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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Durante décadas, psicanalistas associaram as doenças mentais a certos comportamentos religiosos, mais precisamente às possessões mediúnicas. Hoje, após anos de pesquisas, os médicos admitem a contribuição da religião no tratamento de patologias

Por Roberta de Medeiros

Outro estudioso que se dedicou aos temas ocultos foi o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), autor de Sobre a Psicologia e a patologia dos fenômenos chamados ocultos. Como Janet, explicou a comunicação com os espíritos a partir do subconsciente. "A grande maioria das comunicações tem origem puramente psicológica e só aparece personificada porque as pessoas não têm noção nenhuma da psicologia do inconsciente", escreveu. Porém, outros escritos revelam que ele tinha dúvidas quanto à origem dessas manifestações: "Para mim, elas são inexplicáveis e sou incapaz de decidir a favor de qualquer uma das interpretações usuais."




Na experiência mediúnica, haveria uma desagregação de "complexos psíquicos", o que dependeria de certa predisposição. Com a prática da capacidade dissociativa, haveria cada vez mais elaboração das manifestações mediúnicas.



Assim, os espíritos se multiplicam. Outro elemento que também explicaria o transe é o chamado "aumento do rendimento inconsciente", ou seja, "aquele processo automático cujo resultado não está ao alcance da atividade psíquica consciente do respectivo indivíduo". Como a manifestação do inconsciente, o médium pode exibir uma inteligência superior, como ter acesso a informações não disponíveis na vigília.



Experiência sobrenatural é comum

Experiências sobrenaturais são bem mais corriqueiras do que se imagina. Uma investigação feita na Grã-Bretanha, no século XIX, entrevistou 15 pessoas que responderam às seguintes perguntas: "Você já teve, quando completamente desperto, uma vívida impressão de ver e ser tocado por um ser vivo ou objeto inanimado, ou de ouvir uma voz, cuja impressão não foi devida a qualquer causa física externa?". De um total de 1.684 que responderam "sim", muitas delas eram mulheres e jovens adultos. O tipo de alucinação mais frequente foi a visual. Outro estudo mostrou que 10% dos homens e 15% das mulheres apresentam alucinações ao longo da vida.


Há diversas pesquisas do gênero com universitários. Uma delas envolveu 375 estudantes, 39% deles relataram apresentar sonorização do pensamento. Em outra amostra de 586 entrevistados, de 30% a 40% já ouviram vozes, sendo que em quase metade dos casos essa experiência era vivida uma vez por mês. A maioria das pessoas vê essas alucinações como algo positivo. Os resultados das pesquisas em pessoas livres de transtornos mentais levam alguns autores a questionar se as alucinações devem ser sempre consideradas uma patologia.

É verdade que nem todas as pessoas estão dispostas a falar sobre suas alucinações. Não abertamente. É de se supor que algumas delas tenham receio de partilhar suas vivências por temer a rejeição social. Já no contexto religioso essas experiências são valorizadas pelo grupo.

É algo para se pensar. O fato é que não há respostas prontas. O que os pesquisadores fazem é rastrear pistas. Uma que pode ajudar é descobrir o que veio primeiro: a prática religiosa ou a doença mental? A partir daí, é possível arriscar algumas conexões: "A religião está na origem do transtorno psiquiátrico ou pessoas com distúrbios é que buscam a religião como alívio?", questiona o psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG).



De qualquer modo, existe muita discussão em torno dos sinais que podem separar o "normal" do "anormal". Isso vai depender do viés, dos padrões ditados por uma dada cultura. Uma forma flexível de encarar as crenças religiosas de cada paciente é o que os pesquisadores parecem defender: "É vital que a abordagem seja equilibrada e evite os extremos. Por um lado, tomar como doentios os estados místicos e, por outro lado, tomar como espiritualidade os estados psicóticos e glorificar a doença", reflete o psiquiatra Mário Rodrigues Louzã, do Departamento de Psiquiatria da USP.



Psicólogo William James considerava a possessão demoníaca como uma forma natural de personalidade alternativa, personificar uma personalidade sem ter caráter patológico



Jung pondera a possibilidade de que a personalidade comunicante seria a personifi- cação de um arquétipo ou realmente um espírito: "No caso de Betty (personalidade que se comunica), tenho dúvidas em negar sua realidade como espírito; isto significa que estou inclinado a aceitar que ela seja mais provavelmente um espírito do que um arquétipo, ainda que represente supostamente as duas coisas ao mesmo tempo. Parece-me que os espíritos têm uma tendência cada vez maior de se aglutinar aos arquétipos."



Com os estudos de neurologia surgidos na década de 1870, os pesquisadores William Hammond e George Miller Beard destacaramse na tentativa de demonstrar que o fenômeno do transe tinha causas orgânicas. Acrescentando novos elementos ao discurso hegemônico, defenderam a tese de uma vida involuntária, semelhante ao conceito de subconsciente no qual poderia aflorar com uma disfunção cerebral. Outro teórico da época foi o médico criminologista Cesare Lombroso (1835-1909), autor de Hipnose de mediunidade (1909). Ao sondar o tema com a médium italiana Eusápia Paladino, concluiu que os médiuns tinham comportamentos histéricos.

A vertente que tomou como patológica as vivências mediúnicas considerava as pessoas frágeis e instáveis emocionalmente um alvo fácil da doutrina espírita. Os estudos se concentraram nas mulheres, por serem mais suscetíveis à histeria e mais propensas a desenvolver doenças mentais. E, de fato, a maioria dos médiuns era mulher. A conversão à doutrina ocorreria em marcos de fase reprodutiva, como puberdade, após o nascimento do filho e na menopausa. Vale lembrar que o pensamento surgiu numa época em que a mulher passou a se manifestar a favor do sufragismo, do socialismo e das reivindicações trabalhistas - o que oferecia uma ameaça ao status quo.

Myers explicava que a consciência subliminal, aquela que está fora da nossa consciência, poderia sim desencadear poderes como hipnose e clarividência


Myers explicava que a consciência subliminal, aquela que está fora da nossa consciência, poderia sim desencadear poderes como hipnose e clarividência

É verdade que mesmo os praticantes da doutrina levantam a possibilidade de existir um grupo de risco predisposto a apresentar delírios ao serem instigados pela prática religiosa. Isso serviu de argumento para a Psiquiatria que logo tomou o "delírio espírita" como uma variação da loucura religiosa. "A mediunidade constitui o elemento predominante do delírio.
Aqui, o espiritismo foi somente sua causa ocasional, dando-lhe forma à possessão demoníaca", escreveu o psiquiatra francês Joseph Levy-Valensi (1879-1943), autor de Spiritisme et folie. Ele ainda completa: "O delírio espírita é um delírio alucinatório. A alucinação é somente o grau extremo do desdobramento da personalidade. Não constitui uma classe especial de delírios, mas um capítulo da loucura religiosa."
No Brasil, os psiquiatras mais críticos ao espiritismo eram católicos, o que explica por que muitas das teses defendidas assumiram caráter teológico. A discussão do espiritismo e da saúde mental seguiu com base nas defesas elaboradas pelos médicos e psicólogos europeus. O psiquiatra carioca Henrique Belford Roxo (1877-1969) chegou a criar uma classe diagnóstica, o "delírio espírita episódico", caracterizada por alucinações que surgiam nos praticantes do espiritismo.
O delírio seria resultado de um choque emotivo que dá origem a uma alucinação breve, que se diferencia da esquizofrenia, da parafrenia e da psicose maníaco-depressiva. Esses casos representariam, segundo ele, 10% das internações.
O embate entre psiquiatras e espíritas perdeu força após a década de 1950. Nos anos seguintes, surgiu a abordagem transcultural que adotava uma visão mais antropológica acerca do tratamento dos distúrbios mentais. Essa abordagem rompeu com o etnocentrismo, afirmando-se sensível às diferentes realidades nas quais ocorre o adoecimento psíquico e incorporando concepções populares sobre a doença no processo terapêutico. Nesse caso, a religião começou a ser vista mais como um auxílio ao tratamento do que algo a ser combatido.



Revista Psique

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