Amazon MP3 Clips

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Durante décadas, psicanalistas associaram as doenças mentais a certos comportamentos religiosos, mais precisamente às possessões mediúnicas. Hoje, após anos de pesquisas, os médicos admitem a contribuição da religião no tratamento de patologias

Por Roberta de Medeiros


PERSONALIDADE MÚLTIPLA


Muitos estudos apontam que a prática religiosa traria inúmeros benefícios para a saúde mental de um indivíduo, pois a doutrina traria novas metas e objetivos, em relação aos comportamentos desajustados

Então, como explicar o fenômeno? Seria transtorno de personalidade múltipla? Outra pesquisa investigou a ligação entre o estado de transe dos espíritas e o distúrbio, que se caracteriza pela presença de duas ou mais identidades distintas que, repetidamente, tomam controle do comportamento, acompanhadas por uma incapacidade de lembrar-se de informações pessoais importantes.

O problema poderia explicar o que ocorre com o médium? O psiquiatra Mário Rodrigues Louzã, do Departamento de Psiquiatria da USP, investigou a questão. O seu estudo abrangeu 72 médiuns de São Paulo que, submetidos às questões, sinalizam a presença da personalidade múltipla (DDIS). O estudo foi apresentado no Congresso da Associação de Psiquiatria Norte- Americana, em San Diego (EUA).

Os voluntários responderam perguntas como: você já sentiu que existe outra pessoa dentro de você? Essa pessoa já tomou o controle do seu corpo? Há momentos em que você se sente irreal, como num sonho? Já ouviu vozes conversando dentro da sua cabeça? A conclusão do estudo: "As experiências dos médiuns não têm nenhuma relação com aquelas que constam do questionário que identifica personalidade múltipla", concluiu o psiquiatra.

Os resultados demonstraram uma forte presença do comportamento dissociativo relacionado a experiências religiosas. Num período de 30 dias, foi observada uma média de 4,6 casos de incorporação; 2,9 de escutar espíritos e 2,8 de recebimento de mensagens espirituais.

No entanto, não foi constatada uma relação patológica da dissociação com religião. A pesquisa ainda demonstrou bom controle social do fenômeno. Apenas 4 das 62 respostas alegaram história de abuso sexual na infância, o que demonstra que comportamentos dissociativos podem estar presentes em uma população bem-adaptada.

Segundo o psiquiatra, não há evidências de que a dissociação surja como mecanismo de defesa ou de que seja decorrente de traumas psicológicos. Ao contrário, Louzã lembra que as reações dos médiuns são aprendidas. Além disso, o controle sobre elas tende a aumentar com o tempo de treinamento recebido pelos médiuns. Isto é, quanto mais a mediunidade for praticada, menor a incidência de doenças mentais. "Os fenômenos que ocorrem no contato religioso estão sob o controle do líder do centro, se a situação escapa ao controle, ele logo percebe que não é o que se espera e intervém", comenta.


Há muito tempo difundido pela mídia e estudado há mais de dois séculos, o tratamento espiritual, ou as cirurgias espirituais, ainda geram polêmicas entre psiquiatras e estudiosos da área

"NÃO HÁ EVIDÊNCIAS DE QUE A DISSOCIAÇÃO SURJA COMO MECANISMO DE DEFESA OU DE QUE SEJA DECORRENTE DE TRAUMAS"

O psiquiatra lembra que existe uma correlação entre dependência da recompensa e comportamento dissociativo relacionado à atividade religiosa. "São pessoas que gostam de chamar a atenção para si e costumam fazer coisas para causar boa impressão. É um temperamento que lembra a atitude das crianças. Elas fazem de tudo para ganhar a atenção das pessoas ao seu redor", compara Louzã, que acredita que a prática religiosa traga benefícios a quem sofre de doença mental. "Em muitos casos, os líderes ajudam, porque ensinam as pessoas a trabalhar seus comportamentos desajustados."


ALENTO PARA O DEBATE

Todo mundo conhece alguém que buscou religiões espiritualistas (kardecismo, umbanda e candomblé) com intuito específico de curar uma determinada doença. No Brasil, a prática é largamente difundida. A possessão é vista com bons olhos. Dificilmente é encarada como um traço de instabilidade mental, como ocorre em países de forte cultura industrial, por exemplo. Entre os católicos (80% dos brasileiros), uma grande parcela se declara não praticante (90% deles) e participa de cultos espíritas. A busca é livre.


Existiria um lado religioso e um lado médico? Há alguma distinção entre doença espiritual e doença material? Os líderes religiosos acreditam que sim. Essa visão, porém, não é compartilhada pela Psiquiatria, que descarta a existência de uma fronteira entre a doença da alma e a doença da mente. Para a Psiquiatria, ou a doença existe ou não.

REVISTA PSIQUE

Durante décadas, psicanalistas associaram as doenças mentais a certos comportamentos religiosos, mais precisamente às possessões mediúnicas. Hoje, após anos de pesquisas, os médicos admitem a contribuição da religião no tratamento de patologias

Por Roberta de Medeiros

PESQUISA E RELATOS

Mas, afinal, qual seria a relação da religião com transtornos psiquiátricos? Pesquisadores do Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (ProSER) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) foram em busca de respostas. Em sua tese de doutorado, o psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, levou a cabo uma minuciosa pesquisa que investiga a saúde mental de médiuns espíritas. O propósito era descobrir se havia ou não alta incidência de distúrbios psiquiátricos entre eles.

A VERTENTE QUE TOMOU COMO PATOLÓGICA AS VIVÊNCIAS MEDIÚNICAS CONSIDERAVA AS PESSOAS EMOCIONALMENTE INSTÁVEIS




Um caso real

Baseado na história real da alemã Annelise Michel (foto), que morreu após uma série de exorcismos mal-sucedidos, o filme O exorcismo de Emily Rose, mostra o drama de uma advogada ateia que precisa defender um padre acusado de assassinar uma garota. Na verdade, ele acreditava que a menina estava possuída. Os promotores usavam explicações baseadas em Psicanálise e Psiquiatria para sentenciar o padre.

Foi realizada uma triagem entre 115 médiuns de centros espíritas de São Paulo. Aqueles com indicadores de doença mental (12 deles) participaram de uma longa entrevista, que durou cerca de quatro horas. Eles relataram suas experiências sobrenaturais, seu histórico psiquiátrico e seu cotidiano. O perfil deles foi então comparado ao resultado de um segundo grupo, composto por 12 espíritas livres de sintomas.

A análise mostrou que, mesmo fora das sessões espíritas, a maioria dos entrevistados sentia que suas ideias e sentimentos eram controlados por uma força externa (de 60% a 70% do total); um terço alegou escutar vozes que comentavam suas ações ou dialogavam entre si. A Psiquiatria chama essas experiências de psicóticas, que fazem parte do quadro de esquizofrenia e outras psicoses.

De fato, a metade do grupo tinha uma contagem alta de sintomas de esquizofrenia. Cada espírita tinha quatro ou mais. Alguns relatos: "vejo espíritos se aproximando..."; "Surge uma voz na minha cabeça com sugestões para eu fazer alguma coisa"; "Vem um pensamento, como se alguém estivesse falando dentro do meu cérebro"; "Sinto algo encostando, como se colocassem a mão em meu ombro"; "Fico anterior ao corpo, como se estivesse boiando."



A teoria de que as mulheres são mais emotivas e, portanto, mais sensitivas que os homens pode ser validada depois do estudo que verificou que a maioria dos médiuns era do sexo feminino

Eequizofrenia e outras psicoses

Freud entendia a neurose como o resultado de um conflito entre o Ego e o Id, ou seja, entre aquilo que o indivíduo é (ou foi) de fato, com aquilo que ele desejaria prazerosamente ser (ou ter sido), ao passo que a psicose seria o desfecho análogo de um distúrbio entre o Ego e o Mundo. De acordo com Kraepelin, a paranoia é uma entidade clínica caracterizada, essencialmente, pelo desenvolvimento insidioso de um sistema delirante duradouro e inabalável mas, apesar desses delírios há uma curiosa manutenção da clareza e da ordem do pensamento, da vontade e da ação.
Ao contrário dos esquizofrênicos e doentes cerebrais, em que as ideias delirantes são um tanto desconexas, nesta Psicose Delirante Crônica as ideias se unem num determinado contexto lógico para formar um sistema delirante total, rigidamente estruturado e organizado.





Normalmente o funcionamento social desses pacientes paranoicos não está prejudicado, apesar da existência do delírio. A maioria dos pacientes pode parecer normal em seus papéis interpessoais e ocupacionais. A impressão que se tem é a de uma ilha de delírio num mar de sanidade, portanto, uma espécie de delírio insular.

Já os transtornos esquizofrênicos se caracterizam, em geral, por distorções características do pensamento, da percepção e por inadequação dos afetos. Usualmente o paciente com esquizofrenia mantém clara sua consciência e sua capacidade intelectual. A esquizofrenia traz ao paciente um prejuízo tão severo que é capaz de interferir amplamente na capacidade de atender às exigências da vida e da realidade.

O tipo mais comum de esquizofrenia é a paranoide. Além de delírios de perseguição, o sujeito tem também delírios de grandeza, ideias além de suas possibilidades. Esses pensamentos podem vir acompanhados de alucinações, aparição de pessoas mortas, diabos, deuses, alienígenas e outros elementos sobrenaturais. Algumas vezes esses pacientes chegam a ter ideias religiosas e/o políticas, proclamando-se salvadores da Terra ou da raça humana.

(FONTE: PSIQWEB)

No entanto, nenhum praticante foi considerado esquizofrênico. Isso porque o grupo não preenchia outros critérios para diagnóstico, como a tendência de se afastar das pessoas, a desconfiança exagerada e a obsessão por certos assuntos. Para se ter uma ideia de como esses aspectos são importantes, mesmo nas fases em que a pessoa esquizofrênica não está em crise (sem delírio), esses traços persistem. Justamente por isso eles servem como um divisor de águas.

Outro dado: a rotina do grupo era normal - com vida social, trabalho, estudo, amigos. Além disso, os espíritas tinham controle sobre as visões (e a capacidade de manter as rédeas da própria vida é fator essencial para que o médico possa dizer se uma pessoa é esquizofrênica ou não). O fato de serem sensitivos também não era causa de isolamento; eles até gozavam de prestígio em seu grupo. O que não vale para o típico esquizofrênico, que se aliena do mundo

REVISTA PSIQUE

Durante décadas, psicanalistas associaram as doenças mentais a certos comportamentos religiosos, mais precisamente às possessões mediúnicas. Hoje, após anos de pesquisas, os médicos admitem a contribuição da religião no tratamento de patologias

Por Roberta de Medeiros

Outro estudioso que se dedicou aos temas ocultos foi o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), autor de Sobre a Psicologia e a patologia dos fenômenos chamados ocultos. Como Janet, explicou a comunicação com os espíritos a partir do subconsciente. "A grande maioria das comunicações tem origem puramente psicológica e só aparece personificada porque as pessoas não têm noção nenhuma da psicologia do inconsciente", escreveu. Porém, outros escritos revelam que ele tinha dúvidas quanto à origem dessas manifestações: "Para mim, elas são inexplicáveis e sou incapaz de decidir a favor de qualquer uma das interpretações usuais."




Na experiência mediúnica, haveria uma desagregação de "complexos psíquicos", o que dependeria de certa predisposição. Com a prática da capacidade dissociativa, haveria cada vez mais elaboração das manifestações mediúnicas.



Assim, os espíritos se multiplicam. Outro elemento que também explicaria o transe é o chamado "aumento do rendimento inconsciente", ou seja, "aquele processo automático cujo resultado não está ao alcance da atividade psíquica consciente do respectivo indivíduo". Como a manifestação do inconsciente, o médium pode exibir uma inteligência superior, como ter acesso a informações não disponíveis na vigília.



Experiência sobrenatural é comum

Experiências sobrenaturais são bem mais corriqueiras do que se imagina. Uma investigação feita na Grã-Bretanha, no século XIX, entrevistou 15 pessoas que responderam às seguintes perguntas: "Você já teve, quando completamente desperto, uma vívida impressão de ver e ser tocado por um ser vivo ou objeto inanimado, ou de ouvir uma voz, cuja impressão não foi devida a qualquer causa física externa?". De um total de 1.684 que responderam "sim", muitas delas eram mulheres e jovens adultos. O tipo de alucinação mais frequente foi a visual. Outro estudo mostrou que 10% dos homens e 15% das mulheres apresentam alucinações ao longo da vida.


Há diversas pesquisas do gênero com universitários. Uma delas envolveu 375 estudantes, 39% deles relataram apresentar sonorização do pensamento. Em outra amostra de 586 entrevistados, de 30% a 40% já ouviram vozes, sendo que em quase metade dos casos essa experiência era vivida uma vez por mês. A maioria das pessoas vê essas alucinações como algo positivo. Os resultados das pesquisas em pessoas livres de transtornos mentais levam alguns autores a questionar se as alucinações devem ser sempre consideradas uma patologia.

É verdade que nem todas as pessoas estão dispostas a falar sobre suas alucinações. Não abertamente. É de se supor que algumas delas tenham receio de partilhar suas vivências por temer a rejeição social. Já no contexto religioso essas experiências são valorizadas pelo grupo.

É algo para se pensar. O fato é que não há respostas prontas. O que os pesquisadores fazem é rastrear pistas. Uma que pode ajudar é descobrir o que veio primeiro: a prática religiosa ou a doença mental? A partir daí, é possível arriscar algumas conexões: "A religião está na origem do transtorno psiquiátrico ou pessoas com distúrbios é que buscam a religião como alívio?", questiona o psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG).



De qualquer modo, existe muita discussão em torno dos sinais que podem separar o "normal" do "anormal". Isso vai depender do viés, dos padrões ditados por uma dada cultura. Uma forma flexível de encarar as crenças religiosas de cada paciente é o que os pesquisadores parecem defender: "É vital que a abordagem seja equilibrada e evite os extremos. Por um lado, tomar como doentios os estados místicos e, por outro lado, tomar como espiritualidade os estados psicóticos e glorificar a doença", reflete o psiquiatra Mário Rodrigues Louzã, do Departamento de Psiquiatria da USP.



Psicólogo William James considerava a possessão demoníaca como uma forma natural de personalidade alternativa, personificar uma personalidade sem ter caráter patológico



Jung pondera a possibilidade de que a personalidade comunicante seria a personifi- cação de um arquétipo ou realmente um espírito: "No caso de Betty (personalidade que se comunica), tenho dúvidas em negar sua realidade como espírito; isto significa que estou inclinado a aceitar que ela seja mais provavelmente um espírito do que um arquétipo, ainda que represente supostamente as duas coisas ao mesmo tempo. Parece-me que os espíritos têm uma tendência cada vez maior de se aglutinar aos arquétipos."



Com os estudos de neurologia surgidos na década de 1870, os pesquisadores William Hammond e George Miller Beard destacaramse na tentativa de demonstrar que o fenômeno do transe tinha causas orgânicas. Acrescentando novos elementos ao discurso hegemônico, defenderam a tese de uma vida involuntária, semelhante ao conceito de subconsciente no qual poderia aflorar com uma disfunção cerebral. Outro teórico da época foi o médico criminologista Cesare Lombroso (1835-1909), autor de Hipnose de mediunidade (1909). Ao sondar o tema com a médium italiana Eusápia Paladino, concluiu que os médiuns tinham comportamentos histéricos.

A vertente que tomou como patológica as vivências mediúnicas considerava as pessoas frágeis e instáveis emocionalmente um alvo fácil da doutrina espírita. Os estudos se concentraram nas mulheres, por serem mais suscetíveis à histeria e mais propensas a desenvolver doenças mentais. E, de fato, a maioria dos médiuns era mulher. A conversão à doutrina ocorreria em marcos de fase reprodutiva, como puberdade, após o nascimento do filho e na menopausa. Vale lembrar que o pensamento surgiu numa época em que a mulher passou a se manifestar a favor do sufragismo, do socialismo e das reivindicações trabalhistas - o que oferecia uma ameaça ao status quo.

Myers explicava que a consciência subliminal, aquela que está fora da nossa consciência, poderia sim desencadear poderes como hipnose e clarividência


Myers explicava que a consciência subliminal, aquela que está fora da nossa consciência, poderia sim desencadear poderes como hipnose e clarividência

É verdade que mesmo os praticantes da doutrina levantam a possibilidade de existir um grupo de risco predisposto a apresentar delírios ao serem instigados pela prática religiosa. Isso serviu de argumento para a Psiquiatria que logo tomou o "delírio espírita" como uma variação da loucura religiosa. "A mediunidade constitui o elemento predominante do delírio.
Aqui, o espiritismo foi somente sua causa ocasional, dando-lhe forma à possessão demoníaca", escreveu o psiquiatra francês Joseph Levy-Valensi (1879-1943), autor de Spiritisme et folie. Ele ainda completa: "O delírio espírita é um delírio alucinatório. A alucinação é somente o grau extremo do desdobramento da personalidade. Não constitui uma classe especial de delírios, mas um capítulo da loucura religiosa."
No Brasil, os psiquiatras mais críticos ao espiritismo eram católicos, o que explica por que muitas das teses defendidas assumiram caráter teológico. A discussão do espiritismo e da saúde mental seguiu com base nas defesas elaboradas pelos médicos e psicólogos europeus. O psiquiatra carioca Henrique Belford Roxo (1877-1969) chegou a criar uma classe diagnóstica, o "delírio espírita episódico", caracterizada por alucinações que surgiam nos praticantes do espiritismo.
O delírio seria resultado de um choque emotivo que dá origem a uma alucinação breve, que se diferencia da esquizofrenia, da parafrenia e da psicose maníaco-depressiva. Esses casos representariam, segundo ele, 10% das internações.
O embate entre psiquiatras e espíritas perdeu força após a década de 1950. Nos anos seguintes, surgiu a abordagem transcultural que adotava uma visão mais antropológica acerca do tratamento dos distúrbios mentais. Essa abordagem rompeu com o etnocentrismo, afirmando-se sensível às diferentes realidades nas quais ocorre o adoecimento psíquico e incorporando concepções populares sobre a doença no processo terapêutico. Nesse caso, a religião começou a ser vista mais como um auxílio ao tratamento do que algo a ser combatido.



Revista Psique

Entre o bem e o mal

Durante décadas, psicanalistas associaram as doenças mentais a certos comportamentos religiosos, mais precisamente às possessões mediúnicas. Hoje, após anos de pesquisas, os médicos admitem a contribuição da religião no tratamento de patologias



Por Roberta de Medeiros



Roberta de Medeiros é jornalista e escreve para esta publicação



O médico Sigmund Freud (1856-1939) considerou a religião como remédio ilusório contra o desamparo. A crença na vida após a morte estaria embasada no medo da morte, análogo ao medo da castração. Nesse caso, o ego estaria reagindo à situação de abandono. Para ele, os demônios são desejos maus e repreensíveis, derivados de impulsos que foram reprimidos. Os espíritos que se comunicam durante os estados de transe e possessão seriam apenas projeções dessas entidades mentais para o mundo externo.

Da mesma maneira que o fundador da Psicanálise, a Psiquiatria tendia a tomar como patológicos certos comportamentos religiosos. A visão negativa por parte dessa classe deu origem a reações discriminatórias, principalmente em relação ao espiritismo e a religiões afro-brasileiras, cujas experiências foram interpretadas como manifestação (ou causa) de doenças mentais. Essas religiões partem do princípio de que o espírito é imortal e que pode se comunicar com os vivos por intermédio de um médium - pessoa com a capacidade de "mediar" a comunicação com o mundo espiritual.


Um acalorado debate entre médicos e espíritas se estendeu entre a segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX. Médicos chegaram a publicar artigos e teses sobre a chamada "loucura espírita". E começaram a combatê-la. Ora proibindo a divulgação da religião, ora combatendo o charlatanismo, ato praticado por seus seguidores que, frequentemente, são acusados de utilizar ilegalmente a medicina para tratar pacientes com doenças mentais. Em contrapartida, os centros espíritas produziam teses tentando legitimar suas crenças e fundaram seus próprios hospitais psiquiátricos.



Segundo Pierre Janet, o indivíduo tem uma segunda consciência que, quando emerge, traz reações denominadas dissociações, como as alucinações sugeridas no filme O Exorcista



DESAGREGAÇÃO PSICOLÓGICA

Entre os médicos, surgiram duas correntes proeminentes: uma delas pretendia avaliar como os fenômenos mediúnicos poderiam oferecer elementos para melhor compreensão do funcionamento da mente e outra que se ocupou em combater a religião, considerando as manifestações mediúnicas como doença mental - essa foi a que mais influenciou os psiquiatras brasileiros. Eles se basearam na teoria do médico e psicólogo Pierre Janet (1859- 1947) que fala sobre automatismo psicológico. Em sua obra L´Automatisme Psychologic, ele define a mente a partir do funcionamento integrado de diversos módulos mentais independentes (memória, percepção, afeto, sensação). Quando um desses módulos começa a funcionar de maneira independente, teríamos o que o pesquisador chama de desagregação psicológica ou dissociação.



PIERRE JANET DEFINE A MENTE A PARTIR DO FUNCIONAMENTO INTEGRADO DE DIVERSOS MÓDULOS MENTAIS INDEPENDENTES


Janet chamou esse funcionamento independente da consciência de automatismo mental. Ele propunha a existência de uma "segunda consciência". Quando a personalidade se desagrega, uma parcela dela pode se desgarrar do conjunto e dar origem a diversos automatismos motores e sensoriais. Daí os fenômenos como a escrita automática, personalidades múltiplas, anestesias, catalepsias, sonambulismo e alucinações. Ele não acreditava que as experiências mediúnicas pudessem, de fato, ser originadas pelo contato com espíritos. "Em muitos casos há o simples desdobramento da personalidade - a identidade segunda - dizem-se espírito - exprimindo pensamentos latentes do médium: é o treino da mitomania", escreveu Janet.

Outro a se dedicar ao tema foi William James (1842-1910), um dos psicólogos mais importantes de todos os tempos. Seus estudos sobre a religião resultaram no famoso livro As variedades da experiência religiosa e a então chamada psychical research (pesquisa psíquica). Defensor do "empirismo radical", James acreditava que os fenômenos mais absurdos eram passíveis de análise. A investigação da mediunidade recebeu especial destaque e, por mais de duas décadas, ele realizou pesquisas com uma das mais renomadas médiuns do século XIX: Leonore Piper.

O pesquisador considerava a possessão mediúnica uma forma natural de personalidade alternativa, sem necessariamente ter um caráter patológico. Dentre as possíveis explicações para os fenômenos mediúnicos estariam a fraude, a dissociação com uma tendência a personificar outra personalidade e a influência de um espírito. Ele considerava que a telepatia e a real comunicação de um espírito poderiam explicar essas experiências religiosas.

Apoiado em estudos sobre telepatia, hipnotismo e alucinações, o pesquisador inglês Frederic W. H. Myers considerou os fenômenos mediúnicos como manifestação do subconsciente. Desenvolveu a teoria do self subliminal. Existiria "uma consciência mais abrangente, mais profunda, cujo potencial permanece em sua maior parte latente". Utilizou a palavra "subliminal" para designar "tudo o que ocorre sob o limiar ordinário, fora da consciência habitual".

Haveria apenas um "self ", com uma pequena porção consciente (supraliminal) e grande parte inconsciente (subliminal). Os conteúdos subliminais que atingem a consciência frequentemente são diferentes de qualquer elemento de nossa vida supraliminal, inclusive faculdades das quais não há conhecimento prévio. Essas habilidades, como as inspirações dos gênios, telepatia, clarividência e mesmo a comunicação com os mortos - envolveriam uma grande ampliação das faculdades mentais. Sua principal obra, Human personality and its survival of bodily death, foi deixada incompleta e só foi publicada depois de sua morte.





Revista psique

domingo, 25 de outubro de 2009

Onde os mortos nunca dormem

Por A.A. Gill



Os defuntos borrifados de tinta logo voltarão às alcovas vazias. No momento, o espaço que ocupavam não guarda nada além de centopeias mortas. Algumas múmias ainda jazem em seus elaborados esquifes. Com jeitinho, ergo uma pesada tampa, que não deve ter sido movida por um século, e dou uma espiada lá dentro. O ar escapa com um suspiro espesso, e seu cheiro gruda no fundo de minha garganta. Não é odor de podridão, e sim de caldo de carne misturado com o aroma pegajoso de mofo seco e de camadas finas de gente em pó. É um cheiro dramático, inesquecível, com laivos de silêncio e melancolia, evocando preces incessantes ouvidas a distância, remorsos, saudade – um cheiro ao mesmo tempo repelente e familiar, algo de inédito, mas com estranho e intenso toque de déjà vu.


Nunca saberemos ao certo o que esses cadáveres significavam para as congregações que os prepararam e vestiram. Eles continuam sendo um dos mistérios da Sicília. Ficamos a sós com nossos conceitos e dúvidas ao nos confrontarmos com essas tragicômicas visões da morte. É difícil discernir os sentimentos despertados pelos corpos imobilizados em sua jornada do nada ao nada – mistérios, medos, perdas e esperanças. As contradições da vida, eternas e universais.


A bela cidade de Novara di Sicilia tem uma catedral decorada com devoção. Diante do altar há uma porta secreta que conduz à cripta.


Ao pressionar um botão, o chão se abre, como num filme do James Bond. Descendo por um lance de degraus, topamos com uma série de nichos que contêm diversos corpos em ruínas de prelados. Sentados em assentos de pedra com furos redondos no meio – os escoadouros –, com suas fisionomias graves de múmias, eles conferem ao ambiente um jeitão de banheiro coletivo para onde todos vieram se aliviar juntos. Numa prateleira alta cheia de crânios vê-se também uma caixa contendo dois gatos mumificados naturalmente, a evocar sombras distantes do Egito Antigo. Os bichanos se viram presos na cripta, e nos mandam uma lembrança: mesmo com suas sete vidas, o fim é o mesmo para todos.



Revista National Geographic

Onde os mortos nunca dormem

Por A.A. Gill


Rosalia tinha 2 anos quando pegou pneumonia e morreu. Louco de dor, seu pai pediu a Alfredo Salafia, um emérito embalsamador, que a preservasse. O efeito é terrível, de uma vivacidade trágica, e o pesar parece ainda pairar sobre sua pequena cabeça loira. Em Palermo, Rosalia é citada como semidivindade, um anjinho mágico. O taxista diz: “Você viu a Rosalia? Bella”.

Savoca é uma aldeia silenciosa que escala em espiral a encosta de uma colina até atingir um ponto em que a vista se descortina até o mar. É um lugar retrancado em si mesmo, onde Francis Ford Coppola filmou O Poderoso Chefão. O bar em que os personagens Michael e sua trágica esposa celebram sua festa de casamento se encontra em uma pracinha acanhada com o mesmo aspecto que tinha há 37 anos nas telas.

No topo da colina há um convento que mais parece uma hospedaria para mochileiros do que uma instituição gótica da Idade Média. Só há duas freiras ali, ambas indianas, de Jharkhand, leste do país. Elas vestem malhas e jaquetas por cima do sári. Numa saleta lateral, dispostos em caixões provisórios de madeira compensada, veem-se pouco mais de 20 cadáveres, que estão sendo estudados por um trio de cientistas.

Eles formam um time improvável: Arthur Aufderheide, americano octagenário que começou como patologista até se transformar num dos maiores experts mundiais em múmias; Albert Zink, um alemão volumoso que dirige o Instituto para Múmias e o Homem do Gelo, no norte da Itália; e Dario Piombo Mascali, um jovem siciliano elétrico, nervoso, sempre encanado com alguma coisa, entusiástico e motivado.

Encontro Mascali inclinado sobre uma caixa, erguendo com delicadeza a batina de um padre do século 19. Ele procura por alguma amostra orgânica de qualquer parte íntima do padre para que o professor Zink possa realizar alguns testes. Uma bolsinha de pele fina e poeirenta sai em sua mão. Dela ele extrai uma amostra de meio centímetro, etiquetada. A reverendíssima múmia não vai sentir falta de seu escroto, imagino.

Grande quantidade de informação pode ser coligida desses corpos sem vida sobre seu dia-a-dia no passado – dieta, doenças e longevidade. Saber mais sobre sífilis, malária, cólera e tuberculose séculos atrás pode nos ajudar a enfrentá-las melhor hoje. Os cientistas movem-se de forma metódica, aferindo a idade e a altura dos cadáveres, examinando crânios e dentes. Quase toda essa gente sofria de problemas dentários – depósitos de tártaro, gengivas encurtadas, cáries e abscessos. Alguns abdomens são examinados. Um dos corpos teve seu tecido mole removido e outros foram empalhados com trapos e folhas, inclusive de louro, talvez para mitigar o fedor ou, ainda, porque se supunha que tivessem valor conservativo. Rechear aquelas formas encolhidas era um jeito de lhes atribuir aparência vívida.

As peles têm o aspecto ceroso de pergaminho; as roupas estão úmidas e pegajosas; as caras, inchadas e bocejantes; as bocas, exibindo laringes encarquilhadas e mostrando línguas enrugadas para o médico examinar. Os cientistas demonstram respeito pelos corpos, sem perder de vista que são seres humanos – do mesmo jeito que nós –, embora se refiram a eles como “isso”, mantendo assim uma distância desapaixonada quando vão extrair um molar, por exemplo.

Alguns anos atrás essas múmias foram vandalizadas na cripta. Alguém entrou ali e jogou tinta verde nelas. Gerando um efeito lúgubre e humilhante, a tinta borrifou suas caras e seus casacos, dando a impressão de ainda estar pingando, o que as torna ainda mais parecidas com personagens de trem fantasma. As freiras que cuidam dessa estranha congregação olham a tudo com piedade e desagrado. Elas me confessam que aqueles corpos deveriam ser enterrados, permitindo que retornem ao pó de onde vieram. Uma delas afirma que não há nada espiritual ou edificante a se aprender com aquilo.


Revista National Geographic

Onde os mortos nunca dormem

Por A.A. gill



Os corredores abrigam de forma segregada religiosos e profissionais, tais como médicos, advogados e uma parcela de imponentes soldados de opereta em seus uniformes de carabinieri. Há um corredor reservado às mulheres, onde nosso guia salienta que podemos contemplar a moda do passado. Os esqueletos perfilam-se em seus andrajos encardidos. Uma capela lateral é devotada às virgens, algo chocante, uma cruel e patética pecha, pelos padrões liberais contemporâneos – a de ser virgem –, que elas têm de arrastar pela eternidade afora. Quando foram enterradas ali, essas virgens devem ter sido consideradas símbolos de pureza em meio à degeneração da carne que a vida e a morte implicam.



Depois, vem uma capela dedicada às crianças, que vestem suas roupas de festa, posicionadas como bonecos zumbis. Um deles se acha sentado na cadeira de ninar com um esqueletinho no colo, talvez seu irmão menor, compondo um quadro lamentável e risível, de tão grotesco.



Os mortos da Sicília não são como as catacumbas de Roma, uma escavação arqueológica. Os corpos foram colocados nesse lugar para serem vistos, prazer pelo qual você tem de pagar pequena quantia. Cartazes lembram ao visitante que ele deve se comportar de maneira respeitosa e não pode tirar fotos – que, no entanto, são vendidas pelos frades. Não está claro se estamos diante de uma experiência religiosa ou cultural, mas que é uma atração turística, isso é.



A primeira e mais velha múmia é de um frade: Silvestro da Gubbio, de pé em seu nicho desde 1599. (A palavra “múmia” deriva do termo árabe para betumem, substância assemelhada à resina enegrecida que os antigos egípcios usavam para embalsamar cadáveres.) A maioria dos corpos é do século 19. No começo eram apenas frades e outros sacerdotes ligados ao monastério. Com o tempo, os religiosos ganharam a companhia de beneméritos, dignatários e notáveis. Ninguém sabe ao certo o que deflagrou a onda de mumificação. Provavelmente por acaso, descobriu-se que um corpo deixado numa cripta de calcáreo poroso sob determinada temperatura fria acabava ressecando, em vez de apodrecer. Daí nasceu um método: os recém-falecidos eram levados a câmaras chamadas de escoadouros. Ali eram deitados num estrado de terracota sobre bueiros para onde escorriam os fluidos corporais, fazendo com que seus corpos se ressecassem feito presunto. De oito meses a um ano depois, os cadáveres eram lavados com vinagre e vestidos com suas melhores roupas para serem acondicionados em caixões ou pendurados nas paredes.



A preservação de corpos é realizada nos mais diversos lugares, mas é raro que eles sejam exibidos dessa maneira. Tanta gente aportou na Sicília com suas práticas e crenças que resquícios disso tudo acabam aflorando nos tempos modernos, mesmo estando suas origens há muito esquecidas. Já se sugeriu que talvez a prática da mumificação seja um eco residual de ritos muito antigos, pré-cristãos. Nem todos os defuntos ressecavam; alguns deviam apodrecer, levando à crença de que a preservação exprimia a vontade divina, uma intervenção da mão de Deus, mantendo certos indivíduos tais como eram antes da morte, espécie de marca distintiva de sua bondade em vida. Da mesma forma que as relíquias dos santos são utilizadas para reforçar orações e crenças, talvez se acreditasse que Deus preservava alguns corpos para reforçar a fé das pessoas. Ou, quem sabe, as catacumbas cumprissem o papel de grandes vanitas, palavra latina que significa “vazio”, apontando para a insignificância da vida terrena e o caráter transitório da vaidade humana. As catacumbas seriam ilustrações da vacuidade das ambições terrenas e da inevitabilidade da morte, apontando para a tolice que era acumular fortunas na Terra.



Em anos mais recentes, alguns corpos foram preservados de forma mais elaborada, por meio de injeções químicas, o que tirou a responsabilidade das mãos divinas e deixou a tarefa a cargo de agentes funerários. Numa das capelas, uma garotinha chamada Rosalia Lombardo repousa em seu caixão. Ele aparenta dormir sob um imundo lençol marrom. Ao contrário de muitas outras múmias ressecadas, essa mantém o próprio cabelo, apanhado num laço de seda amarela. Cachos de boneca tombam sobre sua fronte escurecida. Rosalia tem os olhos fechados, com cílios bem preservados. Se ela não estivesse cercada por crânios sorridentes e pela podridão reinante no lugar, Rosalia poderia passar por uma criança dormindo no caminho de volta de uma festa. O naturalismo e a beleza da cena são cativantes. O recado, inquietante e amedrontador, é de que a vida não passa de um breve sopro.





Revista National Geographic

Onde os mortos nunca dormem



Por A.A. Gill





Foto de Vincent J. Musi




Um rosto ressecado olha para o firmamento em uma catacumba italiana. Na Sicília, as múmias revelam detalhes sobre a vida e a morte de séculos atrás.




O aeroporto de Palermo chama-se Falcone-Borselino. Soa como o nome de algum seriado policial dos anos 1970, daqueles estrelados por tiras com sobrenome italiano. Bem, não precisa se culpar por não saber que Falcone e Borselino foram bravos magistrados que tentaram pôr fim ao velho domínio do crime organizado sobre a Sicília. Ambos foram assassinados. O povo não gosta de falar da Máfia com estrangeiros ali. Trata-se de um embaraçoso assunto de família, uma tragédia particular, não é da nossa conta.

A Sicília é um lugar cheio de segredos. Dá para sentir isso nas ruas sombrias e barrocas de Palermo, a capital onde o estrago dos bombardeios que marcaram o desembarque dos Aliados, em 1943, ainda não foi totalmente sanado e palácios-cortiços são habitados por refugiados norte-africanos. É um lugar masculino, de gente arisca, belo e ao mesmo tempo oprimido por seu passado de crime e corrupção.

A história da Sicília é um novelão pungente sobre gente miserável e fatalista, do tipo que se encontra em qualquer parte da Europa. Até a década de 1950, os camponeses dali estavam entre os mais pobres do mundo ocidental. Durante séculos, eles cavaram uma esquálida existência, padecendo em vendetas e rixas, injustiça e exploração, crimes de honra e códigos homicidas, tudo envolto em perfume de flor de tangerina e incenso de igreja. Na Sicília, perdura ao longo das eras o hábito de lavar sangue com sangue.

O monastério dos capuchinhos em Palermo é um prédio discreto, anódino. Fica do outro lado da cidade, numa praça tranquila, vizinho a um cemitério, onde, em 1992, a Máfia acertou suas contas com o juiz Borselino. Na porta do monastério, num canto recuado, dois camelôs vendem cartões-postais e guias turísticos. Lá dentro, um frade atrás de uma mesa vende ingressos e mais postais, além de pequenos artigos religiosos. Ele lê seu jornal enquanto o dia se arrasta lá fora.

Descendo por um lance de escada e passando por uma estátua de Nossa Senhora das Dores, achamos a porta da catacumba, espécie de sala de espera dos mortos. É fresco e úmido lá dentro, com um odor acre de especiarias em pó e roupa apodrecida. Pelas janelas altas a luz do Sol se filtra difusa, num fulgor esmaecido. Lâmpadas fluorescentes zumbem no teto, adicionando uma luminosidade anêmica de sala de legista. Pendurados pelas paredes, assentados em bancos, descansando em caixões decrépitos, acham-se ali cerca de 2 mil cadáveres. Eles envergam suas melhores vestimentas, os uniformes de suas profissões terrenas. Não há mais ninguém lá.

Na Europa, o dessecamento e a preservação de cadáveres são um assunto de sicilianos. Há outros exemplos na Itália, mas a maioria dos casos está na Sicília, onde a relação entre os vivos e os mortos é forte. Ninguém sabe ao certo quantos são nem quantos já foram removidos de catacumbas e enterrados em cemitérios por sacerdotes incomodados com essa teologia dos corpos votivos. O fenômeno evoca de imediato uma questão: por que alguém faria isso? Qual a razão de exibir gente morta em lenta decomposição?

Percorro as fileiras de mortos experimentando certa confusão mental ao tentar definir o que estou sentindo. No Ocidente, a gente não costuma ver corpos mortos – a ausência de vida é escondida. Esses cadáveres exalam mistério, exibindo atitudes que parecem revelar convicções pessoais. Examinando os cadáveres com interesse mórbido – pois é isso que a morte evoca nesse lugar –, percebo que a grande diferença entre os vivos e os mortos é que você pode encarar estes últimos de perto, sem esconder sua intensa curiosidade, coisa que os vivos não tolerariam.

Eis que me ponho a pensar se eles não deveriam botar a música Thriller, de Michael Jackson, de fundo musical ali, visto que esses corpos evocam aqueles zumbis de filmes de terror com suas próteses cênicas. Mandíbulas abrem-se em gritos silenciosos, dentes apodrecidos sorriem ameaçadores, órbitas oculares vazias a tudo observam, mãos exibem os nós artríticos dos dedos. É uma turma de braços cruzados pendendo dos arames e pregos que os sustentam, a cabeça largada sobre os ombros, o corpo caindo em câmera lenta sob o esforço de imitar a vida passada.

Revista National Geographic

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pássaros cochilam com metade do cérebro


Durante a temporada de migração, sabiás-de-óculos podem descansar metade do cérebro de cada vez


© Stubblefield Photography/Shutterstock


Não é privilégio dos tubarões: pesquisadores descobriram que alguns pássaros com pouco tempo para dormir também conseguem realizar grandes façanhas. Durante os períodos de migração, eles se recuperam do cansaço dos noturnos com cochilos – descansando metade do cérebro por alguns segundos a cada vez – enquanto estão empoleirados, durante o dia. Estudar essas “micro-sonecas” pode dar pistas sobre como combater problemas humanos relacionados à falta de sono. Examinando gravações de eletroencefalograma (EEG), cientistas confirmaram recentemente que sabiás-de-óculos em cativeiro caem no sono e, quase que imediatamente, dormem por períodos de cinco ou dez segundos durante períodos de seca. Em alguns casos, os pássaros mantêm apenas um olho aberto, em um estado semi-alerta, possivelmente para observar predadores, enquanto o outro olho fica fechado, correspondendo à metade do cérebro que dorme. Outros pássaros e alguns mamíferos aquáticos (que precisam subir periodicamente para respirar) também têm o sono chamado “uni-hemisférico”. “É difícil imaginar humanos cochilando com um olho só; nossos cérebros estão muito mais interconectados do que o das aves, que tem hemisférios que podem trabalhar de forma independente”, diz o neurocientista comportamental Verner Bingman, da Universidade da Universidade Estadual de Bowling Green, em Ohio, nos Estados Unidos, um dos autores do estudo. Ainda assim, os pássaros podem mostrar aos humanos como compensar as horas mal dormidas. “Mas não está claro ainda se aves conseguem repor todo o sono perdido durante a temporada de migração”, pondera a psiquiatra Ruth Benca, que estuda o sono animal na Universidade de Wisconsin-Madison, também nos Estados Unidos.


Revista Mente Cerébro

terça-feira, 20 de outubro de 2009



Jung compara os pressentimentos a uma bússola interior – uma função psíquica que utiliza os cinco sentidos para produzir novas conclusões que não dependem da realidade concreta
por Silvia Graubart


© RICHARD VILLALON/ FOTOLIA

HABILIDADE INTUITIVA é característica tanto de pessoas que trabalham com terapias alternativas e predições, quanto de empresários sagazes e empreendedores criativos

[continuação]


Segundo a psicóloga Marie-Louize von Franz (1915-1998), no livro A tipologia de Jung (1967), para a intuição “funcionar”, as coisas precisam ser olhadas de longe, ou de modo vago. Só assim é possível captar esse pressentimento vindo do inconsciente, porque quando o foco está voltado para os fatos da realidade exterior essa qualidade quase mágica não tem espaço para se manifestar.


É por isso que os intuitivos quase sempre são imprecisos e vagos... Pessoas “visionárias”, no bom sentido, cujas habilidades ganham um papel indispensável no mundo competitivo. Tanto que, atualmente, as empresas valorizam um novo perfil de profissional: indivíduos com aptidão para identificar tendências sem precedentes e com boa noção intuitiva para extrair tendências coerentes de dados conflitantes; que tenham capacidade para pensar além dos limites convencionais; dotadas de habilidade para influenciar atitudes e opiniões, além de disponibilidade para abraçar as incertezas.


É o que Katharine Cook Briggs e sua filha Isabel Briggs Myers – criadoras do Myers Briggs Type Indicator (indicador de tipos Myers Briggs)–, com base na tipologia junguiana, propõem como solução para o sucesso empresarial: a busca de profissionais capazes de descobrir novas formas de fazer as coisas, equilibrando um planejamento calculado com ações intuitivas.


Ao emprestar do matemático Arquimedes de Siracusa (287-212 a.C.), a expressão “Eureca!”, o jornalista Nelson Blecher definiu com precisão o que a intuição significa para o mundo dos negócios. Em um artigo publicado em outubro de 1997, na revista Exame, ele apresenta inúmeros motivos para sua crescente valorização, entre eles a imprevisibilidade dos consumidores, a aceleração das mudanças econômicas e tecnológicas, que tornaram as coisas extremamente complexas, a exigência de soluções adequadas aos novos esquemas de produção e fontes de suprimentos. E se para essa habilidade inata do ser humano só existe um freio – aquele que nós mesmos colocamos –, a atitude fielmente junguiana para deixá-la seguir seu curso ou facilitar sua emersão da profundidade do inconsciente é um mergulho no autoconhecimento: um processo capaz de tirar da escuridão essa habilidade, ainda hoje, frequentemente menosprezada.


Revista Mente Cérebro

sob sgino da intuiçao

Jung compara os pressentimentos a uma bússola interior – uma função psíquica que utiliza os cinco sentidos para produzir novas conclusões que não dependem da realidade concreta


por Silvia Graubart


[continuação]



No lugar de dividi-las em categorias, Jung tentou diferenciar os indivíduos por meio de suas singularidades, propondo duas atitudes e quatro movimentos psíquicos como os modos pelos quais a alma registra e reage às experiências da vida. Jung percebeu que o destino de uns é fortemente determinado pelos objetos de seu interesse, enquanto o de outros é regido pelo seu mundo interior, pela subjetividade. Isso faz com que as pessoas se inclinem naturalmente a lidar com a realidade sob a influência desses fatores. Ou seja, de um modo bem genérico, há quem tenha mais interesse pelo mundo dos objetos, dando a eles um valor preponderante que os atrai como um ímã (os extrovertidos) e aqueles cujo movimento psíquico não vai para o objeto, mas se volta para o sujeito e para seus próprios processos psicológicos (os introvertidos).



Ao lado das duas atitudes predominantes (a extrovertida e a introvertida), Jung também constatou a preponderância e quatro movimentos psíquicos básicos: pensamento, sentimento, sensação e intuição, funções da consciência que se inter-relacionam com certo grau de mobilidade e fluidez, permitindo à pessoa experimentar todas as funções sem fixar-se naquela com a qual tenha mais familiaridade. Essa relativização das funções significa que não há um tipo puro, pois todas as atividades psíquicas são importantes para a vida saudável do indivíduo. Para tirar o máximo proveito da função intuitiva, ela precisa estar conectada com as outras funções, porque o pensamento é indispensável para organizá-la e só por meio da sensação somos capazes de realizá-la.



Jung comparou a intuição a uma bússola interior – uma função psíquica na qual a percepção dos fatos se dá por meio do inconsciente, utilizando os cinco sentidos (visão, paladar, audição, olfato e tato) para chegar a uma nova conclusão, que não depende da realidade concreta. Para ele, a intuição é uma espécie de apreensão instintiva e seu conhecimento é dotado de certeza e convicção intrínsecas. A atividade imaginativa da intuição descortina novos horizontes e perspectivas indispensáveis ao nosso tempo, sendo o desenvolvimento dessa função uma das mais importantes tarefas da psicoterapia contemporânea.



OLHAR DE LONGE



Do verbo intuire, que significa olhar para dentro, a intuição não é uma sensação dos sentidos(apesar de se utilizar deles), nem um sentimento ou uma conclusão intelectual, ainda que também possa aparecer sob essas formas. Nele, qualquer conteúdo se apresenta como um todo acabado, sem que saibamos explicar ou descobrir como esse conteúdo chegou a existir. Jung menciona que o filósofo Bento de Spinoza (1632-1677) considerou a scientia intuitiva como a forma mais elevada de conhecimento, sendo sua exatidão atribuída a algum conteúdo que repousa no inconsciente.



As pessoas que orientam sua atitude geral pelo princípio da intuição e, portanto, pela percepção por meio do inconsciente, pertencem ao tipo intuitivo. E assim como as demais funções, a intuição pode ser extrovertida ou introvertida, conforme seja a sua utilização: para o conhecimento ou contemplação interior, ou para fora, para as realizações e o desempenho.



Revista Mente Cérebro

sob signo da intuição



Jung compara os pressentimentos a uma bússola interior – uma função psíquica que utiliza os cinco sentidos para produzir novas conclusões que não dependem da realidade concreta

por Silvia Graubart



© PASCAL RONDEAU/ ALLSPORT/ GETTY IMAGES


AIRTON SENNA: inexplicável inquietação na noite anterior ao acidente que provocou sua morte, em 1994


[continuação]


A intuição capta fragmentos das experiências de forma simbólica, imaginativa, de maneira que esses pequenos estilhaços possam ser organizados para compor uma espécie de vitral ou caleidoscópio, cuja combinação faz surgir um todo inovador. Mas para que essa nova informação aconteça deve-se abrir mão do raciocínio e da lógica, pois apesar de ela não se opor à razão, situa-se fora dos seus domínios. Enquanto uma procura organizar os fragmentos de forma coerente, a outra busca uma combinação harmoniosa, obtida pela via da imaginação, do relaxamento e da quietude.

O psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961) criador da psicologia analítica, chamou a prontidão para compor esse vitral, tirando o máximo proveito do jogo que se forma entre luzes e sombras, de intuição, no qual flashes criativos desvendam possibilidades. A intuição é nossa habilidade de perceber o que pode vir a acontecer; pressentir o que ainda não está visível e reconhecer potencialidades ainda não realizadas. Essa característica é muito comum em empresários audaciosos, que têm a ousadia de projetar e comercializar projetos inovadores; em jornalistas e editores que “farejam” no mercado qual título será bem aceito no ano que vem; nos corretores da bolsa de valores, cuja destreza em prever a alta de determinado papel no mercado fi nanceiro pode tornar seus clientes milionários; nos marchands, cuja capacidade de avaliar o potencial criativo de um pintor ou escultor surge antes mesmo que eles se deem conta da real qualidade de suas obras; em videntes, cartomantes, tarólogos e outros profissionais que trabalham com terapias alternativas, cuja extrema sensibilidade à atmosfera do lugar e às características das pessoas que os procuram, são capazes de revelar inúmeras coisas a seu respeito.

Fruto de seu próprio processo individual e de um período que Jung chamou de “doença curativa”, descrito em sua autobiografia Memórias, sonhos, reflexões (1961) o capitulo “Confronto com o inconsciente”, no volume VI de suas obras completas no qual expõe a teoria dos tipos psicológicos, ajuda-nos a compreender o que, na época, o autor sistematizou sobre o psiquismo. Aliás, nunca mais se viu uma obra sua com tal característica, tão cientificista. Publicado em 1921, o texto é o resultado de quase 20 anos de trabalho na prática clínica e a primeira produção intelectual depois do seu rompimento com Freud. Nele, o psiquiatra suíço constata que além das muitas diferenças individuais na psicologia das pessoas, existem também diferentes maneiras de nos relacionarmos com os fatos cotidianos.

Revista Mente Cérebro

sob o signo da intuição


Jung compara os pressentimentos a uma bússola interior – uma função psíquica que utiliza os cinco sentidos para produzir novas conclusões que não dependem da realidade concreta


por Silvia Graubart



NANETE HOOSLANG/PHOTODISC/GETTY IMAGES



Às vezes nos perguntamos se vale a pena dar ouvidos à voz interior que, como um alarme, pode sugerir algo inusitado ou mudanças de rumo em nossas vidas. Ou podemos acreditar que o apelo – vindo sabe-se lá de onde – não passa de cisma. O fato é que o modo como reagimos a esses “avisos” pode fazer toda a diferença em nosso cotidiano. E não são poucos os relatos a respeito.Você provavelmente deve se lembrar dos comentários, logo após o terrível acidente que matou Airton Senna (1960-1994), em 1o de maio de 1994, em Ímola, na Itália. Quem compartilhava sua intimidade chegou a dizer que na noite anterior à fatídica corrida o piloto estava inquieto, arredio, como que prevendo algo que não soubesse explicar. O mesmo insight aconteceu com um dos integrantes da banda Mamonas Assassinas, o vocalista Dinho, que num vídeo amador deixou gravado seu mau presságio em relação àquela viagem, 2 de março de 1996, sem entretanto, dar a devida importância à sua percepção. As consequências dessas atitudes todos nós conhecemos.

Também já passei por várias experiências semelhantes, e a mais marcante aconteceu anos atrás, numa viagem. Eu e uma amiga havíamos planejado férias de um mês, mas duas semanas depois de nossa partida tive uma noite péssima: sonhos terríveis me acordavam praticamente de hora em hora, como que impondo a decisão de antecipar minha volta para dali a dois dias. Foi o tempo necessário para despedir-me de minha irmã, que morreu exatamente na manhã seguinte ao meu desembarque em São Paulo.

Tanto o senso comum quanto pesquisadores poderiam atribuir à minha percepção o rótulo de premonição, bruxaria. Mas é certo que algum atributo do nosso aparelho psíquico tem essa fantástica habilidade de enviar mensagens, que cada pessoa interpreta à sua maneira. É assim que a intuição age: segundos preciosos carregados de significado, e isso tanto para a vida afetiva quanto nas atividades profissionais. Todos nós temos a capacidade de registrar e compreender ou excluir essa linguagem de nossa vida. Chamada popularmente de sexto sentido, ela não é um predicado restrito às mulheres, embora muitos afirmem que nós somos mais intuitivas que os homens. Entretanto, há quem tenha maior ou menor facilidade para lidar com essa habilidade e desenvolvê-la que aparece nas mais variadas manifestações do nosso psiquismo: nos sonhos, nas sensações corporais, nos insights e nos atos criativos. Dizem que os gênios da música Ludwig van Beethoven (1770-1827) e Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) atribuíram à intuição suas maiores realizações.

revista mente cérebro

Prever o imprevisível



Estudo identifica uma "universalidade" que permeia tanto as cartas escritas como a mais nova forma de comunicação do e-mailAgência FAPESP

As ações humanas são realmente aleatórias e imprevisíveis? Não necessariamente, de acordo com um estudo feito sobre a comunicação por e-mail e cartas escritas. A pesquisa indicou que esses padrões de correspondência humana podem ser modelados na forma de sistemas matemáticos complexos.

Fatores como o ritmo circadiano, a repetição de tarefas e a mudança das necessidades ocorrida ao longo da vida fornecem informações suficientes para que se possa estimar padrões de envios de cartas ou e-mails.

O trabalho, publicado na edição desta sexta-feira (25/9) da revista Science implica que outros aspectos das ações humanas podem ser modelados dessa mesma forma. Um dos autores do estudo é a brasileira Andriana Campanharo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que atualmente faz o doutorado na Universidade Northwestern, nos Estados Unidos.
Andriana e colegas analisaram os padrões de correspondência de 16 escritores, políticos, celebridades históricas e cientistas, entre os quais Albert Einsten. O grupo identificou uma "universalidade", ou seja, um padrão que permeia tanto as cartas escritas como a mais nova forma de comunicação do e-mail.

Segundo eles, um mesmo modelo pode descrever com exatidão os dois padrões de correspondência entre indivíduos, por papel ou eletrônico. Por exemplo, da mesma forma que um autor de um blog pode esperar um aumento em sua correspondência eletrônica depois que seu e-mail for divulgado na internet, Einstein passou a receber muito mais cartas depois que publicou a Teoria da Relatividade, em 1919.

Ou seja, os padrões de comunicação, além da ocorrência aleatória, são também governados pela própria natureza humana, apontam os cientistas. Os modos com que os estilos de vida individuais afetam esses padrões podem ser modelados como um sistema complexo.

"A identificação e a modelagem dos padrões de atividade humana têm ramificações importantes para aplicações que vão da previsão da extensão de doenças à otimização da alocação de recursos. Por causa da sua relevância e disponibilidade, a correspondência escrita fornece um modelo poderoso para estudar a atividade humana", descrevem os autores.

"Tanto na correspondência por cartas como na por e-mail, os padrões de correspondência são bem descritos pelo ciclo circadiano, pela repetição de tarefas e pelas mudanças nas necessidades de comunicação", afirmaram.


Revista Sociologia

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Periferia do mundo


País não consegue explorar sua grande potencialidade turística

OSWALDO RIBAS


Piscina do Praia do Forte Eco Resort (BA)
Foto: Célia Thomé



A natureza exuberante, o imenso potencial de atrações e a diversidade cultural ainda não conseguiram transformar o Brasil em uma marca de peso no multibilionário e concorrido mapa-múndi da indústria turística internacional. Embora o país esteja hoje entre as 12 maiores economias do mundo, o turismo brasileiro mantém-se numa posição periférica, num distante 34º lugar no ranking global, exibindo números tímidos quando comparados aos dos gigantescos mercados europeus e norte-americano.

Para se ter uma idéia, enquanto a França recebeu 76,5 milhões de visitantes estrangeiros no ano passado, ao Brasil, segundo dados oficiais da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), vieram menos de 4 milhões. Detalhe importante: desse total, cerca de 70% eram procedentes da Argentina e, com a crise econômica no país vizinho, é fácil deduzir que as perspectivas para o Brasil não são das mais auspiciosas.

A pequena participação brasileira no mercado turístico global – que deverá girar a astronômica cifra de US$ 1,28 trilhão neste ano, de acordo com dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), a entidade responsável pelo fluxo internacional de informações do setor – também pode ser medida na comparação com outra potência mundial: nos Estados Unidos, a receita direta com viagens e hospedagens de visitantes estrangeiros gera um movimento anual de US$ 72,3 bilhões. No Brasil, em 2003, a expectativa é, no melhor dos cenários, de alcançar US$ 3,5 bilhões, um resultado superior ao de 2002, mas ainda bem abaixo do pico de US$ 4,2 bilhões, obtido em 2000.

Contra o turismo no Brasil, na avaliação dos especialistas, vem ocorrendo uma combinação triplamente perversa de fatores. No plano interno, a estagnação econômica, associada à troca de comando político em Brasília, aumentou o clima de incertezas e reduziu a demanda no setor. No externo, a crise na Argentina e a retração mundial observada após os ataques terroristas nos Estados Unidos em setembro de 2001 acabaram eliminando rotas e levando empresas, como agências de viagens e companhias aéreas, à falência. E, para complicar ainda mais, epidemias, como a da pneumonia Sars, e a guerra no Iraque deram sua contribuição nada desprezível para retardar a recuperação da atividade turística, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Quando se analisam os números que medem a baixa atração que o mercado nacional vem exercendo sobre o viajante estrangeiro, descobre-se também que, internamente, os destinos brasileiros perdem para a concorrência internacional. Ou seja, apesar da desvalorização do real no ano passado, que conseguiu alavancar o setor exportador brasileiro, o mesmo benefício não pôde ser observado na balança turística, que se mantém deficitária. O país continua a se caracterizar como um emissor de turistas, isto é, envia mais viajantes ao exterior do que recebe de fora, especialmente no caso de mercados como Estados Unidos e Europa.

A preferência do brasileiro de viajar para o exterior a prestigiar destinos nacionais se evidencia nos números divulgados pelo Banco Central (BC), que mostram um déficit no setor turístico de US$ 113 milhões, no primeiro trimestre de 2003. Apesar de o resultado indicar uma sensível desaceleração do desequilíbrio financeiro em relação ao mesmo período de 2002, quando a conta negativa ficou em US$ 452 milhões, a nova tendência, segundo os técnicos do BC, é conseqüência mais de os brasileiros estarem cortando suas viagens ao exterior, devido à alta do dólar, do que de mais turistas estrangeiros estarem ingressando no país por conta dos baixos custos internos para quem tem moeda forte no bolso.

"Há uma acirrada concorrência na indústria turística global pelos destinos internacionais, em que ainda se alinha a força das promoções e do câmbio", explica José Eduardo Barbosa, diretor da Flot Operadora Turística e vice-presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa – Brazilian Tour Operators Association), entidade que reúne as 57 maiores e mais importantes operadoras do país. "Dependendo da época do ano, um resort caribenho pode oferecer preços bem mais convidativos que outro no nordeste, por exemplo, e acabar atraindo o veranista brasileiro", acrescenta. "No turismo, como em qualquer outro setor da economia, o consumidor opta por produtos que ganhem em qualidade e preço."

Mas não é só a concorrência internacional que inibe os roteiros nacionais. Apesar dos avanços, verificados principalmente nos curtos períodos de estabilidade econômica, o turismo de lazer se mantém em descompasso com suas possibilidades de crescimento no Brasil. O alto preço das passagens aéreas e o declínio de renda da classe média, entre outros fatores, são os principais inibidores do fluxo interno de viajantes.

"A perda de poder aquisitivo do brasileiro certamente é um complicador para a indústria, e esse é um problema estrutural da economia que escapa à capacidade de interferência dos agentes de fomento turístico", admite Eduardo Vampré do Nascimento, presidente do Sindicato das Empresas de Turismo do Estado de São Paulo (Sindetur-SP).

A crise econômica brasileira, na opinião dos analistas, está na raiz do maior de todos os obstáculos à atividade turística, já que ela também faz proliferar a pobreza geradora da violência nos grandes centros urbanos. Certamente, cada turista assaltado nos calçadões de Ipanema ou vítima de arrastões nas praias e no trânsito congestionado contribui para dilapidar a imagem brasileira e fazer com que mais e mais pessoas decidam alterar seus roteiros de viagem, procurando evitar regiões de risco. "É bem verdade", como lembra Vampré, "que a violência está disseminada pelos grandes centros urbanos do mundo, devido aos potenciais atentados terroristas em cidades norte-americanas, européias ou asiáticas e aos conflitos religiosos, étnicos e raciais, que acabam nivelando o risco." Mas ele reconhece que o ritmo de violência que tomou conta das metrópoles brasileiras, com destaque para o Rio de Janeiro, o principal destino turístico do país, é uma barreira para um setor por definição avesso às turbulências sociais.

Não é de estranhar, portanto, que o levantamento brasileiro do Estudo de Demanda Turística Internacional 2002, da Embratur, tenha chegado a resultados preocupantes. Descobriu-se, por exemplo, que a principal queixa dos que visitam o Brasil refere-se à falta de segurança pública. Quase 11% dos turistas elegeram a violência como a maior preocupação. Um ano antes, esse item estava em quarto lugar na mesma pesquisa. As demais reclamações se dividiram entre saneamento básico (ou falta de limpeza pública), sinalização turística precária, trânsito caótico nas grandes cidades, mau estado de conservação dos táxis e falta de educação dos motoristas.

Na opinião dos viajantes, essas carências demonstram o descaso das autoridades e da população em geral com os visitantes estrangeiros. Mas quem é esse turista que pede um Brasil mais limpo e calmo? Dados fornecidos pela Embratur indicam que são cinco os países que mais contribuem com visitas internacionais: Argentina, Estados Unidos, Alemanha, Paraguai e Uruguai. Este último, em 2002, perdeu a quarta posição para o Paraguai. A crise argentina, por tabela, acabou levando a uma diminuição de 26,7% das chegadas uruguaias. A boa notícia vem dos Estados Unidos, com um aumento de 6% em relação a 2001. Os números mostram também que mais da metade (51,21%) dos 3.783.409 estrangeiros no Brasil em 2002 veio a lazer. Outros 23,48% estiveram aqui a negócios.

Quase 90% de todo o turismo internacional dirigiu-se principalmente a cinco grandes centros. O Rio de Janeiro lidera, com 38,58% da preferência, seguido por São Paulo (20,84%), Salvador (12,76%), Foz do Iguaçu (9,28%) e Recife (8,24%). Dado dos mais relevantes da pesquisa sobre o perfil do visitante estrangeiro é o de que 97% deles, ao deixarem o Brasil, admitiam ter o desejo de voltar – aliás, 64% já haviam visitado o país mais de uma vez.

Ministério exclusivo

O governo brasileiro parece ter tomado consciência do papel que a indústria turística tem a cumprir na busca pela retomada do desenvolvimento econômico do país, tanto pela possibilidade de gerar divisas e, assim, contribuir para o equilíbrio das contas externas, como pela criação de emprego e renda no âmbito doméstico. Agora encarado como uma ferramenta para alavancar investimentos e arrecadar dólares, o turismo foi isolado num ministério exclusivo (sem as parcerias dos esportes e da cultura), com orçamento próprio. De acordo com o ministro Walfrido Mares Guia, a estratégia inicial é aperfeiçoar as estatísticas sobre o setor, para obter avaliações mais exatas dos mercados existentes, dos custos atuais dos empreendimentos, das parcerias possíveis e das potencialidades de futuras iniciativas nas diversas regiões do Brasil.

Para recuperar terreno perdido, o governo está traçando planos ambiciosos e quer dobrar a receita turística anual, para US$ 9 bilhões, com a geração de 1,2 milhão de novos empregos até 2007. Também fixou a meta de aumentar para 9 milhões o número de estrangeiros que visitam o país. Para dar consistência ao projeto, o ministério concentrou sua estratégia no Plano Nacional do Turismo (PNT), lançado em 29 de abril. Trata-se de um amplo projeto de políticas oficiais para incentivar o setor e dar sustentabilidade a ele.

"Todos os estudos econômicos apontam o segmento de serviços como o que mais cresce na economia globalizada e, nele, o turismo ocupa um papel de grande relevância. Vale lembrar que o setor, caracterizado por ser uma atividade limpa, ‘sem fumaça’, é o mais importante na formação do PIB de vários países, como Portugal e Espanha, para citar dois expoentes latinos, que recebem a cada ano um número de visitantes estrangeiros muito superior ao de sua população", diz Mares Guia.

Nos últimos anos, o ramo de hotelaria tem realizado grandes investimentos em território nacional. Enormes complexos turísticos já foram erguidos e inúmeros projetos, dos mais variados portes e categorias, encontram-se em execução. Esses empreendimentos, como os resorts Beach Park, em Fortaleza (CE), Costa do Sauípe e Praia do Forte Eco (BA), e Nannai Beach, em Porto de Galinhas (PE), resultam tanto da iniciativa de redes hoteleiras internacionais quanto de investidores brasileiros oriundos também de outros segmentos econômicos.

"A expansão da rede de hospedagem, principalmente no nordeste, deve-se à ação indutora do poder público, que tem alocado recursos para construção ou modernização da infra-estrutura necessária ao suporte dos novos empreendimentos", destaca José Eduardo Barbosa, da Braztoa.

Os resorts, ou grandes hotéis de lazer, vivem um momento de explosão no país. Localizados em geral em meio a belas paisagens ao longo do litoral ou em ilhas paradisíacas, esses super-hotéis são o segmento que mais tem atraído investimento no turismo brasileiro. Segundo a Embratur, existem 43 projetos de novos resorts em construção no país, com investimentos estimados em R$ 3,5 bilhões.

A infra-estrutura hoteleira no Brasil reúne os mais variados tipos de hospedagem, com opções para todos os gostos e bolsos. No total, são mais de 10 mil estabelecimentos, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), espalhados pelas cinco regiões do país. Entre eles há os super-hotéis, localizados tanto na costa quanto no interior de regiões como a Amazônia; os de médio porte; os cinco-estrelas das redes nacionais, como Othon, Transamérica, Rede Tropical e Eldorado, e os internacionais, como Sheraton, Intercontinental, Meridien, Club Mediterranée, Caesar Park, Hilton, Copacabana Palace (Orient Express) e Meliá.

Com base nessa ampla rede de hospedagem, o governo vem procurando redesenhar a política nacional de desenvolvimento do setor, que inclui a promoção e a divulgação interna e externa dos roteiros nacionais. Mares Guia vem reiteradamente anunciando que a parceria com a iniciativa privada é um dos eixos fundamentais do PNT. Afinal, lembra o ministro, "o presidente Lula assegurou que o turismo pode ser a maior alavanca para a geração de empregos".

Cético, contudo, Luiz Vecchia, presidente do Sindicato dos Empregados nas Empresas de Turismo (Seetur), diz "só acreditar vendo". Ele menciona o fato de, a cada mês, aumentar o desemprego no setor e de os rendimentos dos empregados do segmento turístico terem sido achatados em 18%. "Para funcionar, o ministério deveria ter uma direção técnica. Além disso, sabemos que o orçamento é muito restrito", critica.

De toda forma, as principais metas do PNT estão centradas em financiamentos de projetos de grande, médio e pequeno porte para ampliar a malha turística brasileira e contribuir para a melhoria da qualidade dos serviços prestados. "A promoção de investimentos no setor é eixo fundamental para a estratégia da geração de empregos no Brasil, mas, para que ela venha a se concretizar, o ministério reconhece ser necessário enorme esforço de desenvolvimento de infra-estrutura, o que compreende uma melhor logística de transporte, obras de acesso e urbanização de pontos de interesse turístico, hotelaria e expansão da oferta de empreendimentos voltados ao lazer", informa Maria Luiza Leal, secretária de Desenvolvimento de Programas do Ministério do Turismo.

Em síntese, os objetivos do PNT concentram-se em cinco áreas principais: ampliar e melhorar a infra-estrutura turística em todo o país; aquecer o mercado interno com financiamento ao consumidor final; gerar divisas promovendo captação de investimentos para o Brasil, inclusive para regiões remotas, ainda não desenvolvidas; incentivar a pequena e média empresa, facilitando o acesso ao crédito; e criar postos de trabalho por meio do aquecimento da atividade e da construção de novos equipamentos turísticos.

"A expansão nas áreas de hotelaria, agências de turismo e atividades voltadas para o mercado de lazer depende da disponibilidade de linhas de financiamento compatíveis, em termos de custo financeiro, condições de pagamento e adaptação à realidade do setor no país", afirma Maria Luiza. Ela explica que a principal meta do PNT é a oferta de créditos: R$ 600 milhões para pequenos e médios empreendedores, por meio de linhas da Caixa Econômica Federal (CEF) e do Banco do Brasil, R$ 700 milhões por meio dos Fundos Constitucionais de Financiamento, que abrangem, entre os tomadores potenciais, de microempresas a grandes empreendimentos, e uma verba de R$ 490 milhões que está sendo disponibilizada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para empresários de maior porte.

Além dessas linhas, cujas taxas de juros chegarão a ser menos da metade das oferecidas no mercado, os técnicos do governo irão em busca de outras fontes de financiamento no exterior. Entre as metas também consta desenvolver e implementar um modelo de acompanhamento dos investimentos feitos no setor, assim como a observação da saúde financeira do segmento turístico.

Leonel Rossi Jr., principal executivo da agência de viagens Decatur e diretor de Assuntos Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), elogia o esforço do governo em procurar apoiar o setor, mas discorda da decisão do ministério de subsidiar pacotes turísticos para o consumidor. "Na verdade, o turismo brasileiro precisa do governo nas grandes obras de infra-estrutura e na promoção do país no exterior. O resto é bobagem", critica ele, acrescentando que as empresas do segmento necessitam é de "menos burocracia e corte de impostos" para poder respirar.

Para Rossi, a iniciativa privada está fazendo a sua parte, mas cabe ao governo executar a promoção institucional do país, o mais rapidamente possível. "Temos uma excelente estrutura turística montada, agora só falta os estrangeiros saberem disso", diz ele, pedindo aos órgãos públicos que intensifiquem uma estratégia de inserções na mídia global, em tevês, jornais e revistas, para "neutralizar a torrente de informações ruins sobre o Brasil que se propagam por meio do noticiário. Todos os países fazem isso, e precisamos aprender a fazer também."

Maria Luiza concorda que ainda há muito a ser feito, mas, bastante satisfeita com os resultados dos primeiros seis meses da atual gestão, ressalta que é preciso ver os pontos positivos que têm contribuído para que os projetos saiam das gavetas e deslanchem no mundo real, como a captação de recursos e a articulação entre as diferentes pastas ministeriais. "Em grande parte, esses investimentos têm sido viabilizados com o apoio de agências multilaterais, em especial o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur/NE)", acrescenta, revelando que, graças a essa interatividade, com a contrapartida da União e dos governos estaduais, rodovias estão sendo construídas ou recuperadas e aeroportos, como o de Fortaleza, foram ampliados.

Mão-de-obra

A carência de pessoas capacitadas a atender as necessidades da indústria turística é outro grande problema ainda à espera de solução, principalmente no nordeste. "A melhoria da qualidade dos serviços prestados é essencial para aumentar o fluxo de visitantes e, assim, criar mais oportunidades de trabalho, desencadeando o círculo virtuoso que permitirá melhorar as condições de vida da população brasileira", reconhece Maria Luiza, que está desenhando, em cooperação com o Ministério da Educação, um amplo programa de profissionalização do setor.

Uma das metas do PNT é estabelecer meios de acesso a cursos de qualificação, de forma a permitir um processo de contínuo aprimoramento da mão-de-obra. "Nesse aspecto, a contribuição do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) tem sido muito valiosa", ressalta Maria Luiza, referindo-se às atividades em turismo e hotelaria da instituição, que a tornaram um dos maiores centros de formação profissional do setor em todo o país, tanto em cursos superiores quanto técnicos.

Patrícia Garcia, coordenadora dos cursos superiores de turismo do Senac-SP, reconhece que, embora possam existir dificuldades no mercado de trabalho, a demanda por profissionais qualificados é constante. "Da recepcionista ao gerente, sempre haverá vagas para aqueles que tenham participado de programas de capacitação", afirma. Ela estima que, só no estado de São Paulo, em escolas do Senac existam cerca de mil alunos em cursos profissionalizantes nas áreas de turismo e hotelaria e outros 400 na graduação.

O PNT defende a certificação de ocupações e competências do setor turístico e o estabelecimento de mecanismos de interação entre a oferta e a demanda da qualificação profissional. A meta, até 2007, é certificar 300 mil profissionais do setor.

Para alcançar objetivos tão ambiciosos, a indústria turística nacional está ingressando numa nova fase de parceria entre agentes públicos e privados em que, teoricamente, todos podem sair ganhando. "O setor privado sempre se queixou da falta de apoio governamental, e é exatamente esse o ponto ao qual estamos nos dedicando mais intensamente, por meio do PNT", declara Milton Zuanazzi, secretário de Políticas de Turismo do ministério. As empresas do setor precisam alongar o financiamento dos pacotes e, para que isso se torne possível, o governo está oferecendo linhas de financiamento com taxas de juros 50% abaixo das cobradas no mercado, exatamente para que o consumidor final seja beneficiado.

Ferramenta das mais importantes na dinamização do turismo brasileiro, tanto interno quanto externo, além é claro das linhas de financiamento e articulação das políticas públicas, são as promoções e as campanhas de divulgação da marca Brasil pelo mundo. Desde que o Ministério do Turismo foi isolado numa pasta única, o governo decidiu estabelecer uma espécie de "Tratado de Tordesilhas", no qual tudo o que se referir à promoção do país no exterior fica por conta da Embratur, enquanto todos os aspectos de divulgação de feiras, eventos e atrações no mercado interno são da alçada dos técnicos do ministério.

Capital Buenos Aires

A promoção do turismo nacional no mercado externo terá como conceito estratégico a diversificação da imagem do país. "O trabalho de marketing irá orientar a construção do Brasil como destino turístico moderno, com credibilidade, alegre, jovem e hospitaleiro", declara José Francisco Salles Lopes, diretor de Estudos e Pesquisas da Embratur. Segundo ele, esse programa levará em conta a essência da cultura brasileira, sua diversidade étnica, social e natural e, claro, a difusão da localização geográfica do país para evitar as célebres confusões que persistem entre turistas menos avisados, que "ainda querem conhecer Buenos Aires, a capital do Brasil".

A promoção e o apoio à comercialização dos produtos turísticos nacionais se darão a partir de diversas ações. Entre elas a Embratur destaca a participação em feiras internacionais do setor, com a ampliação da agenda já existente, com foco não somente em lazer, mas também em turismo de negócios, realização e participação em promoções, além de ações de oportunidade em grandes eventos internacionais e brasileiros realizados no exterior.

Entre os filões a que a Embratur dedica grande ênfase está o turismo esportivo. Nesse segmento, a movimentação maior gira em torno da realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, e uma possível Olimpíada de 2012. "Mas também estamos ganhando concorrências para eventos de menor porte, como o campeonato internacional de golfe, de grande impacto entre públicos específicos. Apostamos também na segmentação", acrescenta Lopes.

Particularmente no setor de comunicação e pesquisas, Lopes revela que está sendo criado também um programa de geração e disseminação de informações sobre o turismo no país, com o objetivo de tornar mais transparente o impacto da atividade na economia nacional, assim como orientar os investimentos e a promoção dos resultados obtidos. "Dessa forma, poderemos melhor monitorar as políticas públicas e privadas", afirma.

Ascensão Ásia/Pacífico

Vista num contexto mais amplo, a tarefa da Embratur ganha ainda mais importância. Dados recentes da Organização Mundial do Turismo (OMT), o principal organismo para regulamentação do mercado turístico internacional, com sede em Madri, na Espanha, revelam que em mais 17 anos o problema não será apenas a falta de interesse dos estrangeiros em visitar o Brasil, mas as Américas em conjunto. Estimativas da OMT, no último relatório anual da entidade, indicam que em 2020 o total de chegadas internacionais alcançará a estratosférica cifra de 1,5 bilhão – em 2002, esse volume foi de 714 milhões. Nessa ocasião, a região sudeste asiático/Pacífico terá superado o continente americano como o segundo maior destino turístico global, atrás apenas da Europa.

Os europeus, na avaliação da OMT, se manterão na frente, com 717 milhões de chegadas (mais que o volume mundial observado em 2002), seguidos dos asiáticos (397 milhões). Na seqüência, viriam as Américas (282 milhões), a África (77 milhões) e o Oriente Médio (68 milhões).

Esses números, na avaliação da OMT, indicam uma irresistível ascensão asiática, com destaque óbvio para a China, que nesse período deverá disputar com o Japão o lugar de segundo maior PIB do mundo. Embora a Europa consiga manter a liderança, a OMT adverte que sua fatia tende a ficar gradativamente menor. Em 1995, os destinos europeus representavam 60% do turismo mundial. Em 2020, esse índice terá caído para 45%. Com uma taxa de crescimento de 6,5% ao ano, a região Ásia/Pacífico, num cenário ainda mais distante, caminha para ser o centro hegemônico dessa atividade no mundo. Isso explica, em parte, outro resultado surpreendente das pesquisas da OMT: as viagens de longa distância terão um crescimento mais acentuado que os deslocamentos intra-regionais de média e curta distâncias: representarão 24% de todas as rotas em 2020 (contra 18% em 1995).

Futuramente, também é esperada a ascensão do continente africano, que passará a apresentar o segundo maior crescimento no mundo. E as Américas? O continente americano, na estimativa da OMT, deverá perder precioso ponto percentual na partilha do turismo global. Da fatia de 19,3% em 1995, deverá cair para 18,1% em 2020.

Esses dados são importantes quando cruzados com as informações do WTTC. Daqui a dez anos, as expectativas são de que o impacto econômico das atividades turísticas no mundo oscile em torno de US$ 9 trilhões. Essa cifra, hoje correspondente ao PIB dos Estados Unidos, contém não só a atividade turística direta, mas todas as transações que, de alguma forma, estejam ligadas a ela. Certamente uma riqueza nada desprezível, principalmente para um país em desenvolvimento como o Brasil.

Para todos

Quando se leva em conta que 70% da população brasileira, por suas limitações socioeconômicas, está excluída da indústria turística convencional, fica evidente a importância estratégica que assume, a cada dia, o segmento chamado de turismo social, uma atividade que, por princípio, procura estender a todas as pessoas, sem exceção, o direito e as condições de se deslocar de sua casa, hospedar-se em novas localidades, vivenciar experiências culturais, comerciais ou simplesmente de lazer a que não estão habituadas e retornar, com segurança e a baixo custo, a seu lar. "Na sua essência, a expectativa é universalizar esse grande meio de crescimento pessoal que é o turismo, corriqueiramente usufruído apenas pelos grupos mais favorecidos da sociedade", relata Carlos Cappelini, consultor de agências de viagens, estudioso do assunto e idealizador do portal Girus (www.girus.com.br), dedicado a debater os desafios do setor pela Internet.

Segundo os especialistas, no Brasil, onde cerca de metade da população vive com aproximadamente três salários mínimos mensais, esse segmento possui enorme potencial de desenvolvimento. Apesar de ainda pouco explorado comercialmente, analistas como Cappelini acreditam que, diferentemente da modalidade convencional, em que é alta a margem de lucro nos serviços de transporte e hospedagem, o turismo social pode ser rentável se administrado numa perspectiva de ganho de escala, ou seja, pelo volume de operações.

"Funciona, mais ou menos, como as grandes lojas de atacado, que geram altos faturamentos por meio do elevado número de vendas e não do lucro sobre o produto unitário. Às vezes os ganhos do comércio popular batem os dos estabelecimentos dirigidos às elites", revela Cappelini, atualmente um incentivador da atividade em Santa Catarina, onde atua profissionalmente. Ele lembra, ainda, que o turismo social, por mais paradoxal que possa parecer, é muito mais desenvolvido nos países ricos: "Itália e Alemanha, por exemplo, berços desse tipo de atividade, dispõem de sistemas bastante evoluídos de financiamento de férias das classes de menor poder aquisitivo, e, portanto, não é à toa que esses mercados estão entre os líderes mundiais do setor." Mais recentemente, a China também anunciou estar empenhada em proporcionar um turismo em larga escala e com baixo custo para sua gigantesca população trabalhadora.

No Brasil, Cappelini cita as atividades desenvolvidas pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) como a mais bem-sucedida experiência do setor. "É um exemplo a ser seguido."

Há exatos 40 anos, o Sesc tem procurado difundir quatro princípios básicos em seus programas de turismo social: a democratização do acesso; o caráter de desenvolvimento social dos participantes em ações destinadas a integrá-los em novos ambientes e nos meios sociais visitados; o princípio da educação pelo turismo, entendida como meio educativo informal e, por isso mesmo, de fácil transmissão e absorção de conhecimentos; e a educação para o turismo, que visa à conscientização das pessoas sobre maneiras de desfrutar das viagens e das visitas de forma harmoniosa e responsável.

"Ou seja, entendemos o turismo como um conjunto de ações que impulsionam a sociabilização, favorecem a compreensão dos bens culturais e educam as pessoas para que consumam criticamente um produto turístico, com uma oferta de serviços acessível ao poder aquisitivo do participante", declara Flávia Roberta Costa, a coordenadora de Turismo Social do Sesc-SP. Ela esclarece que a grande maioria daqueles que utilizam os programas desenvolvidos pelo Sesc nessa área, cerca de 70%, tem renda inferior a cinco salários mínimos. Dependendo da situação, contudo, há casos em que são atendidos grupos totalmente carentes, que demandam, portanto, excursão a custo zero para os integrantes.

Educação ao vivo

Dentro desse universo alternativo, com seu evidente conteúdo social, o turismo educativo, entendido como o deslocamento do aluno para estudar in loco um ambiente natural, também vem demonstrando ser uma importante ferramenta como complemento das atividades em sala de aula e na conscientização das novas gerações sobre a realidade brasileira. "Definitivamente é uma forma supereficiente de dar um banho de realidade no estudante, que, por meio de programas bem estruturados, pode experimentar, empiricamente, o que em sala de aula ele vê apenas teoricamente ou, no máximo, em imagens de vídeo ou pela Internet", afirma Marcelo Krings, diretor da agência de viagens Uggi, especializada em educação ambiental. Como exemplo, ele cita programas para estudar biologia tropical, astronomia, manguezais, história do Brasil barroco, acidentes geográficos ou atividades agrícolas.

Entusiasmado com a idéia de levar os programas de estudo de meio, mais comuns nas escolas destinadas às classes média e alta, também aos estabelecimentos públicos, Krings queixa-se, contudo, das dificuldades de lidar com a burocracia oficial. "Nossa idéia é incluir crianças e adolescentes de famílias de renda mais baixa nesse tipo de atividade, mas, infelizmente, as tentativas de parceria com o Estado têm sido frustradas", comenta.

A possibilidade de trabalhar com a rede pública de ensino também anima Paulo Marcos Ragnole Silva, diretor da agência Quíron. "Seria ótimo em todos os aspectos, especialmente sob o prisma da causa social." Ele ressalta, contudo, que para ser sustentável a experiência teria de contar com o apoio de toda a rede fornecedora dos pacotes, incluindo hospedagem, alimentação e transporte, que teria de se contentar com uma margem menor de lucro. "O incentivo do Estado a essa atividade, a exemplo do que acontece com a Lei Rouanet na cultura, também ajudaria a tornar o projeto viável."

revista problemas brasileiros