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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

SociedadeNúcleo estuda marcadores sociais da diferença

Pesquisadores da área de ciências sociais enfatizam relações entre as divisões de gênero, raça e sexualidade.

Agência USP

Os marcadores sociais da diferença são um campo de estudo das ciências sociais que tentam explicar como são constituídas socialmente as desigualdades e hierarquias entre as pessoas. Dentro desta área, a ênfase dos trabalhos desenvolvidos no Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, recai principalmente sobre raça, gênero, e sexualidade. Integrante do Numas, a professora Heloisa Buarque de Almeida afirma que todas estas são diferenças construídas pela sociedade, mas tidas como se fossem "naturais". Os marcadores sociais das diferenças também incluem outras categorias, como uma das noções básicas da sociologia, que é a classe social. Mas a preocupação principal do núcleo, e que justifica sua criação, além de saber como essas diferenças são construídas, é ver como estão interligadas. "Não cabe, por exemplo, um pesquisador estudar gênero, compartimentado, e outro estudar raça; e sim buscar enxergar, nos estudos empíricos, como estas diferenças se articulam", observa Heloisa. O Núcleo inclui pesquisas individuais de seus participantes em assuntos específicos dentro da temática maior. Os professores Laura Moutinho e Julio Assis Simões, por exemplo, estão finalizando um projeto extenso sobre sexualidade, que teve financiamento internacional, e que compara trajetórias afetivo-sexuais de pessoas, brancas e negras; hetero, bi e homossexuais; no Brasil, na África do Sul e nos Estados Unidos. Já a professora Lilia Schwartz está iniciando uma pesquisa sobre o escritor Lima Barreto que busca analisar como o lugar social do autor - negro e considerado marginal em sua época - se reflete na sua produção. Heloisa, que sempre teve mídia e gênero como focos de interesse, principalmente as telenovelas, no momento está vinculada a um projeto temático sobre indústria cultural no Brasil. O estudo parte do princípio de que as construções sociais de gênero no Brasil são muito permeadas pelas construções da televisão. E isso é demonstrado a partir da análise de dois seriados que, como explica a professora, "falavam sobre mulheres e para mulheres": "Malu Mulher" (1979-1980), e "Mulher" (1997-1998). Diálogo O Numas organiza ainda seminários internacionais e locais, reunindo professores, convidados e alunos de graduação e pós. "Estamos tentando manter um diálogo constante com as pessoas que têm pesquisas nestas áreas, dentro e fora da USP. Mesmo que ainda seja algo relativamente novo para a academia pensar estes temas em relação", afirma Heloísa Além disso, também é realizado um projeto comum de cooperação acadêmica com a Universidade Federal do Pará (UFPA). "Temos promovido intercâmbios de alunos e professores, oferecido cursos no Pará, e também empreendido pesquisas de campo conjuntas." A procura de alunos interessados em realizar pesquisas de pós-graduação neste campo - inclusive provenientes de outras áreas, como saúde, direito e relações internacionais - tem crescido. "Nosso objeto de pesquisa é muito amplo, podendo incluir trabalho, família, sexualidade, enfim, muitos assuntos onde os marcadores sociais aparecem, permeando a vida das pessoas", esclarece Heloisa. Ela acrescenta que os estudos de gênero e sexualidade, em particular, sofreram um boom nas últimas décadas em razão da epidemia de aids. "O financiamento público em pesquisas na área aumentaram consideravelmente, já que para desenvolver estratégias de prevenção - que consistem basicamente em mudar o comportamento das pessoas - é preciso entender como elas pensam e vivem a sexualidade", explica. Estudos como estes tornam possível visualizar de maneira mais direta como as teorias trabalhadas no Numas são estendidas para a sociedade, sob a forma do fomento a políticas públicas. A educação também é outro campo em que isso se torna claro. O livro direcionado a estudantes de ensino médio - Diferenças, igualdade (Berlendis e Vertecchia Editores) - produzido com a colaboração de professores do núcleo, é um exemplo. A obra é parte de uma coleção que busca introduzir a este público métodos e abordagens das ciências sociais, com situações concretas que permitem compreender os conceitos envolvidos.

Revista Sociologia

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