zumbis na Filosofia da Mente: são zumbis físicos logicamente possíveis? Doutorou-se na mesma instituição. Tem diversas publicações no Brasil e no exterior. Atualmente é professor da UFSJ, no campus Alto Paraopeba

SIM


Teorias que tentam entender a mente sem ser através do cérebro sofrem o que Jaegwon Kim chamou de sobredeterminação, ou seja, descobrem que todos os poderes causais da mente podem ser explicados pelo cérebro. Ficam, então, com uma mente que “não serve para nada”. Uma possível saída para isso é ressignificar o sentido de ‘mente’, ‘cérebro’, ‘causação’, mas não me parece que mudar o significado de um termo realmente muda algo. Podemos entender o termo ‘causa’ de modo que a causação mental esteja incluída e assim passa a fazer sentido dizer que a mente causa algo. Mas o problema é anterior, pois qual é o real motivo para mudar o significado do termo ‘causa’ senão a nossa própria vontade de que a mente possa causar algo? Mas de onde tiramos que a mente causa algo? De onde tiramos que ela existe?

A resposta costuma ser que é óbvio que ela exista. Mas esta mesma resposta foi oferecida, por séculos, sobre a existência de Deus, bruxas, etc. No entanto, parece haver algo diferente na mente, pois eu tenho uma mente, ela sou eu. Se levanto para ir à padaria é porque quero ir à padaria e desejo comer pão. Querer e desejar são explicações mentalistas para o comportamento. Tal tipo de explicação é conhecido como Psicologia Popular, mas será que devemos continuar usando-a agora que temos novas explicações com poderes preditivos até maiores? O caso da depressão é paradigmático neste sentido: cada vez mais a explicamos não com a Psicologia Popular, mas com a Neurofisiologia e a Neuroquímica.

Uma das críticas a esta tentativa de naturalização da mente é o Argumento dos Zumbis, de David Chalmers, que diz que se um zumbi for fisicamente idêntico a um ser humano, mas sem consciência e nem estados qualitativos (qualia), e for logicamente possível (concebível), então o materialismo é falso. No entanto, tal zumbi teria que ser indistinguível do ser humano. O problema deste argumento surge porque até mesmo o próprio zumbi não poderia saber que é um zumbi, o que significa que nós poderíamos ser um zumbi e não saber!

Se isto for verdade, o argumento fracassa. A resposta que Chalmers oferece a esta crítica é decidir aceitar tal paradoxo, no entanto, isso não é um movimento admissível, pois estamos discutindo a possibilidade lógica de algo. Ele também diz que “devemos levar a consciência a sério”, mas isso também não resolve nada, pois o problema é justamente como isso deve ser feito. Assim, Chalmers estaria pressupondo o que deve explicar. Estaria colocando o coelho dentro da cartola para depois tirá-lo de lá.

Temos, então, que embora não existam argumentos definitivos para reduzir a mente ao cérebro, ou mesmo eliminá-la, não há também bons argumentos contrários a isso. O que nos resta é investigar os próprios motivos de termos começado esta discussão. Fica cada vez mais claro que o verdadeiro problema difícil não é discutir se a mente é ou não o cérebro, mas sim descobrir os motivos de, tradicionalmente, acreditarmos que ela não é. Será que ainda existem motivos bons o suficiente?



Revista filosofia

Relógio Interno 2

Autor: Andrew Bennett Helmann Tradução: Nilza Laiz Nascimento da Silva

"Os níveis de vasopressina aumentam durante o sono e cai a atividade dos neurônios que regulam

Alerta da sede

Trudell e Bourque testaram a hipótese de que a baixa atividade do relógio interno pode permitir que os neurônios osmossensoriais ativem mais facilmente os neurônios liberadores de vasopressina, o que significaria maior retenção de água e menor produção de urina durante o sono.
Para realizar tal tarefa, eles isolaram fatias finas do cérebro de ratos contendo neurônios sensoriais intactos, neurônios liberadores de vasopressina e "neurônios - relógio" [neurônios reguladores do relógio interno]. Mesmo depois de removidos do cérebro, os "neurônios - relógio" continuaram a marcar o tempo.
A seguir, a dupla de pesquisadores estimulou os neurônios sensoriais e registrou a atividade elétrica nos neurônios liberadores de vasopressina a fim de monitorar a comunicação entre os dois grupos de células. E então, observaram o efeito das "células- -relógio" neste circuito.
Quando eles não ativavam as "células-relógio" durante o período de sono, a comunicação entre as células sensoriais e as células liberadoras de vasopressina era mais fácil. Ao contrário, quando eles ativavam as "células-relógio", esta comunicação diminuía notadamente.
Os resultados sugerem que as "células- relógio" funcionam como um regulador da água.
Quando sua atividade está alta, elas impedem que as células sensoriais orientem as células secretoras para liberar vasopressina. E quando as "células-relógio" estão menos ativas, as células sensoriais conseguem facilmente instruir as células secretoras para liberar o hormônio, garantindo assim que o corpo mantenha suas reservas de água.
Colwell salienta que esse estudo foi realizado com ratos, que são animais noturnos. Embora o ciclo da vasopressina e a atividade dos neurônios do relógio biológico sejam semelhantes nos seres humanos e nos ratos, permanece a questão de se o mesmo mecanismo se aplica para as espécies que dormem à noite.
"Mostramos esse mecanismo para este circuito, mas é possível que os neurônios-relógio regulem outros circuitos de maneira semelhante; isso, contudo, precisa ainda ser estudado", afirmou Bourque. Ele conjeturou que estudos futuros poderão revelar se o mesmo mecanismo regula a fome, a sonolência e outros aspectos fisiológicos relacionados aos ritmos circadianos.

Revista Psique

RELÓGIO INTERNO 1

Dispositivo que controla os neurônios da 'sede' é o alvo de estudo de neurofisiologistas que descobriram o porquê do nosso corpo não precisar de água durante o sono


Autor: Andrew Bennett Helmann Tradução: Nilza Laiz Nascimento da Silva


Traduções da revista Nature com exclusividade para o veículo revista no Brasil


Estudo sugere que o relógio interno do corpo ajuda a regular um hormônio responsável pelo armazenamento de água, o que faz as idas ao banheiro e a desidratação noturna não serem um padrão.

Em artigo publicado na revista Nature Neuroscience, os neurofisiologistas Eric Trudel e Charles Bourque do Instituto de Pesquisas do Centro de Saúde da McGill University, em Montreal, no Canadá, apresentaram um mecanismo p pelo qual o sistema circadiano - ou relógio interno - controla a hidratação do organismo.

Ao permitir que as células reguladoras do nível de água ativem as células que liberam vasopressina - hormônio que determina o armazenamento de água - o sistema circadiano mantém o corpo hidratado durante o sono.

"Sabemos há anos que o nível do hormônio vasopressina fica alto durante o sono. Mas ninguém sabia como isso ocorria. Esse grupo de pesquisadores identificou um mecanismo fifisiológico muito preciso que explica como isso ocorre", disse Christopher Colwell, neurocientista da Escola de Medicina David Geffen, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que estuda o sono e os ritmos circadianos.

O corpo regula seu volume de água principalmente equilibrando a entrada de água, através do mecanismo da sede, com a perda de líquido pela produção da urina. Como as pessoas não bebem água durante o sono, o corpo tem que minimizar a sua perda para se manter suficientemente hidratado. Os cientistas sabiam que baixos níveis de água estimulam um grupo de células chamadas neurônios osmossensoriais, que por sua vez ativam outro grupo de neurônios a liberar a vasopressina na corrente sanguínea. Os níveis de vasopressina aumentam durante o sono e cai a atividade dos neurônios que regulam o relógio interno.

Revista Psique

A BELEZA DOS PÁSSAROS EM VOO

De encontro à religiosidade, percebemos que a beleza está nos mínimos detalhes do nosso planeta, pois tudo se resume a imagem e semelhança da perfeição de Deus







Rubem Alves




A literatura é um processo de transformações alquímicas. O escritor transforma sua carne e o seu sangue em palavras e diz aos seus leitores: "Leiam! Comam! Bebam! Isso é a minha carne! Isso é o meu sangue!" A experiência literária é um ritual antropofágico. Antropofagia não é gastronomia. É magia. Come-se o corpo de um morto para se apropriar de suas virtudes.

Não é esse o objetivo da eucaristia, ritual antropofágico supremo? Come-se e bebe-se a carne e o sangue de Cristo para se ficar semelhante a ele. Eu mesmo sou o que sou pelos escritores que devorei... E, se escrevo, é na esperança de ser devorado pelos meus leitores.

Foi longo o itinerário que segui. Minha infância foi uma infância feliz. Vivi anos de pobreza, mas não tenho desses anos nem uma memória triste. As crianças ficam felizes com pouca coisa. Não era preciso dizer os nomes dos deuses nem eu os sabia. O sagrado aparecia, sem nome, no capim, nos pássaros, nos riachos, na chuva, nas árvores, nas nuvens, nos animais. Isso me dava alegria! Como no paraíso... No paraíso não havia templos. Deus andava pelo jardim, extasiado, dizendo: "Como é belo! Como é belo!" A beleza é a face visível de Deus.

Foi minha mãe quem primeiro me falou de Deus. Ensinou-me a orar ao ir para a cama. Há a morte, o terror que no escuro nos espreita. Há uma alma que sobrevive à morte e vai para algum lugar. Há um Deus que é o senhor do mundo depois da morte. Meu sentimento foi medo. Rompia-se a felicidade paradisíaca. Será o medo o início da religião? Medo da morte. Medo de abandonar este mundo luminoso!

Do inferno nunca tive medo. Talvez tenha sido essa a razão por que nunca consegui ser ortodoxo. Pois o fato é que o inferno é a base sobre a qual a Teologia Cristã se construiu - exceção feita aos místicos. A Teologia Cristã tradicional é um pião enorme que gira sobre essa aguda ponta de ferro chamada inferno. Mesmo quando se faz silêncio sobre ele, é ele que mantém o pião rodando: quem está em cima do pião que roda não pode ver a ponta de ferro que torna possível o seu giro. Sem essa ponta, o pião para de girar e cai. Pois Cristo não morreu na cruz para nos salvar do inferno, como reza a Teologia Ortodoxa?

Inconscientemente nunca acreditei que Deus pudesse lançar uma alma ao inferno por toda a eternidade. É crueldade demais! E também nunca fui atraído pelas propaladas delícias do céu. Para dizer a verdade, não conheço nem uma pessoa que esteja ansiosa por deixar as pequenas alegrias desta vida para gozar eternamente a felicidade celestial perfeita. As pessoas religiosas que conheço cuidam bem da saúde, controlam o colesterol, a pressão, a glicemia... Elas querem continuar por aqui. Não querem partir.

Esta alegria de viver me faz encontrar Deus a passear pelo jardim ao vento fresco da tarde. Como eu, Deus prefere as delícias deste mundo material às delícias espirituais do céu. É claro que, se ele estivesse feliz nos céus, não teria criado a terra. Pois Deus, segundo os teólogos, em virtude de sua perfeição, não pode criar o pior. Faz sempre o melhor. Assim, o paraíso tem de ser melhor que os céus que já havia. E Deus gostou tanto da terra e de seus jardins que resolveu para ela se mudar em definitivo e se encarnou eternamente. Deus ama a vida sobre a terra, mesmo com a terrível possibilidade de morrer. Porque a vida é bela a despeito de tudo.



Rubem Alves é escritor, educador e psicanalista




Revista Psique