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sábado, 23 de janeiro de 2010

Um único momento

Qual o tempo da eternidade? Como se configura o para sempre? Há o tempo certo para morrer? O belo e o efêmero entram em cena nas questões de conflito com a morte

Rubem Alves é escritor, educador e psicanalista


Orei, transbordante de felicidade pelo nascimento do seu primeiro neto, convidara todos os poetas, gurus e magos do reino a virem ao palácio, a fim de escreverem num livro de ouro seus bons desejos para a criança. Um sábio de muito longe, desconhecido, escreveu: "Morre o avô, morre o pai, morre o filho..." O rei, enfurecido, mandou prendê-lo no calabouço.

A caminho do calabouço passou pelo rei que o amaldiçoou pelas palavras escritas. O sábio respondeu: "Majestade, qual é a maior tristeza de um avô? Não é, por ventura, ver morrer seu filho e seu neto? Qual é a maior tristeza de um pai? Não é, por ventura, ver morrer o filho? Ah! Quanto não dariam eles para poder trocar de lugar com os filhos e netos mortos. Felicidade é morrer na ordem certa. Morre primeiro o avô, vendo filhos e netos. Morre depois o pai, vendo seus filhos..."

Ouvindo isso, o rei tomou as mãos do sábio nas suas e as beijou.... Há uma morte feliz. É aquela que acontece no tempo certo. Existe grande alegria em terminar a obra que se iniciou: ver a casa pronta, o livro escrito, o jardim florescendo. A vida de um filho é assim: um sonho a ser realizado. Então, vem o impossível meteoro que estilhaça o sonho. Fica a casa não terminada, o livro por escrever, o jardim interrompido. Essa era uma das dores daquele pai que me falava da sua dor pela morte do filho.

Lembrei-me de um livro que Li, faz muito tempo: Lições de Abismo, de Gustavo Corção. Era a história de um homem, cinquenta e poucos anos, que descobre que teria não mais que seis meses de vida, a doença que estava em seu corpo matava rápido. Sem futuro, ele examina o passado, em busca de sinais de que não viveu em vão. O que encontra: cacos e fracassos. Pensa então que a vida deveria ser como uma sonata de Mozart que dura não mais do que vinte minutos. Morre cedo. Depois dela vem o silêncio. Morte feliz. O silêncio se faz porque tudo que havia para ser dito havia sido dito.


Assim sentia aquele pai: seu filho era uma sonata que mal se iniciara. Aí, de repente, eu experimentei satori [termo budista para compreensão]: senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão se enredando todas as experiências de beleza e de amor pelas quais passamos. "Aquilo que a memória amou fica eterno."

Um pôr-do-sol, uma carta que se recebe de um amigo, um único olhar de uma pessoa amada, o abraço de um filho. Houve muitos momentos em minha vida, de tanta beleza, que eu disse para mim mesmo: "Valeu a pena eu ter vivido toda a minha vida para viver esse único momento".

Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida. Compreendi, de repente, que a dor da sonata interrompida se deve ao fato de que vivemos sob o feitiço do tempo. Achamos que a vida é uma sonata que começa com o nascimento e deve terminar com a velhice. Mas isso está errado. Vivemos no tempo, é bem verdade. Mas é a eternidade que dá sentido à vida.

Eternidade não é o tempo sem fim. Tempo sem fim é insuportável. Já imaginaram uma música sem fim, um beijo sem fim, um livro sem fim? Tudo que é belo tem de terminar. Tudo o que é belo tem de morrer. Beleza e morte andam sempre de mãos dadas. Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: "Valeu a pena". Não é preciso evolução, não é preciso transformação: o tempo é completo e a felicidade é total. É claro que isso como diz Guimarães Rosa, só acontece em raros momentos de distração.

Não importa. Se aconteceu, fica eterno. Por oposição ao "nunca mais" do tempo cronológico, esse momento está destinado ao "para todo o sempre". Compreendi, então, que a vida é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de minissonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.

Revista Psique

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