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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Olho Grego 2

Os temas pequenos da filosofia



Renato Janine Ribeiro

Civilização


Geyse Arruda, aluna hostilizada em uma universidade de São Paulo por usar um vestido curto


Um dos principais livros de Norbert Elias é O processo civilizador, em que ele conta, com detalhes, mas também com interpretações refinadas, essa gradual conquista da educação sobre a grosseria. (Devo dizer que nem todos o leem assim. Alguns acham que ele mostra como os "bons modos" são uma forma - violenta - de impor ordem na sociedade, lançando desdém sobre os rústicos).

Talvez sua ideia mais oportuna de lembrar, hoje, seja que a exibição cada vez maior do corpo, sobretudo feminino, nas últimas décadas vem junto com um aumento de autocontrole. É o contrário do que imaginaríamos à primeira vista. Quando se adota o biquíni e depois o fio-dental, tem-se a impressão de que um, permitam a palavra, liberou geral. Mas não é nada disso. O homem que vê uma mulher com quase todo o corpo nu tem que agir como se ela estivesse inteiramente vestida. Não pode atacá-la, não pode desrespeitá-la. Mas isso exige esforço por parte dele.

Portanto, não ocorrem apenas mudanças porque as pessoas usam roupas mais exíguas. Elas ocorrem também porque quem lida com elas tem de se adaptar a isso. O aparente "ganho" erótico de enxergar mais do corpo alheio é compensado por um seguro "custo" de ter que se conter mais que no passado. Os jovens que vaiaram uma colega na Uniban porque usava um microvestido, que o digam: faltou-lhes autocontenção.

Por isso, o que temos em cena não é algo apenas político. É claro que podemos fazer uma interpretação política do que as boas maneiras representam. Mas seu principal papel é social, mais que político. Constrói-se, nas palavras de Elias, uma civilização. Os costumes são civilizados. (O livro dele, A civilização dos costumes, deve ter o título entendido como o civilizar dos costumes, e não como uma civilização que se caracterizaria pelos costumes). Isso muda o mundo.

Questões Pequenas


A etiqueta, dizia, é uma pequena ética. As questões de que Elias trata são pequenas, também. Mas são fundamentais. Dizem respeito ao que Foucault chamaria uma microfisica. Cobrem ações que afetam o dia-a-dia de todos: são dezenas ou centenas de bilhões de gestos diários que expressam nosso respeito, nossa contenção - ou nosso desdém, quem sabe.Norbert Elias demorou, talvez por se ocupar de matéria considerada pequena, para ser reconhecido. Escreveu sua grande obra, que mencionei, em 1939. Alemão, ele estava exilado na Inglaterra. Mal se notou esse livro. Chegou, na década de 1960, a ir dar aulas na recém-independente Gana, o que mostra como a academia o ignorava. Contudo, em seus últimos anos de vida, teve reconhecimento. Hoje, é uma referência obrigatória nas Ciências Sociais e na História - e as questões que levanta têm forte interesse filosófico, quando mais não seja porque a "pequena ética" nos faz perguntar sobre suas fronteiras com uma "grande ética".



Revista Filosofia

Olho Grego


Os temas pequenos da filosofia


Renato Janine Ribeiro


Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo (USP). http://www.renatojanine.pro.br/

De onde vem a palavra etiqueta, usada para tratar dos bons modos, maneiras decentes e gestos bem educados? Uma etimologia tenaz a deriva da "pequena ética", uma vez que em espanhol e mesmo em português podemos usar o sufixo -eta como diminutivo: a etiqueta seria então uma ética menor. Hobbes, por exemplo, diz a certa altura do Leviatã (1651) que não vai tratar de small morals, da moral pequena, da moralzinha. É uma forma de traduzir a etiqueta.
Outra origem se encontra nos dicionários de francês: étiquette seria o rótulo que se colocava nos sacos em que se guardavam processos judiciais, na França do século XVI. A etiqueta-rótulo dizia o que estava contido dentro deles. Por- tanto, a etiqueta seria um rótulo. É algo que está fora que indica o que ou quem está dentro. É uma aparência que mostra a essência.
A etiqueta se impõe na passagem da Idade Média à Renascença. Foi tema fartamente estudado por Norbert Elias, Johan Huizinga e por mim mesmo. Ela une os dois sentidos acima. Por um lado, é um conjunto de regras que não tem a profundidade da grande moral, da verdadeira ética. São regras que devem ser seguidas. Uma ética mais forte não tem rol do que é certo ou errado.

As duas etiquetas


Anos atrás, Antonio Candido me disse que havia duas etiquetas, ambas se constituindo no final da Idade Média. Uma era a etiqueta da submissão diante da hierarquia, que nasce na corte de Borgonha. Outra era a etiqueta entre iguais, que cresce nos Países Baixos. Ambas demonstram respeito. Mas um é o respeito do inferior, outro o do igual.

Fui pesquisar isso e acabei escrevendo um pequeno livro a respeito, A etiqueta no Antigo Regime, que deve bastante a Norbert Elias e a Johan Huizinga. É curioso que as duas etiquetas tenham nascido em terras que pertenciam ao mesmo senhor, o duque de Borgonha - embora a Borgonha propriamente dita fosse domínio feudal e os Países Baixos, cidades autônomas e desenvolvidas.
Mas o ponto principal é que, em face de uma Idade Média rústica, o século XIV cria costumes mais refinados. Os bons modos são uma forma de demonstrar respeito diante do outro. Há vários tipos de outro. Um é o príncipe. Diante dele, as pessoas se ajoelham: elas o veneram quase como se ele fosse o próprio Cristo. Outro é o tipo de respeito dos burgueses entre si. Huizinga conta uma história de dois cidadãos que se encontram numa ruela muito estreita, e ficam um pedindo ao outro que passe, "não, o senhor primeiro": quinze minutos de rapapés.

E há ainda a mulher. Respeitar a mulher exige um cuidado com a linguagem e a postura física que rompe com os modos medievais. No começo do século XIII, quando morre o conde Guilherme Marechal, regente da Inglaterra, nem se mencionam os nomes de sua mulher e filhas. Elas mal aparecem. Entretanto, quando vão aumentando os torneios, ocasiões em que os nobres simulam guerrear em frente às mulheres, elas vão adquirindo importância. Isso significa adotar maneiras mais cuidadas, evitar grosserias e se refinar.

Revista Filosofia

Respeito ao clássico

Marx, apesar de ter deixado seu legado há mais de um século, permanece necessário na sociedade



O desenvolvimento do sistema capitalista não fez com que a estruturação teórica do pensamento de Marx não se fundamentasse na estrutura econômica e social atual. O produto continua sendo propriedade do capitalista, e não do operário, assim, "O capitalista para, por exemplo, o valor diário da força de trabalho; logo, o seu uso lhe pertence. Do mesmo modo lhe pertencem os outros elementos necessários à fabricação do produto: os meios de produção." (MARX, 1982, p. 34).

O plus da atualidade é que os meios de produção valem mais do que a própria força de trabalho, ou seja, as máquinas são muito mais valorizadas que as pessoas, salvo exceções. Hoje, prefere-se investir em tecnologia a valorizar pessoas, afinal as máquinas são, muitas vezes, mais eficientes, não faltam no serviço, conseguem fazer o trabalho em um tempo muito mais diminuto e quando quebram podem ser substituídas sem que o produto final se altere.

A mais-valia - coeficiente entre o valor que os trabalhadores produzem e os respectivos salários, é uma diferença que acaba se sintetizando em um trabalho gratuito, uma venda sem remuneração, uma transferência de excedente para os capitalistas, a qual se resume no LUCRO e também em uma grande ferramenta da divisão de classe no Sistema Capitalista - continua sendo um dos principais abusos dos burgueses, ainda mais com o grande índice de desenvolvimento tecnológico, porém, esta é "camuflada" pela famosa Participação dos Lucros e Resultados (PLR).

Historicamente, uma das lutas dos trabalhadores se sintetiza na tentativa de que as pessoas participem não somente dos problemas de uma empresa, mas também das decisões e dos resultados alcançados pelo grupo empresarial

ATUAÇÃO DO HOMEM

Historicamente, uma das lutas dos trabalhadores se sintetiza na tentativa de que as pessoas participem não somente dos problemas de uma empresa, mas também das decisões e dos resultados alcançados pelo grupo empresarial. Surge aí um conceito de administração participativa, como um mecanismo de recompensa ao trabalho dos proprietários aos trabalhadores, o que, teoricamente, mantêm os trabalhadores próximos às tomadas de decisões sobre seu próprio trabalho.

A luta pela obtenção, na prática, da PLR é tão grande que, certamente, deixou-se de lado a reivindicação proposta por Marx com relação à mais-valia, algo que, se calculado corretamente, seria, quantitativamente, um valor muito maior que a própria PLR. Além da venda da força de trabalho, da existência da mais-valia e da PLR, a não reflexão sobre os acontecimentos históricos está cada vez mais fundamentada, o que justifica Marx afirmar que a força motriz da História é a luta de classes.

As classes sociais, atualmente, no Brasil, não conseguem se unir para reivindicar direitos, e com isso a corrupção está cada vez maior, a classe dominante continua fazendo o que deseja com a "massa" e assim a dominação capitalista se fundamenta com mais vigor. Quando Marx afirmava: "Proletários de todos os países, uni-vos!" estava mostrando que a união da maioria poderia fazer com que opressão, possibilitada pelo Sistema Capitalista, se desconfigurasse, isso por intermédio de uma Revolução.

E, por incrível que pareça, é disso que estamos necessitando no século XXI, não necessariamente de uma Revolução concreta, mas quem sabe várias reformas, que trouxessem uma modificação nas estruturas vigentes. Mas para isso seria inevitável a prerrogativa de Marx, UNI-VOS! Uni-vos a favor da reflexão, das reivindicações, das estruturas que não concordamos, do fim dos pensamentos opressores e do basta a todas essas reclamações feitas diariamente sem uma fundamentação teórica, sem nada para que calcar concretamente, e de exigências individuais.

Marx, ou outro clássico que se identifique? Necessita-se deles mais do que enxerga-se, são de fundamentos que surgem reflexões coerentes.

Alguns dos principais livros escritos por Karl Marx:


* O manifesto do partido comunista
* A ideologia alemã
* O capital
* Manuscritos econômico-

Livros escritos sobre ele:
* KARL Marx : sociologia. FERNANDES, F. (org.)
* O MARXISMO e o estado. BOBBIO, N ; BOFFA, M ; CERRONI, U ; GERRATANA, V


* Tatiana Martins alméri é socióloga pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Sociologia Política, docente na UNIP e na FATEC (taalmeri2@hotmail.com
)

revista sociologia

sábado, 23 de janeiro de 2010

Solidão compartilhada

A solidão não precisa ser tratada como se fosse uma sensação ruim. Muitas vezes ela permite desenvolver algum tipo de atividade positiva. O ócio é abordado na revista Filosofia Ciência & Vida [edição 12] como um momento proveitoso e de possível criatividade. "Sem uma disponibilidade de tempo, sem certa ociosidade, você não tem como criar. Não só para filosofar, mas descansar", afirma o filósofo Daniel Leandro Gonzales. A solidão pode ser ainda uma celebração da própria vida, na medida em que se atribui sentido, prazer e uma série de condições e valores. Gonzales relembra ainda que o escravo grego não tinha tempo livre, sozinho, e que sem esse ócio as pessoas não tem tempo para arranjar soluções para o mundo atual e para suas próprias vidas. "Precisamos pensar em como solucionar os problemas, e hoje estamos perdendo essa condição", finaliza.

A luguel de amigos

O modo com que as crianças são criadas pode influenciar na tarefa de desenvolver as "memórias de companhia" e reduzir sua capacidade de sentir-se bem com a solidão quando adultas

Lívia Gomes desenvolveu sua dissertação de mestrado sobre as semânticas da amizade e suas implicações políticas. "A perversão da amizade em mercadoria comprável revela um sintoma extremamente sério de brutal desqualificação e degradação das relações afetivas, um cenário gravíssimo de mortificação da condição de humanidade", ensina a psicóloga social.

"Contudo, esse contexto gritante de aviltamento da afetividade, de impiedoso desgaste do tecido afetivo, soa apenas como mais um efeito banal em tempos de abundância da violência", observa a especialista, inserindo sua tese no tempo presente. "A depreciação da amizade e a cotidiana banalização do outro revelam uma degradante situação de carnificina da alteridade, que pode ser indicada nas novas e alarmantes modalidades de capitalização da amizade", completa.

O desvirtuamento da amizade tem, para a psicóloga, assumido contornos impressionantes. Ela lembra que, em maio de 2009, o site iG anunciava: "Se você não tem amigos e sofre com a solidão, seus problemas acabaram! Agora já é possível contratar um amigo para estar sempre ao seu lado".

De acordo com Lívia, a chamada era para um serviço intitulado "Amigos de Aluguel" que, por si só, já indicava ser possível alugar um amigo como companhia para os mais inusitados passeios, eventos, viagens e baladas.

"O site Amigos de Aluguel é apresentado como solução para os solitários, bem como para os jovens tímidos com dificuldade de se sociabilizar que podem 'alugar um amigo', por cerca de R$ 15,00 reais a hora, caso queiram conversar com alguém, tenham uma festa para ir, ou estejam cansados de almoçarem sozinhos", esclarece a especialista.

Segundo a psicóloga, "a absurdidade do aluguel de amigo é da ordem do vilipêndio ao cogitar que a amizade tem preço". Ora, a palavra aluguel pressupõe tempo e preço determinados que não condizem com a gratuidade e generosidade próprias do gesto de amizade. A semântica da amizade concerne a um vínculo de diálogo numa condição de igualdade política, ou seja, o amigo é aquele com quem se pode conversar abertamente em uma relação horizontal, baseada em estima e confiança conquistadas, não entregues mediante o pagamento do contratante ao contratado".

Além disso, ela pondera: "a qualidade política da amizade designa um vínculo aberto de experimentação, cuja imprevisibilidade e indeterminação não condizem com a rigidez da relação contratual, que impõe condições prévias de agendamento, roteiro, orçamento e depósito em conta bancária".

Para Lívia Gomes, essa prática traz ainda um caráter perverso, pois forja uma solução para solitários que têm dificuldade de se rela- cionar. "Contratar uma companhia temporária não resolve as questões relativas à sociabilidade.


"A solidão pode se tornar um proBlema para os indivÍduos que não conseguem permanecer Bem consigo mesmos, quando sozinHos ou atÉ 'na multidão"

Aqueles que sofrem com solidão, inseguranças, timidez devem procurar solucioná-las com a ajuda de um profissional qualificado para tra- balho de acompanhamento psicológico em que se busca o sentido destes problemas".

Trabalho e PolÍtica Segundo John Cacioppo, solidão refere-se à percepção pessoal de isolamento social, estando o indivíduo, ou não, ao redor de outras pessoas. Desta forma, também no ambiente de trabalho, uma pessoa pode sentir-se isolada dos colegas, enquanto outra, na mesma situação, pode sen- tir-se conectada.

A amizade, segundo Lívia Gomes, além de me- lhorar a qualidade das relações e a produtividade das pessoas, reduz o estresse no ambiente de trabalho. "A relação de apoio entre os amigos trabalhadores é fundamental para a saúde mental e para a proteção de doenças, pois um ambiente tenso - no qual há predomínio de relações hostis e de competitividade - pode produzir uma série de doenças", afirma.

A psicóloga ressalta que "o apoio de amigos, a companhia dos outros, aparecem nos discur- sos como sendo fundamentais nas práticas de cidadania, nos momentos em que o lutar junto dá o tom na busca pela realização de interesses coletivos". E conclui: "Os resultados demons- traram que a relação de amizade contribui com movimentos coletivos de resistência e cidadania, precisamente porque ela implica ajuda mútua entre amigos, possibilitando a formação de laços de parcerias e engajamento político.

Internet não é vilã

Dados do IBGE, coletados em 2006 em parceria com o Comitê Gestor da Internet (CGI.br), mostram que 32,1 milhões de pes- soas acessaram a Internet pelo menos uma vez no Brasil.

Os internautas tinham em média 28 anos de idade. Sessenta e oito por cento das pes- soas usaram a ferramenta para se comunicar com outras pessoas, a segunda maior moti- vação para o uso da Internet, ficando atrás apenas de Educação e Aprendizado (71,7%).

Mesmo sabendo que cada vez mais pes- soas usam a Internet para se comunicar, ela ainda é vista por muitos como incentiva- dora do isolamento social e formadora de laços frágeis.



Rede social


A febre do momento, em termos de redes sociais, é o Twitter. Trata-se de uma rede social livre e de micro- blogging, serviço que permite aos usuários enviar e ler mensagens conhecido como tweets. Tweets são baseados em textos-mensagens de até 140 caracteres exibidos na página do autor do perfil e entregues aos assinantes do autor, que são conhecidos como seguidores. Remetentes podem restringir a entrega para aqueles em seu círculo de amigos ou, por omissão, permitir o acesso aberto.

Os usuários podem enviar e receber tweets via o site Twitter, Short Message Service (SMS) ou aplicações externas. Tudo, claro, de graça.



Revista psique

Solidão compartilhada


Psicólogo e autor do livro Relacio- namento Amoroso, Ailton Amélio da Silva diz que a solidão pode não estar condicionada a especificidades dos tempos atuais, e sim a fatores mais anti- gos e conhecidos, como a timidez. "A timidez é um problema que acomete cerca de 50% dos jovens brasileiros, dificultando as intera- ções deles com outros indivíduos", revela Ail- ton. "Mas esse dado não é exclusivo do país: algumas fontes sugerem que as estatísticas americanas, por exemplo, são similares".


O especialista alerta: "um pouco de solidão é útil, e até necessário". Ele explica que alguns indivíduos podem se sentir pressionados pelo ritmo de convivência imposto pela modernida- de, e que, nesse caso, uma dose segura de solidão ajuda a superar a sensação de desconforto. "O isolamento moderado contribui para a reflexão", acrescenta. (Veja box Solidão e o ócio criativo)


No entanto, segundo Ailton da Silva, "algumas vezes, a solidão pode estar condi- cionada por costumes, capazes de adquirir contornos patológicos. O 'vício' no uso de computadores, por exemplo, tem o potencial de provocar anomalias curiosas: recentemen- te houve no Japão uma pandemia de casos de jovens que se recusavam a sair de seus quartos, por estarem utilizando seus compu- tadores. Tais indivíduos simplesmente aban- donavam suas vidas profissionais, escolares e sociais para passar dias (e noites) em frente a jogos e outras atividades virtuais".


A preocupação é que as atividades virtu- ais acabem funcionando, em alguns jovens, como um paliativo para as suas deficiências de interação social. "De certa forma, os jogos e sites de relacionamento podem 'acentuar' a solidão, criando laços instáveis e dispensá- veis", afirma Silva.


Solidão e distúrbios


Estudo internacional realizado com 176 estudantes universitários revela que a solidão media a relação entre interdependência pessoal e insatisfação com o corpo.


Mary Pritchard e Kyra Yalch, do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Boise, nos Estados Unidos, chegaram a esta conclusão após avaliarem, por meio de questionários, a relação da solidão com a dependência interpessoal e com os transtornos alimentares (desejo de emagrecer, sintomas bulímicos e insatisfação com o corpo).


Em sua investigação, publicada este ano na Personality and Individual Differences (46:341-346), as autoras concluem: como a solidão está ligada à insatisfação com o corpo, é importante que ela seja abordada em programas de tratamentos para distúrbios alimentares. Segundo a dupla, a redução dos índices de solidão por meio de terapias de grupo permite diminuir a dependência interpessoal


Por que não ficamos sozinhos?


A médica e psicanalista Sônia Eva Tucherman, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), afirma que "não existem muitas razões específicas para o problema da solidão, hoje".


De acordo com a especialista, se existe algum ambiente capaz de condicionar casos de 'solidão patológica', este "talvez seja o das rotinas de trabalho modernas, que isolam e cobram bastante de cada indivíduo. É fato que, hoje, trabalha-se muito mais do que há alguns anos. Isso provoca, em algumas situações, um isolamento afetivo apto a impedir as interações", esclarece Tucherman.


Para ela, "a solidão pode se tornar um problema para os indivíduos que não conseguem permanecer bem consigo mesmos, quando sozinhos ou até 'na multidão'. Mas, para pessoas que lidam melhor com o 'estar sozinho', ou que conseguem 'fazer companhia para si mesmos', não há qualquer problema".


De acordo com a psicanalista, 'defeitos' na criação podem atrapalhar o bebê na tarefa de "desenvolver as 'memórias de companhia', e, em consequência disso, reduzir sua capacidade de, mais tarde, permanecer sozinho, sentindo-se bem".


Cultura, costumes e consumo


Solidão patológica é potencialmente desenvolvida, segundo especialista, nos locais de trabalho onde as jornadas são longas. As rotinas profissionais da modernidade exigem demais das pessoas e acabam isolando-as do convívio social



Pesquisa realizada com 721 estudantes de três universidades de Ancara, na Turquia, mostrou que o nível de solidão entre adultos jovens é bem elevado. Ugur Özdemir e Tarik Tuncay, da Hacettepe University, afirmam no artigo publicado em 2008 na publicação Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health que 60,2% dos participantes consideraram-se solitários. A média de idade entre os estudantes era de 21,58 anos.



Segundo John Cacioppo, diretor do Centro para a Neurociência Social e Cognitiva da Universidade de Chicago, é difícil dizer se, atualmente, as pessoas estão mais solitárias do que antes, pois a solidão não foi mensurada durante um período de tempo suficiente. Entretanto, é possível afirmar que as circunstâncias atuais promovem maior isolamento. "Além disso, há um estudo de McPherson e colegas que sugere que as pessoas têm menos confidentes do que há 20 anos atrás" declarou ele em entrevista à Agência Notisa. "Isto poderia levar a crer que a solidão está associada com a sociedade contemporânea", completou.


" Quando a solidão engendra um quadro severo de melancolia pode ser capaz de levar à morte"



Para Lívia Godinho Nery Gomes, mestre em Psicologia Social e doutoranda do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, "a contemporaneidade tem sido marcada pela grande atenção voltada à obtenção de satisfação nas relações, exatamente porque estas não têm sido consideradas plenamente satisfatórias".


Ela estende sua análise: "Na sociedade de consumo, a estratégia do mercado de tratar o consumidor como alguém que precisa sempre sair na frente na corrida pelo sucesso, induz à preocupação exclusiva com a realização pessoal. O estilo de vida consumista estimula os sujeitos a empenharem-se com exclusividade na busca pelo sucesso particular, desconsiderando a condição do outro, visto como um potencial concorrente".


Interligado e independente


Em seu Loneliness: Human Nature and the Need for Social Connection, de 2008, Cacioppo e o escritor William Patrick mostram que o ser humano é fisiológica e psicologicamente mais interdependente do que se supunha.




Se antes a febre entre os jovens eram os torpedos pelo celular, agora há os sites virtuais de relacionamento. Os jovens se ampliam no espaço da web e, por vezes, se ausentam do convívio social real



"O giro fusiforme é uma área na parte inferior do cérebro que está envolvido na percepção da face. A aptidão de reconhecer pessoas através de sua face é tão importante que uma área do cérebro é especializada nesta função", explica Cacioppo. "Da mesma forma, a comunicação com outros é importante se quisermos ser uma espécie social, e há áreas nas regiões temporal e frontal inferior do cérebro que estão envolvidas na produção da linguagem e da percepção. Finalmente, há muitas regiões, incluindo o giro frontal inferior, que estão envolvidas na percepção social chamado sistema de neurônios espelho", completa.


"A solidão se torna um problema quando se afirma em um contexto de isolamento social", analisa Lívia Gomes, "de afastamento dos amigos e da família num movimento de impedimento da interdependência como condição da constituição da humanidade do homem - o que dificulta a afirmação da vida e diminui a potência de agir, podendo engendrar quadro severo de melancolia capaz de levar à morte". (Veja box sobre Distúrbios Alimentares e Solidão)


Nesse sentido, Lívia ressalta que o mundo torna-se humanizado quando é transformado em discurso. "Esse humanitarismo a que se chega no discurso da amizade era chamado pelos gregos de filantropia, o 'amor do homem', já que se manifesta na presteza em compartilhar o mundo com outros homens", observa a especialista.


Revista Psique
Novas constituições e valores redesenham a estrutura familiar contemporânea e trazem para os divãs toda a complexidade dessas inovações
Esse novo conceito muda também a relação do indivíduo com o mundo. Mães e pais sentem-se cada vez mais pressionados pela pós-modernidade e refletem esse anseio para a vida em grupo, no seio familiar. É cada vez mais comum filhos acumularem atividades extraescolares (cursos de inglês, futebol, balé, escoteiro) enquanto os pais acumulam horas de trabalho. A falta de contato, de diálogo, de interação é preocupante. O jantar com a família é constantemente adiado e a falta de tempo (ícone dos tempos modernos) deixa a mesa cada vez mais vazia.
É nesse contexto que se observa, de forma nítida, o fenômeno que denomino "terceirização da família". Trata-se de um deslocamento do conceito econômico contempo-râneo "terceirização de serviços e de produção", adotado por empresas que buscavam racionalizar custos e aumentar sua eficiência. Para poder se dedicar às atividades momentaneamente mais impor-tantes, essas empresas delegam para outras determinadas operações de sua produção ou do serviço que prestam.
De maneira similar, a família atual, para se manter no compasso das exigências sociais e econômicas de nossa sociedade, parece terceirizar algumas de suas funções, dentre elas a da educação dos filhos...
Seja como for, observa-se hoje que a revisão do modelo tradicional de família tem provocado mudanças nas funções familiares, das quais, uma das principais parece ser representada pelo fato da interdição e limites não serem mais consideradas funções ligadas ao sexo paterno.
Novo núcleo multidimensional

Viver na era atual não nos permite o distanciamento suficiente para sequer esboçar respostas para as questões que permeiam a família moderna, tão carregadas de significado e de aflições, entre os psicanalistas.
A família de nosso tempo pode ser vista de forma multidimensional, como mundo de relações, como grupo de indivíduos e mesmo, sob o vértice da Psicanálise de família, como paciente.
"Na nova construção simbólica da família, a noção de sexo vem perdendo espaço para os domínios do gênero"
Assim, podemos pensar o casal e seus dependentes como um grupo de indivíduos interligados por um mundo de relações simbólicas que, no tempo e no espaço, constroem uma história sobre si própria, seus próprios mitos no qual eu, você, as crianças, são ideias com valores e forças diferentes, na linha do tempo e nos diferentes arranjos familiares: carregam a força do sangue no arranjo heterossexual e tão somente a força do afeto nos casais homoparentais.
Pais do mesmo sexoNessa nova construção simbólica da família, a noção de sexo vem perdendo espaço para os domínios do gênero, criando as condições psicossociais para a aceitação e o reconhecimento oficial da família homoparental e das diversas outras configurações familiares discutidas na atualidade. Isso trás para o primeiro plano da psicanálise de família, a questão dos organizadores familiares trazida por Eiguer, na medida em que eles parecem constituir uma heurística capaz de nos ajudar a pensar as bases psíquicas com que as novas famílias estão se constituindo
Podemos pensá-la também com a ajuda de Eiguer que a vê como um grupo de indivíduos entrelaçados por vínculos, no qual as relações de objetos e as transferências são ordenadas por organizadores familiares, de forma que as diferenças da estrutura individual se apagam diante da importância atribuída à teia de relações, continuamente estabelecidas e reconstituídas pelo grupo familiar.
Educação compartilhada com a escolaNa atualidade não é mais possível contar apenas com o modelo familiar nuclear como ambiente de formação da subjetivação humana, porque as mudanças sociais que marcaram nossa época levaram a um apagamento dos símbolos que marcavam os espaços familiares tradicionais, esmaecidos pela ausência da mulher na casa; pela terceirização da educação inicial da criança, agora partilhada com a pré-escola pelas mães que trabalham fora; pelas mudanças no mercado de trabalho, que vêm abalando a imagem do pai provedor do sustento/ mãe provedora de afeto, que a dupla de genitores tradicionais mantinha.


Nessa nova construção simbólica da família, a noção de sexo vem perdendo espaço para os domínios do gênero, criando as condições psicossociais para a aceitação e o reconhecimento oficial da família homoparental e das diversas outras configurações familiares discutidas na atualidade. Isso traz para o primeiro plano da Psicanálise de família a questão dos organizadores familiares trazida por Eiguer, na medida em que eles parecem constituir uma heurística capaz de nos ajudar a pensar as bases psíquicas com que as novas famílias estão se constituindo.
Apesar disso tudo, o conceito de família, - seja ela estruturada pelo casal heterossexual ou homossexual, matriarcal, tradicional ou constituída por meio-irmãos -, permanece firme no ideal do ser humano. A família traz os limites do espaço mediado por relações afetivas, capazes de propiciar a seus membros o espaço mental necessário para o desenvolvimento do pensamento, capacidade para delimitar fronteiras adequadas, entre a falta e o excesso, de forma que exista a possibilidade de manter trocas afetivas que contenham funções de ouvir, discernir e acompanhar, sem ceder à ânsia de eliminar conflitos.

Para assistir No filme Shelter, a irmã deixa seu filho a maior parte do tempo com o protagonista, para curtir a farra. Cansado dessa situação, e ainda apaixonado pelo irmão do seu amigo, o jovem resolve adotar o sobrinho com o seu amor e construir uma família.
ReferênciasFREUD S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade - 1905. Rio de Janeiro: Imago,1989 CASSIRER E. Ensaio sobre o Homem. São Paulo: Martins Fontes, 1997 SARTI C. A. A família como ordem simbólica. São Paulo: Psicologia da USP. Vol. 15/3, 2004 EIGUER A. Um divã para a família. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985 BERENSTEIN I. Psicoanalizar una família. Buenos Aires: Paidós, 1996 (2ª reimpressão) BOX S., COPLEY B., MAGAGNA J., MOUSTAKI E. Psicoterapia com famílias: Uma abordagem psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994


Revista Psique

Um único momento

Qual o tempo da eternidade? Como se configura o para sempre? Há o tempo certo para morrer? O belo e o efêmero entram em cena nas questões de conflito com a morte

Rubem Alves é escritor, educador e psicanalista


Orei, transbordante de felicidade pelo nascimento do seu primeiro neto, convidara todos os poetas, gurus e magos do reino a virem ao palácio, a fim de escreverem num livro de ouro seus bons desejos para a criança. Um sábio de muito longe, desconhecido, escreveu: "Morre o avô, morre o pai, morre o filho..." O rei, enfurecido, mandou prendê-lo no calabouço.

A caminho do calabouço passou pelo rei que o amaldiçoou pelas palavras escritas. O sábio respondeu: "Majestade, qual é a maior tristeza de um avô? Não é, por ventura, ver morrer seu filho e seu neto? Qual é a maior tristeza de um pai? Não é, por ventura, ver morrer o filho? Ah! Quanto não dariam eles para poder trocar de lugar com os filhos e netos mortos. Felicidade é morrer na ordem certa. Morre primeiro o avô, vendo filhos e netos. Morre depois o pai, vendo seus filhos..."

Ouvindo isso, o rei tomou as mãos do sábio nas suas e as beijou.... Há uma morte feliz. É aquela que acontece no tempo certo. Existe grande alegria em terminar a obra que se iniciou: ver a casa pronta, o livro escrito, o jardim florescendo. A vida de um filho é assim: um sonho a ser realizado. Então, vem o impossível meteoro que estilhaça o sonho. Fica a casa não terminada, o livro por escrever, o jardim interrompido. Essa era uma das dores daquele pai que me falava da sua dor pela morte do filho.

Lembrei-me de um livro que Li, faz muito tempo: Lições de Abismo, de Gustavo Corção. Era a história de um homem, cinquenta e poucos anos, que descobre que teria não mais que seis meses de vida, a doença que estava em seu corpo matava rápido. Sem futuro, ele examina o passado, em busca de sinais de que não viveu em vão. O que encontra: cacos e fracassos. Pensa então que a vida deveria ser como uma sonata de Mozart que dura não mais do que vinte minutos. Morre cedo. Depois dela vem o silêncio. Morte feliz. O silêncio se faz porque tudo que havia para ser dito havia sido dito.


Assim sentia aquele pai: seu filho era uma sonata que mal se iniciara. Aí, de repente, eu experimentei satori [termo budista para compreensão]: senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão se enredando todas as experiências de beleza e de amor pelas quais passamos. "Aquilo que a memória amou fica eterno."

Um pôr-do-sol, uma carta que se recebe de um amigo, um único olhar de uma pessoa amada, o abraço de um filho. Houve muitos momentos em minha vida, de tanta beleza, que eu disse para mim mesmo: "Valeu a pena eu ter vivido toda a minha vida para viver esse único momento".

Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida. Compreendi, de repente, que a dor da sonata interrompida se deve ao fato de que vivemos sob o feitiço do tempo. Achamos que a vida é uma sonata que começa com o nascimento e deve terminar com a velhice. Mas isso está errado. Vivemos no tempo, é bem verdade. Mas é a eternidade que dá sentido à vida.

Eternidade não é o tempo sem fim. Tempo sem fim é insuportável. Já imaginaram uma música sem fim, um beijo sem fim, um livro sem fim? Tudo que é belo tem de terminar. Tudo o que é belo tem de morrer. Beleza e morte andam sempre de mãos dadas. Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: "Valeu a pena". Não é preciso evolução, não é preciso transformação: o tempo é completo e a felicidade é total. É claro que isso como diz Guimarães Rosa, só acontece em raros momentos de distração.

Não importa. Se aconteceu, fica eterno. Por oposição ao "nunca mais" do tempo cronológico, esse momento está destinado ao "para todo o sempre". Compreendi, então, que a vida é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.

Revista Psique

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Uma vila cigana no sertão paraibano

Descendentes de nômades, eles se fixaram no nordeste e enfrentam pobreza e preconceito


CARLOS JULIANO BARROS



“Sua excelência, o que me atraiu para a vida cigana foi o amor a essa velha!” Vicente Vidal de Negreiro não poupa palavras de carinho a sua esposa, Rita de Cássia. Estamos sentados na varanda de uma casa modesta, cuja estrutura já não parece das mais confiáveis, erguida na periferia de Sousa – município de 70 mil habitantes, localizado em pleno semiárido da Paraíba, a 420 quilômetros de João Pessoa. Do alto de seus 79 anos, com a saúde um tanto debilitada, Vicente me trata com respeito comovente. Além de “sua excelência”, ele também me chama a todo momento de “seu dotô”, enquanto relembra alguns episódios de sua incrível trajetória. Filho de um “ilustre sujeito”, segundo ele próprio, de Catolé do Rocha, outra pequena cidade do interior da Paraíba, Vicente se deparou com os ciganos pela primeira vez ainda muito menino, quando um grupo acampou nas terras de seu pai. Ao conhecer aquela que se tornaria a mãe de dez filhos seus, não teve alternativa senão abandonar a família e aderir à sina nômade para se casar com a então jovem e linda Rita de Cássia, que passara a habitar seus sonhos mais íntimos. Com o passar do tempo, o próprio Vicente se transformaria em um dos chefes dos ciganos.

Já vai longe, porém, o tempo em que levas de pessoas obedientes a esses míticos e valentes líderes vagavam sob o sol de rachar da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte, em que as crianças nasciam em barracas montadas debaixo da generosa sombra de uma árvore, em que os homens negociavam animais com fazendeiros da região e em que as mulheres liam mãos e botavam baralho para quem desejasse conhecer a própria sorte. Há pelo menos um quarto de século, esses ciganos sertanejos do ramo dos calons (ver texto abaixo) deixaram de lado o nomadismo e fincaram raízes na área menos nobre da cidade de Sousa. “Parece-me que foi um decreto da divindade. O Padre Cícero profetizou que, quando os ciganos parassem de andar, é porque estava perto o fim das épocas”, explica Pedro Maia, outro chefe cigano que não economiza nas solenidades e que, por sinal, é irmão de Rita de Cássia. É impossível dizer como os calons chegaram à região de Sousa. Eles dizem que sempre estiveram por lá. Atualmente, o município é um importante polo comercial do estado, além de grande produtor de leite e de coco verde. Também é internacionalmente conhecido pelas impressionantes pegadas de dinossauros impregnadas no barro seco e rachado do solo do sertão (ver texto abaixo).

Vicente, Rita de Cássia, Pedro Maia e outros ciganos da velha guarda de Sousa compõem o retrato de um tempo que não volta mais, de uma cultura secular que vem minguando a conta-gotas, desde que a comunidade se tornou sedentária, em meados da década de 1980. Hoje, os chefes já não mandam tanto assim, apesar de inspirar respeito. É cada vez mais raro encontrar um jovem que domine o dialeto caló – principal identidade desse grupo social. Também é praticamente impossível ver uma adolescente que entenda de quiromancia, como é chamada a arte de ler as linhas da mão. Até mesmo as festas embaladas por modinhas de violão típicas à beira da fogueira – tão presentes nas memórias de alguns idosos – já não acontecem. Saudosismos à parte, é preciso reconhecer que muitos ciganos, senão a maioria, preferem a segurança proporcionada pela vida sedentária. Apesar da tristeza de presenciar a decadência de uma cultura transmitida ao longo de diversas gerações, há quem entenda esse processo como algo inevitável, fruto dos novos tempos que também chegaram a galope ao sertão da Paraíba. “A gente tem de partir para a realidade: colocar os meninos na escola, arrumar emprego para os jovens”, pondera Niobel Fernandes, de 63 anos.

Não há dados oficiais precisos sobre o total de habitantes do bairro cigano de Sousa, mas o número de famílias certamente não é superior a duas centenas. As casas são bem simples – algumas de alvenaria, outras de taipa mesmo –, divididas basicamente em dois “ranchos” vizinhos um ao outro, conhecidos pelos nomes dos principais chefes ciganos: Vicente e Pedro Maia. A população dessa que é a maior comunidade cigana de todo o Brasil vive em condições bastante precárias, sem acesso a serviços públicos básicos, e enfrenta mazelas comuns a qualquer bairro carente, como o desemprego e o alcoolismo – que já vitima inclusive adolescentes. Alguns moradores fazem pequenos “bicos”, outros recebem o benefício do Bolsa Família do governo federal, e também existem alguns pedintes, embora representem minoria absoluta. Aparentemente alheia à minha conversa com seu marido, Rita de Cássia rompe o silêncio e desabafa: “A pobreza e a ‘precisão’ só se comparam à morte”, afirma ela, sempre amparada pelo olhar zeloso de Vicente. Assim como a esposa, ele também parece retirar as palavras de um livro digno de Guimarães Rosa: “A pobreza é hoje, não é amanhã”.

Como desgraça pouca é bobagem, esses cidadãos de segunda classe de Sousa ainda precisam vencer um obstáculo que até vem sendo superado nos últimos anos, mas que ainda não foi completamente transposto: o preconceito. Em toda a história da humanidade, poucos grupos sociais foram vítimas de tantas perseguições quanto os ciganos. Os livros didáticos, por exemplo, raramente contam que, durante o regime nazista na Alemanha de Hitler, o holocausto judeu também foi acompanhado de um massacre impiedoso dessa etnia. Em Sousa, não ocorreu nenhum genocídio, mas a marginalização é evidente. A área ocupada pelos calons fica vizinha a um lixão, a uma colônia penal agrícola e ao local onde deverá ser instalado o novo cemitério da cidade. Somando-se a isso, eles ainda são obrigados a conviver com o triste estigma que pesa sobre mendigos, além de ser tachados de bandidos ou de ladrões de crianças.

“Não há um cigano sequer empregado no comércio da cidade. Os poucos que arrumam ocupação fixa são funcionários públicos”, afirma João Bosco Araújo, professor de uma escola particular de Sousa e pesquisador da cultura cigana. Ele também trabalha como mestre de cerimônias da prefeitura, e atua como uma espécie de “embaixador” do poder público municipal na comunidade. “Acho que existe um débito muito grande da cidade para com os ciganos. E isso não vai ser transposto em quatro ou oito anos. Essa mudança ideológica vai demandar um bom tempo”, admite o próprio prefeito, Fabio Tyrone (PTB).

Iniciativa pioneira

Para estancar esse dramático processo de “extinção cultural”, por assim dizer, e ao mesmo tempo viabilizar alternativas de renda à comunidade, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – órgão vinculado diretamente ao gabinete da Presidência da República – criou, em conjunto com o Ministério da Cultura (Minc) e com recursos desembolsados pela Eletrobrás, o Centro Calon de Desenvolvimento Integral (CCDI). Segundo a Seppir, trata-se da primeira iniciativa dessa natureza bancada por um governo em toda a América Latina.

O prédio foi inaugurado em agosto do ano passado durante cerimônia que contou com a presença do governador do estado, José Maranhão (PMDB), e do ministro Edson Santos, titular da Seppir. Também estava lá o deputado federal Marcondes Gadelha (PSC-PB), membro de uma tradicionalíssima família da oligarquia de Sousa, que ganhou muito dinheiro com o comércio do grande volume de algodão que era produzido décadas atrás no município e hoje investe em hotéis, hospitais e outros ramos empresariais. Ele reivindica a paternidade do projeto de criação do centro, que teria sido idealizado por ele enquanto seu irmão, Salomão Gadelha, estava à frente da prefeitura da cidade, entre 2003 e 2008. “Pensei em transformar o limão numa limonada. Se os ciganos eram um estorvo para a população de Sousa, poderíamos, ao contrário, gerar algum interesse cultural ou econômico se conseguíssemos resgatar a cultura deles. Fazer com que eles voltassem a ser ciganos”, resume o deputado. Ele também alimenta o sonho de criar um grande festival cigano na cidade, a fim de atrair turistas do Brasil inteiro.

Entretanto, perguntado sobre a influência do deputado Marcondes Gadelha para a escolha de Sousa como sede do CCDI, o subsecretário de Políticas para Comunidades Tradicionais da Seppir, Alexandro Reis, desconversa e afirma que a opção pelo município do semiárido paraibano justifica-se pela grande concentração de calons na cidade e pelos dramáticos problemas sociais enfrentados por eles. “A orientação da Seppir é estabelecer políticas públicas nas áreas com comunidades mais vulneráveis, e é o caso de Sousa”, explica.

O fato é que, transcorridos meses desde a abertura do CCDI, até agora nenhuma atividade saiu do papel, e o edifício se encontra literalmente vazio. “Estou pensando em manter as portas do centro totalmente fechadas, como um protesto, até que sejam resolvidos os problemas”, afirma Francisco Soares Figueiredo, o Coronel, filho do chefe cigano Pedro Maia, responsável por uma associação comunitária local e pela presidência do CCDI. A instalação de computadores, a criação de um cinema e de uma oficina de produção de filmes são algumas das ideias que constam do projeto original. O atual prefeito, Fabio Tyrone, por sua vez, afirma que vai apoiar a construção de um aviário e de uma horta comunitária, a fim de melhorar a qualidade da alimentação e gerar alguma renda aos moradores do bairro dos calons.

Porém, toda essa demora já desperta a descrença por parte dos ciganos. “Primeiro, vamos estabelecer uma parceria com a prefeitura de Sousa a fim de garantir a manutenção e a operacionalização do centro. Também estamos definindo recursos da Seppir, do Minc e da Secretaria Especial de Direitos Humanos”, justifica Alexandro Reis. “Isso, no entanto, envolve também uma discussão com a comunidade, processo que estamos construindo com bastante respeito e cuidado”, completa.

Essa “discussão com a comunidade”, contudo, não é tão simples de conduzir, uma vez que há uma espécie de racha entre os dois grandes chefes, Vicente e Pedro Maia – o que não deixa de ser curioso, já que são cunhados. A disputa tem a ver, entre outras coisas, com questões da política paraibana. Vicente, por exemplo, guarda na entrada de casa um retrato caindo aos pedaços de Antonio Mariz, conhecido político da região que foi prefeito de Sousa, deputado federal, senador e governador do estado, até falecer em 1995. Na realidade, foi ele o responsável pela fixação definitiva dos calons em Sousa, ao doar as primeiras casas na área dos ranchos. Mariz também era o adversário por excelência dos Gadelha, que, por sua vez, arrebanharam simpatizantes entre os ciganos liderados por Pedro Maia e seu filho, o Coronel. O presidente do CCDI, que mantém o costume típico de revestir os dentes com placas de ouro, é aliado político declarado dessa tradicional família de Sousa. A intimidade é tanta que ele chegou até a pintar no muro de sua casa uma propaganda política de André Gadelha, derrotado por Fabio Tyrone nas últimas eleições para a prefeitura municipal.

No dia a dia, não existem grandes problemas de convívio entre os moradores dos dois ranchos, até porque quase todos são parentes. Porém, alguns ciganos ouvidos pela reportagem confessaram certo receio de que as atividades do centro – quando estiver funcionando – acabem beneficiando apenas os mais chegados ao presidente do CCDI, como se o Coronel pudesse decidir segundo sua vontade os destinos de uma obra que é, na verdade, do poder público. Na opinião do subsecretário da Seppir, Alexandro Reis, não existe um “racha”, mas “um processo de entendimento na comunidade”. Apesar de nenhum representante do órgão ligado à Presidência da República aparecer no bairro dos calons de Sousa há meses, ele garante que a secretaria está atenta para impedir que haja privilégios indevidos a quem quer que seja.

Comunidade de eleitores relativamente numerosa para uma cidade do porte de Sousa, há tempos os ciganos são alvo das velhas práticas políticas clientelistas. Hoje, os calons apoiam majoritariamente a família Gadelha, tida como a única que dá algum tipo de “atenção” aos moradores do bairro. Por outro lado, o prefeito Fabio Tyrone, adversário político dos Gadelha, enxerga essa relação com olhos bem mais críticos. “O que se fez até hoje foi estimular a mendicância. Mas temos de quebrar esse paradigma. Não se pode fazer politicagem com a situação de carência absurda em que eles vivem”, critica.

Futuro

As sobrancelhas grossas e o cabelo longo, preto e liso não deixam dúvidas quanto aos traços ibéricos herdados por Ana Cristina Marques, conhecida também pelo apelido cigano Lília. Ela é uma das últimas mulheres calons, talvez a única, que ainda ganha algum dinheiro lendo mão e jogando baralho. Porém, sua filha adolescente já não foi iniciada na mesma arte, e nem parece ter interesse por isso. “Não quero que ela me siga. Espero que ela estude e seja alguém na vida”, desabafa Lília.

As novas gerações de ciganos, nascidos já depois que os pais pararam de andar sertão afora, são o retrato de uma verdadeira metamorfose – mas não há nada de errado com isso, diga-se de passagem. É muito comum, por exemplo, encontrar adolescentes de 16 anos com o nome de Cícero Romão Batista, em reverência ao Padre Cícero, ícone do catolicismo popular que é tido como santo no semiárido nordestino. São esses mesmos jovens, que carregam na certidão de nascimento o tradicionalíssimo costume de homenagear personalidades históricas, os mais seduzidos pelas músicas sertanejas que substituíram ao violão as modinhas típicas de seus antepassados. Contraditoriamente, são também os mais empolgados em aprender dança cigana com um professor não cigano, ao som do famoso grupo francês Gipsy Kings. Além disso, eles montam comunidades virtuais em sites de relacionamento na internet, afirmando-se como calons. Mas, ao mesmo tempo, e como nem poderia deixar de ser, tentam diariamente superar preconceitos para se integrar plenamente à sociedade de Sousa.

Na ânsia de “salvar” tradições que vêm se perdendo, é necessário tomar muito cuidado, no entanto, para que pessoas de fora do bairro dos calons, até de forma involuntária, não imponham um suposto jeito de ser cigano aos moradores, como se isso fosse o suficiente para melhorar a tão sofrida vida dessa gente. Aliás, como ninguém vive só de cultura, é preciso atacar de forma mais contundente os graves problemas que realmente assolam a comunidade, como o desemprego, a falta de saneamento básico, a baixa escolaridade. “O que vai acontecer daqui a uns dez ou 20 anos, não posso prever. É até possível que, nesse novo centro, alguém de fora lhes venha ensinar ‘cultura cigana’ (ou algo que seja considerado como tal). Já vi acontecer esse fenômeno entre os índios potiguaras, no litoral da Paraíba. Há séculos não falam mais a sua língua, e lá vem de repente alguém de São Paulo para lhes dar aula de tupi-guarani! É possível que a Seppir contrate alguém para ensinar ao pessoal de Sousa como fabricar tachos de cobre”, ironiza o antropólogo Frans Moonen, talvez o único pesquisador a ter estudado a comunidade dos calons de Sousa, e que demonstra desconfiança com relação ao funcionamento do CCDI.

De onde eles vêm?


Como o romani, o sintó, o caló e outros dialetos falados pelos povos ciganos são ágrafos – ou seja, não têm escrita –, não há registros precisos sobre a história dessas etnias, que podem ser reunidas em três grandes grupos: o dos rons, o dos sintis e o dos calons – este último proveniente da península Ibérica. Porém, a hipótese mais aceita é que todos seriam originários da Índia. De lá, teriam se espalhado pelo continente europeu. O Brasil foi o primeiro país da América do Sul a receber esses grupos. Já em 1574, o rei português dom Sebastião mandou, na condição de degredado, o cigano João Torres e sua família para cá. Não há dados oficiais, mas a estimativa é que atualmente haja de 600 mil a 800 mil pessoas dessa etnia espalhadas pelo território nacional. Personalidades históricas do país têm sangue cigano, como a escritora Cecília Meireles e o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que nunca admitiu publicamente sua ascendência.

Apoio público

Há algumas décadas, as chamadas “populações tradicionais”, como os indígenas e os descendentes de quilombolas, por exemplo, são objeto de programas específicos do poder público para promoção de direitos. No caso dos ciganos, o reconhecimento de suas peculiaridades e de suas necessidades ainda está engatinhando. Nos últimos anos, porém, algumas ações governamentais vêm sendo tomadas com esse objetivo.

Em 2007, foi comemorado pela primeira vez o dia nacional do cigano, 24 de maio, em homenagem à padroeira dessa etnia, Santa Sara Kali. O Ministério da Cultura, por sua vez, criou um concurso para premiar manifestações típicas, e em agosto de 2009 foi inaugurado o Centro Calon de Desenvolvimento Integral (CCDI), em Sousa (PB). Dois anos atrás, o Ministério da Saúde também chegou a anunciar o programa Ciganos no SUS. A ideia era criar uma espécie de carteirinha para identificar aqueles que ainda são nômades e não possuem documentos oficiais, a fim de facilitar o atendimento nos hospitais do Sistema Único de Saúde. Porém, até agora, o projeto não saiu do papel.

“O movimento cigano é um dos mais novos. Eu já fui a 16 estados para ensinar o cigano a ter direito de ter direitos. Estamos conscientizando o povo para que eles se organizem”, afirma Mirian Stanescon, integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR). Criado em 2003, esse colegiado é formado por órgãos do governo federal e entidades da sociedade civil e tem a missão de formular políticas públicas para comunidades socialmente vulneráveis.

Apesar de embrionário, o movimento cigano já está dividido. Pelo menos cinco entidades contestam a eleição de Mirian Stanescon para o CNPIR e afirmam que ela não está legitimada a representá-las. Além disso, na avaliação de Wasyl Stuparyk, presidente da Associação Brasileira dos Ciganos no Paraná (Abracipr), as atuais políticas voltadas a essa população não respondem a suas reais necessidades, e deveriam ser focadas principalmente na expedição de documentos e no acesso a serviços básicos de saúde e educação. “Precisamos cair na real. Não existem mais ciganos no meio da praça tocando violino. Antes de preservar a cultura, temos de preservar o ser humano”, afirma.

Pegadas pré-históricas


Além da maior comunidade cigana do Brasil, Sousa também abriga um dos mais importantes sítios paleontológicos do mundo. Encravado na bacia sedimentar do rio do Peixe, o chamado Vale dos Dinossauros é a principal atração turística do município, e recebe cerca de 1,5 mil visitantes por mês. Lá podem ser vistas pegadas de dezenas de tipos de répteis pré-históricos, um impressionante registro da passagem desses seres gigantescos pelo solo do sertão paraibano, ocorrida há pelo menos 130 milhões de anos.

Administrado pelo governo estadual da Paraíba, o Monumento Natural do Vale dos Dinossauros foi inaugurado em 1999. Além de conhecer um pequeno museu na entrada do parque, o visitante pode observar a mais longa trilha de pegadas de dinossauros de que se tem notícia em todo o planeta. As instalações do local necessitam, porém, de uma reforma urgente. “O Vale está abandonado, e isso nos causa preocupação porque é um patrimônio muito valioso”, lamenta o prefeito de Sousa, Fabio Tyrone.

Além da importância científica, há outro ótimo motivo para conhecer o parque: conversar com Robson Araújo Marques, de 66 anos, conhecido como Guardião do Vale. Há mais de três décadas, ele ganha um salário mínimo para recepcionar turistas e pesquisadores. As primeiras pegadas de dinossauros foram descobertas em 1897 por seu avô, que à primeira vista pensou tratar-se de rastros de bois e emas. Também foi Marques o “cicerone” de Giuseppe Leonardi, cientista italiano que fez pesquisas no local ao longo de 17 anos e com o qual aprendeu muita coisa de paleontologia. Autodidata, ele também escreve poemas e contos. “O Vale é minha alma. Minha esposa reclama, diz que sou maluco porque vivi a vida inteira por conta dessas pedras”, brinca.



Revista Problemas Brasileiros

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Manual didático adequado à realidade de hoje

por Gilvan Herbert de Freitas *




Atualmente, muitos professores de Sociologia enfrentam um sério desafio em suas atividades docentes. Por um lado, lidam com alunos que apresentam deficiências de leitura e entendimento de textos. Por outro, os manuais didáticos disponíveis de maneira geral desenvolvem seus conteúdos tendo como referencial os conceitos dos grandes teóricos da disciplina. Conceitos esses que muitas vezes são reproduzidos nas próprias palavras dos mestres fundadores.

Ora, sabese que o estudante de hoje necessita de um texto que esteja adequado ao acervo de conhecimentos e ao desenvolvimento intelectual adquiridos no seu período escolar. Este é, portanto, o desafio de quem se dispõe a elaborar um material didático de Sociologia: aliar os saberes historicamente consolidados pelo conhecimento científicàs práticas culturais vivenciadas pelos jovens no conjunto de suas relações sociais, vinculando reflexão crítica com formação cidadã. Há um novo livro disponível, lançado recentemente, que conseguiu em grande parte vencer esse desafio e oferecer tanto um conteúdo quanto uma forma de comunicação perfeitamente adequados. Tratase da obra Introdução à Sociologia, de João Guizzo, publicado pela Companhia Editora Nacional.

DA OBRA


O autor construiu uma organização dos assuntos de maneira a atender às exigências da grande maioria dos professores. Com efeito, em 24 capítulos, desenvolve todos os temas básicos da Sociologia, de modo tal que o docente pode organizar seu plano de curso com grande flexibilidade.

Quer opte pelo conteúdo de capítulos selecionados, quer opte por itens de seu real interesse, tem no manual um material extremamente rico para todo o período letivo. Também a estrutura dos capítulos favorece o trabalho do professor. E é capaz de estimular o aluno. A abertura parte sempre de exemplos do dia a dia ou de informações que o aluno domina.

Assim, fotos de pessoas famosas, pequenas notícias de jornais ou fatos históricos introduzem os conceitos de maneira atraente e evitam as definições abstratas. Este aspecto da obra evidencia como o autor superou um dos principais obstáculos dos manuais de Sociologia disponíveis no mercado editorial. Evitar as abordagens abstratas e as definições dos conceitos utilizando as palavras dos próprios sociólogos que as elaboraram.

Neste livro, o aluno percorre parágrafos e páginas inteiras fazendo uma leitura acessível e estimulante. Ao recurso da linguagem informal e comunicativa somam-se numerosos textos extraídos de jornais e revistas, que exempli ficam os conceitos. Situações e fatos que ocorreram no Brasil e em outros países servem para fundamentar explicações e argumentos. Assim, nada é afirmado de maneira teó rica e vaga. O rigor é assegurado sempre, pois os exemplos, as comparações, as notícias servem de elementos introdutórios e estimuladores para as formulações sistematizadas dos conceitos.

Para instrumentalizar de maneira didática seu livro, o autor oferece diferentes situações de aprendizagem. São propostas de atividades com linguagens diferenciadas que problematizam o conteúdo e estimulam a participação do aluno. Este é levado a aplicar os conceitos às situações que observa ou que ele mesmo vivencia


Gilvan Herbert de Freitas é sociólogo, pedagogo e professor de sociologia do Colégio Bandeirantes em São Paulo

O DIFERENCIAL

Mas é em relação aos textos de apoio que reside outra inovação que chama a atenção neste livro. O autor lança mão de um recurso extremamente interessante: textos noticiosos e textos assinados publicados em jornais. Como o próprio autor assinala na apresentação, trata-se de uma opção eminentemente didática. A de estimular o aluno a aplicar os conceitos sociológicos a situações que ocorrem no dia a dia. Esses textos trazem sempre exemplos de ocorrências que o aluno vincula facilmente ao que está estudando.

Os textos assinados, por sua vez, ganham importância no livro porque contêm reflexões, comentários e sugestões relativas a situações da realidade brasileira que interessam ao aluno. Seus autores são homens e mulheres que observam e analisam nossa sociedade com olhar especialmente atento e crítico. Assim, textos assinados sobre educação, direitos da mulher, propaganda, criminalidade, meios de comunicação de massa, globalização complementam o texto do respectivo capítulo.

O estudo da Sociologia não pode deixar de fora de sua agenda os grandes temas da nossa época. As minorias, os grupos raciais e o conceito de raça, as diferenças de gênero, os idosos, a educação, os movimentos da sociedade civil, os direitos humanos são os grandes temas que a Sociologia pode iluminar de maneira clara e proveitosa.

Com base em textos e numerosos exemplos, neste livro esses temas tornam-se acessíveis ao aluno, que percebe sua vinculação com os conceitos sociológicos. Para instrumentalizar de maneira didática seu livro, o autor oferece diferentes situações de aprendizagem. São propostas de atividades com linguagens diferenciadas que problematizam o conteúdo e estimulam a participação do aluno.

Este é levado a aplicar os conceitos às situações que observa ou que ele mesmo vivencia. Esta obra pode e deve ser indicada tanto àqueles que estão se iniciando nas Ciências Sociais - no Ensino Médio ou no ensino superior -, quanto para os que pretendem ter uma melhor compreensão sobre o mundo em suas diversas dimensões.


Revista Sociologia

SociedadeNúcleo estuda marcadores sociais da diferença

Pesquisadores da área de ciências sociais enfatizam relações entre as divisões de gênero, raça e sexualidade.

Agência USP

Os marcadores sociais da diferença são um campo de estudo das ciências sociais que tentam explicar como são constituídas socialmente as desigualdades e hierarquias entre as pessoas. Dentro desta área, a ênfase dos trabalhos desenvolvidos no Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, recai principalmente sobre raça, gênero, e sexualidade. Integrante do Numas, a professora Heloisa Buarque de Almeida afirma que todas estas são diferenças construídas pela sociedade, mas tidas como se fossem "naturais". Os marcadores sociais das diferenças também incluem outras categorias, como uma das noções básicas da sociologia, que é a classe social. Mas a preocupação principal do núcleo, e que justifica sua criação, além de saber como essas diferenças são construídas, é ver como estão interligadas. "Não cabe, por exemplo, um pesquisador estudar gênero, compartimentado, e outro estudar raça; e sim buscar enxergar, nos estudos empíricos, como estas diferenças se articulam", observa Heloisa. O Núcleo inclui pesquisas individuais de seus participantes em assuntos específicos dentro da temática maior. Os professores Laura Moutinho e Julio Assis Simões, por exemplo, estão finalizando um projeto extenso sobre sexualidade, que teve financiamento internacional, e que compara trajetórias afetivo-sexuais de pessoas, brancas e negras; hetero, bi e homossexuais; no Brasil, na África do Sul e nos Estados Unidos. Já a professora Lilia Schwartz está iniciando uma pesquisa sobre o escritor Lima Barreto que busca analisar como o lugar social do autor - negro e considerado marginal em sua época - se reflete na sua produção. Heloisa, que sempre teve mídia e gênero como focos de interesse, principalmente as telenovelas, no momento está vinculada a um projeto temático sobre indústria cultural no Brasil. O estudo parte do princípio de que as construções sociais de gênero no Brasil são muito permeadas pelas construções da televisão. E isso é demonstrado a partir da análise de dois seriados que, como explica a professora, "falavam sobre mulheres e para mulheres": "Malu Mulher" (1979-1980), e "Mulher" (1997-1998). Diálogo O Numas organiza ainda seminários internacionais e locais, reunindo professores, convidados e alunos de graduação e pós. "Estamos tentando manter um diálogo constante com as pessoas que têm pesquisas nestas áreas, dentro e fora da USP. Mesmo que ainda seja algo relativamente novo para a academia pensar estes temas em relação", afirma Heloísa Além disso, também é realizado um projeto comum de cooperação acadêmica com a Universidade Federal do Pará (UFPA). "Temos promovido intercâmbios de alunos e professores, oferecido cursos no Pará, e também empreendido pesquisas de campo conjuntas." A procura de alunos interessados em realizar pesquisas de pós-graduação neste campo - inclusive provenientes de outras áreas, como saúde, direito e relações internacionais - tem crescido. "Nosso objeto de pesquisa é muito amplo, podendo incluir trabalho, família, sexualidade, enfim, muitos assuntos onde os marcadores sociais aparecem, permeando a vida das pessoas", esclarece Heloisa. Ela acrescenta que os estudos de gênero e sexualidade, em particular, sofreram um boom nas últimas décadas em razão da epidemia de aids. "O financiamento público em pesquisas na área aumentaram consideravelmente, já que para desenvolver estratégias de prevenção - que consistem basicamente em mudar o comportamento das pessoas - é preciso entender como elas pensam e vivem a sexualidade", explica. Estudos como estes tornam possível visualizar de maneira mais direta como as teorias trabalhadas no Numas são estendidas para a sociedade, sob a forma do fomento a políticas públicas. A educação também é outro campo em que isso se torna claro. O livro direcionado a estudantes de ensino médio - Diferenças, igualdade (Berlendis e Vertecchia Editores) - produzido com a colaboração de professores do núcleo, é um exemplo. A obra é parte de uma coleção que busca introduzir a este público métodos e abordagens das ciências sociais, com situações concretas que permitem compreender os conceitos envolvidos.

Revista Sociologia

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Relatividade não muito relativa


A ciência busca o entendimento da natureza e não há nesse ato, qualquer atitude de crença ou descrença em dogmas religiosos




José Roberto Castilho Piqueira





É comum, em nosso cotidiano, que conceitos de teorias científicas passem ao vocabulário usual, com sentido distorcido e aplicado de maneira irresponsável, com apoio pressuposto do argumento de autoridade.


O caso mais gritante é o do "Darwinismo Social" que, ao se valer de teoria científica, procura legitimar preconceitos e mecanismos de dominação entre grupos étnicos e sociais. Felizmente, caiu em merecido descrédito, de modo que sua relevância atual é nula, sendo digna de repúdio.

Entretanto, parece que Darwin hoje incomoda tanto quanto Galileu à sua época. Alguns pretendem dar ao "Criacionismo" status de ciência, colocando-o como teoria alternativa ao "Darwinismo". Nada mais pobre, do ponto de vista espiritual e intelectual do que confundir a ciência com a fé.

A fé é foro íntimo, e de cada um. As diversas religiões devem ser respeitadas, cada uma com seus dogmas. A ciência não é uma alternativa à religião, porém conhecimento de outro tipo.

Ciências mudam todos os dias, podem questionar-se, aprimorar-se continuamente. A ciência busca o entendimento da natureza e não há nesse ato, qualquer atitude de crença ou descrença em dogmas religiosos.


Assim, Darwin é vítima do obscurantismo, pois suas idéias tendem a ser negadas pelo público, digamos, leigo ou pseudo-científico, como se pertencessem a um lado diabólico da humanidade. Há, entretanto, uma vítima positiva do obscurantismo: Albert Einstein.

Lido por poucos, virou lenda e com isso a ele se atribuem idéias estapafúrdias, com frases repetidas à exaustão, em livros de auto-ajuda. Vamos lá, quer ganhar uma pendenga? Diga sério uma besteira atribuindo-a a Einstein. Quase todos vão acreditar, porque só poucos verificam.

A mais engraçada é a relatividade:Tudo é relativo", dizem os leitores descuidados, e um interminável rolo de enganos vai subscrever-se à glória de Einstein.

Galileu, que passou maus bocados nas mãos de obscurantistas, entre seus vários trabalhos, enunciou o "Princípio da Relatividade" que diz: "As leis físicas são as mesmas para qualquer referencial inercial.". Ou seja, o chamado princípio da relatividade fala de invariância de leis, mesmo que os referenciais produzam medições diferentes para certas grandezas físicas.

O que Einstein procurava, quando enunciou sua "Teoria da Relatividade Especial", era salvar o princípio de Galileu, quando aplicado às leis do eletromagnetismo, que haviam sido brilhantemente sintetizadas por Maxwell, durante o século XIX. Parecia, inicialmente, que as leis do eletromagnetismo não eram descritas da mesma maneira, quando se mudava de referencial.

Ao unificar os resultados de Michelson e Morley sobre o fato de que a luz não necessita suporte material para se propagar com as equações de Lorentz para cálculo de velocidades relativas e com o fato da velocidade da luz independer do referencial, concluiu que as leis do eletromagnetismo também são as mesmas para todos referenciais inerciais.

Sabe-se que, como todo ser humano, Einstein, ao longo de sua carreira, errou certas coisas, da mecânica quântica, sobretudo. Seu erro maior, contudo, foi ter mantido o nome de "Teoria da Relatividade" para seu trabalho e não mudá-lo para "Teoria da Invariabilidade". O nome chamaria menos a atenção dos meios comunicativos, mas evitaria o "Einsteinismo Social".

Todavia, há uma possível analogia entre a noção eisteiniana de "invariabilidade" e os fenômenos sociais. Realmente, há variações de valores de cultura para cultura, mas o que há de essencial para o homem - respeito à liberdade, acesso ao conhecimento e, principalmente, direito à vida com dignidade - independe de qualquer referencial social.

José Roberto Castilho Piqueira é professor titular da Poli-USP



Portal Ciência e Vida

domingo, 17 de janeiro de 2010

Triste história de um herói sem glória

A saga do padre brasileiro Landell de Moura, cientista pioneiro

CELIA DEMARCHI



O padre Landell de Moura Foto: Reprodução


Responda rapidamente: quem é o pai da aviação? E o rádio, quem foi que inventou? Com certeza você acertou a primeira pergunta, mas provavelmente errou a segunda, ainda que tenha pensado no físico italiano Guglielmo Marconi, no genial croata naturalizado americano Nikola Tesla ou mesmo no físico canadense Reginald Aubrey Fessenden. Na verdade, o pioneiro na transmissão de som por meio de ondas eletromagnéticas foi um brasileiro.

Pouca gente sabe disso, o que é surpreendente, até porque a vida de Roberto Landell de Moura, contemporâneo de Alberto Santos Dumont, inclui diversos ingredientes instigantes. Nascido em 1861, em Porto Alegre, ele foi, além de padre, livre pensador e cientista visionário – previu, no fim do século 19, os princípios da televisão e do controle remoto por rádio, descobriu o efeito Kirlian (a “aura” luminosa dos corpos) e praticou exorcismo. Os mais de 40 cadernos manuscritos que deixou versam sobre religião, filosofia, parapsicologia e eletricidade. Em vez de um lugar na história, porém, tal currículo lhe rendeu má reputação – Landell de Moura tinha fama de feiticeiro e chegou a ser agredido por fiéis católicos.

Na opinião do jornalista José Marques de Melo, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e diretor da cátedra Unesco da Universidade Metodista de São Paulo, entre os motivos do quase anonimato do padre cientista está um sentimento nacional que ele chama de “complexo de colonizado”: “Valorizamos tudo o que vem de fora e escondemos o que se produz aqui”. Melo, porém, tem feito sua parte para resgatar o legado brasileiro, por exemplo ao organizar a série Personagens que Fizeram História, em quatro volumes, editada pela Imprensa Oficial de 2005 a 2009, a qual reúne 72 perfis, inclusive o de Landell de Moura: “Quase não se fala dele nem mesmo nos cursos de comunicação, porque falta suporte”, diz o professor, referindo-se à escassez de bibliografia.

Aos poucos, no entanto, os fatos emergem. A obra mais completa sobre o criador do rádio, fonte das informações citadas acima (Padre Landell de Moura: um Herói sem Glória, de Hamilton Almeida) foi publicada no Brasil em 2006, pela Editora Record. Ironicamente, dois anos depois de um outro livro sobre sua saga, do mesmo autor, ter saído na Alemanha, pela Debras Verlag sob o título Pater und Wissenschaftler (“Padre e cientista”). Os dois livros, além de obras menos completas anteriores, resultaram dos esforços quase solitários do autor, um jornalista paulistano: “Acredito que a publicação na Alemanha facilitou a edição no Brasil”, diz Almeida.

Ele investiga a vida do inventor desde meados da década de 1970. No ano passado, com mais três admiradores do personagem, o jornalista lançou o Movimento Landell de Moura, com o objetivo de promover o reconhecimento oficial do inventor no pais(http://www.mlm.landelldemoura.qsl.br/).


Também por ironia, a centelha que levaria Almeida à pesquisa foi acesa por um chileno, Júlio Zapata, seu professor no curso de jornalismo da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo, em 1976. Zapata indicou-lhe o livro O Incrível Padre Landell de Moura: A História Triste de um Inventor Brasileiro, de Ernani Fornari, publicado em 1960 pela Editora Globo, e enfatizou que se sabia muito pouco sobre o cientista. Fascinado, Almeida começou ali uma longa investigação que o levaria a descobrir, por exemplo, que o padre pode ser considerado precursor não apenas no caso do rádio, mas também da televisão, do teletipo, do controle remoto por rádio e da fibra óptica. Tais são as conclusões, por exemplo, de estudiosos do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Telebrás, de Campinas (CPqD), que, de acordo com o jornalista, interpretaram textos e desenhos técnicos deixados pelo inventor: “O Brasil teria largado na frente em telecomunicações se tivesse aproveitado seus conhecimentos, que ele inclusive patenteou no Brasil e nos Estados Unidos”.


Um dos 14 filhos do capitão Ignácio José Ferreira de Moura e de Sara Marianna Landell, Landell de Moura se interessou por ciências e filosofia ainda na puberdade e foi orientado pela família a seguir a carreira eclesiástica. Enviado para Roma, matriculou-se no Colégio Pio Americano e na Universidade Gregoriana, onde estudou física e química. Em 1886, aos 25 anos, foi ordenado padre.

Naquela época o mundo já conhecia o telégrafo com fio, invento patenteado em 1837 pelo americano Samuel Morse, que revolucionou as comunicações, eliminando as fronteiras intercontinentais. Michael Faraday já havia publicado seu tratado sobre a indução, no mesmo ano em que James Clerk Maxwell formulara a teoria eletromagnética (1873). Foi também nesse período que Heinrich Hertz comprovou a existência das ondas eletromagnéticas (1888). Estava, portanto, traçado o caminho para as comunicações sem fio. Marconi, Tesla, Fessenden e Landell de Moura transitaram simultaneamente nesse campo, e a invenção da radiotelegrafia e, mais tarde, a do rádio acabaram atribuídas ao italiano.

Marconi fez as primeiras demonstrações do telégrafo sem fio em 1895, na Inglaterra. Entretanto, antes dele – que teria plagiado os estudos de Tesla –, Landell de Moura havia provado que, além de sinais, também o som podia viajar codificado a bordo de raios luminosos e ser captado num ponto distante.

O padre brasileiro construiu seus aparelhos no fim do século 19, a partir de descobertas já consolidadas. Uma das mais essenciais, que inclusive está na base da tecnologia do telefone de Graham Bell, é a propriedade de variação da resistência elétrica do selênio. Seu “telefone sem fio”, como chamou o invento, era dotado de transmissor de som modulado por ondas eletromagnéticas de um feixe de luz, as quais ele fazia incidir, precisamente, sobre uma célula de selênio afixada no receptor, colocado à distância. A luz sensibilizava o selênio, que decodificava os sinais pela variação de sua resistência e os mandava para um fone de ouvido.

Pioneirismo

Embora não existam registros datados, é provável que as experiências pioneiras de transmissão de voz de Landell de Moura tenham acontecido entre 1890 e 1894 ou por volta de 1899, segundo Almeida. Sua primeira transmissão pública documentada ocorreu em 3 de junho de 1900, em São Paulo (entre o bairro de Santana e a Avenida Paulista). De todo modo, portanto, bem antes da divulgada por Marconi, que só conseguiu o feito em 1914, 17 anos depois de ter realizado a primeira transmissão de sinais por meio de ondas eletromagnéticas, inaugurando o telégrafo sem fio. Já Fessenden conseguiu transmitir publicamente o som em 23 de dezembro de 1900, seis meses depois da experiência comprovada do brasileiro. O canadense obteve uma patente para sua invenção, nos Estados Unidos, em setembro de 1901, também seis meses após a emissão de uma patente brasileira para a criação de Landell de Moura, em março daquele mesmo ano, sob o número 3.279. No pedido de registro, o padre cientista descrevia um “aparelho destinado à transmissão fonética à distância, com fio e sem fio, através da terra, do espaço e do elemento aquoso”.

Sem conseguir a esperada repercussão no Brasil, e com grande sacrifício, segundo relata Almeida em seu livro mais recente, o padre Landell foi para os Estados Unidos e lá obteve, em 1904, três patentes para seus aparelhos wave transmitter (transmissor de ondas), wireless telephone (telefone sem fio) e wireless telegraph (telégrafo sem fio). Em sua edição de 12 de outubro de 1902, o diário americano “New York Herald” trouxe ampla reportagem sobre as experiências com transmissão de voz. Citava Landell de Moura, lembrando que o brasileiro havia feito várias demonstrações públicas da tecnologia em 1900 e 1901, em território brasileiro.

Ao voltar ao Brasil, no fim de 1904, com as patentes americanas na bagagem, o padre cientista imaginava que finalmente conseguiria apoio para consolidar suas invenções. Escreveu ao presidente da República, Francisco de Paula Rodrigues Alves, solicitando dois navios da esquadra de guerra para fazer uma demonstração. Ao ser procurado por um representante do governo, porém, empolgou-se e disse que desejava os navios o mais distantes possível um do outro, fora da baía da Guanabara, pois quando seus aparelhos fossem aperfeiçoados, no futuro, serviriam inclusive para comunicações interplanetárias. “Não o levaram a sério”, diz Almeida. O funcionário nunca mais voltou a procurá-lo.

Enquanto isso, o Brasil começava a importar tecnologia de telégrafo sem fio da alemã Telefunken – a primeira estação, instalada no morro da Babilônia, no Rio de Janeiro, foi inaugurada em 14 de julho de 1907. Poucos anos mais tarde, em 1919, Marconi vendeu sua empresa de comunicação, a Marconi Wireless Telegraph Company, à General Electric Company, dos Estados Unidos, onde, no ano seguinte, foi inaugurada a primeira emissora comercial de rádio, a KDKA, em Pittsburgh, na Pensilvânia. No Brasil, a primeira transmissão oficial de rádio aconteceria em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência, no Rio de Janeiro.

Radioamadores

Landell de Moura é o patrono dos radioamadores brasileiros e foi por intermédio deles que sua história passou a ser divulgada na Alemanha. Quando soube da existência do padre inventor, no início da década de 1980, Alda Niemeyer, radioamadora há 33 anos (ela tem hoje 89), foi tomada pela mesma paixão que moveu Almeida. Descendente de alemães e suíços, Alda, que mora em Blumenau (SC), começou a pesquisar e, ao mesmo tempo, escrever artigos sobre Landell de Moura, em português, inglês e alemão. Logo conheceria Hamilton Almeida, de quem se tornou amiga, e traduziu seu último livro para o alemão. Pater und Wissenschaftler foi lançado na Alemanha em 2004, durante um encontro mundial de radioamadores, que naquele ano aconteceu na cidade de Konstanz e, segundo Alda, reuniu cerca de 7 mil aficionados: “A repercussão do livro foi maravilhosa nos países onde se fala alemão”, diz, referindo-se a Bélgica, Áustria e Suíça, além da Alemanha.

Almeida e Alda encabeçam o Movimento Landell de Moura, junto com o também radioamador Daniel Figueiredo, de Aracaju, e o matemático Luiz da Silva Netto, de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, que escreve artigos, inclusive técnicos, detalhando as invenções do padre, e os publica, em especial, num site de radioamadores brasileiros (http://www.qtcbrasil.com.br/).

O fascínio pelo personagem justifica-se plenamente. O padre cientista deixou marcas intrigantes nas cidades onde morou: Porto Alegre, em que nasceu e viveu os últimos anos, Roma, onde estudou, além do Rio de Janeiro e várias cidades paulistas – São Paulo, Santos, Campinas, Mogi das Cruzes, Queluz e Botucatu. Sem contar Nova York.

Em cerca de 30 anos de pesquisas, o jornalista Almeida percorreu toda a trajetória do inventor no Brasil, entrevistando familiares, pessoas que o conheceram, técnicos e cientistas, esmiuçando seus documentos, desenhos e escritos, pinçando notícias de jornais do início do século 20.
Foi nos manuscritos de Landell de Moura, entre os quais há até receitas médicas, reunidos no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, que o jornalista encontrou provas de que o padre havia descoberto também o efeito Kirlian, bem antes do russo Semyon Davidovich Kirlian, que o faria no fim dos anos 1930. Já no início do século passado o padre desenvolveu uma técnica de fotografia do halo eletroluminescente dos corpos, ao qual chamou de “perianto”, e deixou farto material sobre o assunto.

Em Mogi das Cruzes, onde viveu entre 1906 e 1907, Landell de Moura chegou a praticar exorcismo, atendendo a uma menina de nome Rosa, filha de Manoel Correia da Rocha. A experiência foi registrada em mais de 200 páginas manuscritas. Entre as conclusões do episódio, o padre afirmou: “Existe uma força desconhecida e que, segundo os fenômenos que manifesta, deve ser classificada entre as forças físicas”. Disse ainda que “essa força inteligente é imaterial e incorpórea”, e que “apesar de imaterial pode agir sobre a matéria e impressionar nossos órgãos sensíveis”.

Já em Porto Alegre, em 1919, segundo narrou Hernani de Araújo, amigo do inventor, ao jornalista Almeida, Landell de Moura livrou do sonambulismo, provavelmente por meio de telepatia, uma jovem histérica que perambulava à noite, andando até sobre muros. Araújo descreveu assim a cena da cura: “O sacerdote desembrulhava um pequeno recipiente de água benta quando a atitude da moça se modificou por completo. A fisionomia era de ódio. Os olhos arregalaram-se, imóveis”. De acordo com o relato, a moça então se dirigiu ao padre com as palavras “mais ignóbeis que se possa imaginar”, descrevendo episódios da vida íntima do religioso que ninguém conhecia, parecendo vê-lo, “apesar do olhar vidrado”. Enquanto o padre rezava, a jovem desmaiou, recuperou o estado normal e nunca mais manifestou a doença, segundo a testemunha.

Em 1976, Almeida encontrou o coroinha de Landell de Moura em Mogi das Cruzes – Benedicto Olegário Berti, que também relatou suas lembranças: “Nas missas [o padre] levava uma caixinha para o altar e a colocava perto do cálice. A um sinal vindo de dentro da caixinha parava a missa e começava a falar em italiano com aquele objeto estranho, que respondia baixo”.
Tais episódios causaram suspeita. Fiéis católicos quebraram os aparelhos de Landell de Moura, chamando-o de bruxo, e a Igreja jamais o apoiou, como ele, sem dúvida ingenuamente, chegara a esperar. Bem antes do primeiro registro oficial de radiodifusão no Brasil, em 1922, o padre teria se recolhido, destruído seus equipamentos e encaixotado seus livros, testemunhando depois o sucesso do rádio, que, em 1928, quando ele faleceu (no dia 30 de junho, aos 67 anos), já seria uma realidade em todo o mundo.

Inventor certo no país errado

Apesar de sua importância, as descobertas de Roberto Landell de Moura, feitas no final do século 19, não reverteram em nenhum benefício nem para ele nem para o país. Mesmo que vivesse agora, porém, é pouco provável que elas tivessem outro destino.
Há hoje no Brasil quase 100 mil cientistas em atividade, mas, segundo Shozo Motoyama, professor de história da ciência da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, os trabalhos desses estudiosos têm poucos canais de comunicação com o mercado. Em sua opinião, existem dois motivos para isso: não só há carência de agências oficiais, que acompanhem de perto e estimulem as pesquisas, como falta ousadia aos empresários. “O governo se empenha em divulgar os números de doutores e de trabalhos produzidos, mas não mostra o mesmo interesse pela qualidade nem busca aproveitar essa produção. Já os empresários brasileiros têm muita capacidade de ganhar dinheiro, mas não gostam de se arriscar.”

São vários os exemplos de tecnologia nacional que o Brasil relegou a segundo plano. As pesquisas com álcool combustível, por exemplo, datam do início da década de 1920, mas só foram retomadas na crise do petróleo dos anos 1970 e aperfeiçoadas recentemente. Nesse caso, o país conseguiu, apesar disso, manter-se na liderança global (embora os Estados Unidos estejam à frente nas pesquisas da segunda geração de etanol, a partir de celulose).

Em microeletrônica, por sua vez, levou a pior. Francisco Assis de Queiroz, também professor de história da ciência da FFLCH, lembra que a Escola Politécnica da USP desenvolveu protótipos de computadores nos anos 1960, que acabaram desmontados e esquecidos. Pode estar aí a origem do crescente déficit da balança comercial do país nessa área.

O Brasil só fabrica componentes eletrônicos de baixo ou médio valor agregado e importa todos os de maior valor, já que a produção destes demanda investimentos extremamente altos, que a iniciativa privada brasileira teria dificuldade para assumir sozinha (segundo Queiroz, nos países desenvolvidos, que lideram o mercado, o setor tem apoio governamental).

Já em biotecnologia, o especialista vê mais possibilidades de avanço, pois a atuação do país é efetivamente forte na área, que, além disso, demanda aportes mais modestos de capital para transformar pesquisa em produtos.


Revista Problemas Brasileiros