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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Olho Grego 2

Os temas pequenos da filosofia



Renato Janine Ribeiro

Civilização


Geyse Arruda, aluna hostilizada em uma universidade de São Paulo por usar um vestido curto


Um dos principais livros de Norbert Elias é O processo civilizador, em que ele conta, com detalhes, mas também com interpretações refinadas, essa gradual conquista da educação sobre a grosseria. (Devo dizer que nem todos o leem assim. Alguns acham que ele mostra como os "bons modos" são uma forma - violenta - de impor ordem na sociedade, lançando desdém sobre os rústicos).

Talvez sua ideia mais oportuna de lembrar, hoje, seja que a exibição cada vez maior do corpo, sobretudo feminino, nas últimas décadas vem junto com um aumento de autocontrole. É o contrário do que imaginaríamos à primeira vista. Quando se adota o biquíni e depois o fio-dental, tem-se a impressão de que um, permitam a palavra, liberou geral. Mas não é nada disso. O homem que vê uma mulher com quase todo o corpo nu tem que agir como se ela estivesse inteiramente vestida. Não pode atacá-la, não pode desrespeitá-la. Mas isso exige esforço por parte dele.

Portanto, não ocorrem apenas mudanças porque as pessoas usam roupas mais exíguas. Elas ocorrem também porque quem lida com elas tem de se adaptar a isso. O aparente "ganho" erótico de enxergar mais do corpo alheio é compensado por um seguro "custo" de ter que se conter mais que no passado. Os jovens que vaiaram uma colega na Uniban porque usava um microvestido, que o digam: faltou-lhes autocontenção.

Por isso, o que temos em cena não é algo apenas político. É claro que podemos fazer uma interpretação política do que as boas maneiras representam. Mas seu principal papel é social, mais que político. Constrói-se, nas palavras de Elias, uma civilização. Os costumes são civilizados. (O livro dele, A civilização dos costumes, deve ter o título entendido como o civilizar dos costumes, e não como uma civilização que se caracterizaria pelos costumes). Isso muda o mundo.

Questões Pequenas


A etiqueta, dizia, é uma pequena ética. As questões de que Elias trata são pequenas, também. Mas são fundamentais. Dizem respeito ao que Foucault chamaria uma microfisica. Cobrem ações que afetam o dia-a-dia de todos: são dezenas ou centenas de bilhões de gestos diários que expressam nosso respeito, nossa contenção - ou nosso desdém, quem sabe.Norbert Elias demorou, talvez por se ocupar de matéria considerada pequena, para ser reconhecido. Escreveu sua grande obra, que mencionei, em 1939. Alemão, ele estava exilado na Inglaterra. Mal se notou esse livro. Chegou, na década de 1960, a ir dar aulas na recém-independente Gana, o que mostra como a academia o ignorava. Contudo, em seus últimos anos de vida, teve reconhecimento. Hoje, é uma referência obrigatória nas Ciências Sociais e na História - e as questões que levanta têm forte interesse filosófico, quando mais não seja porque a "pequena ética" nos faz perguntar sobre suas fronteiras com uma "grande ética".



Revista Filosofia

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