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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Construção de emoções

Por Anderson Fernandes de Oliveira Fotos Leandro Fonseca



Você acredita que sociólogos clássicos, como Émile Durkheim, apesar de não terem uma ligação direta com os estudos das emoções, a adotavam, indiretamente, em suas obras? Se sim, de qual maneira?
Le Breton - Acredito que haja uma ligação próxima aos pensadores George Simon e Max Weber. Simon escreveu sobre as percepções sensoriais e também sobre as percepções do corpo. São textos bem antigos, do início do século XX. Marcel Mauss também escreveu sobre as emoções sensoriais, em que mostra que são ligadas às simbologias sociais. É o que me recordo dos sociólogos mais clássicos e eu sempre os cito em meus estudos.

A condição humana não vive sem a emoção, seja ela positiva ou negativa. Qual a sua opinião sobre o uso que a mídia faz dos sentimentos negativos, dos programas sensacionalistas que usam de tragédia para conseguir ibope?
Le Breton - Falar de emoções positivas e negativas já é fazer um julgamento de valor. Jogar com essas emoções, com a pena e com o medo faz vender jornal, revista, programa de TV, etc. Veja o exemplo da publicidade, que tira vantagem em função do seu poder de sedução sobre nossos sentidos sensoriais, especialmente a visão. Nós estamos em uma emoção "positiva", mas as coisas podem ser viradas ao contrário.

Por que é que esses programas ou páginas sensacionalistas fazem sucesso? Acha que as pessoas sentem atração pelo negativo?
Le Breton - Freud já mostrou que esse mundo das emoções existe dentro de nós. Cada um tem essa parte de sombra no seu inconsciente. Se formos analisar, hoje, todos os livros e filmes tratam dessas emoções e também as usam negativamente. Basta olhar para a história do cinema e da literatura para confirmar o que estou dizendo. Nós somos também grandes personagens de ficção e nos identificamos com eles [os personagens fantasiosos que vemos em filmes e livros] e ao mesmo tempo não somos eles. O trabalho do imaginário é tornar possível todos os homens e todas as mulheres que nós poderíamos ter sido.

" A noção de traição está no ponto de vista de quem a faz e de quem a recebe, e por qual objetivo e motivo "

Ações culturais que lidam com a emoção como casamento e divórcio sofreram grandes transformações na sociedade contemporânea. Há estudos na cultura ocidental, por exemplo, que relatam que genes desencadeiam atos de traição. Como analisar essa afirmação dentro do estudo das emoções? A traição pode ser considerada uma coisa natural ou está mesmo ligada à genética?
Le Breton - Essa tradução genética não faz nenhum sentido porque é preciso primeiramente definir o que é traição. A noção de traição está no ponto de vista de quem a faz e de quem a recebe, e por qual objetivo e motivo. E essa noção de traição parece um pouco ocidental. A gente não a encontra em uma sociedade tradicional, em sociedades ameríndias, indígenas. É uma noção que vem de um tipo de sociedade individualista. Os indivíduos se situam em relação uns aos outros, no sentido de construir seu próprio sentido e não serem herdeiros de uma tradição, construindo seu próprio sentido. Essa noção de traição implica no individualismo, implica a um julgamento de valor, mas ela não é universal. O que implica aí é a noção de combate, de luta. Da mesma forma como os animais lutam entre si, um guerreiro vai lutar contra o outro. Essa noção de traição que conhecemos entre os jovens hoje é uma maneira de naturalizar esse combate, um tipo de relação social neoliberalista. É importante desconstruir essa noção de traição original do ocidente para que possamos entender que, independentemente dos genes que tenhamos, não haverá essa influência direta, uma vez que estamos organizados culturalmente e não geneticamente.


Hoje há um senso comum muito forte, em que os homens são mais razão e as mulheres emoção. No mundo globalizado, essa ideia ainda persiste? Hoje vemos muitas mulheres em cargos de liderança em que a exigência maior é de tomar decisões pela razão. Isso é mesmo válido ou é apenas mais uma crença cultural?
Le Breton - No primeiro momento isso é um julgamento de valor e também tem a ver com a educação que meninos e meninas recebem desde pequenos. Recuso essa ideia porque existe o fato de que há homens mais emocionais e mulheres mais racionais. Isso não quer dizer nada. Para algumas ações, somos emocionais e para outras, racionais. Mas temos de levar em conta que é verdade que a educação que mulheres e homens recebem é diferente. As meninas são educadas pelo lado do amor, do carinho e da emoção; já os homens são educados pelo lado do desafio, sempre no intuito de serem mais fortes que os outros. Para os profissionais que trabalham com jovens [professores, psicanalistas, etc.] é muito perceptível esta tendência. No caso das mulheres, elas interiorizam mais os seus sofrimentos, e, portanto, são elas que têm maior vulnerabilidade a contrair doenças psicossomáticas, bulimia, anorexia e tentativas de suicídio. Agora, na realidade masculina, os homens que sofrem conseguem exteriorizar mais seus sentimentos. Daí que os vemos partindo para a delinquência, violência, desafios [como os rachas em alta velocidade nas ruas], álcool, drogas e até suicídio.

Falando em suicídio, qual é a sua opinião sobre as pessoas que tiram a própria vida em nome do patriotismo ou em nome de uma religião? Será que esse tipo de paixão, de emoção, pode mesmo desencadear ações dessa proporção?
Le Breton - Depende da história de vida de cada um de nós e da cultura. Existem algumas culturas em que a religião é mais forte, como o Islã, por exemplo. Ele decide todos os momentos da vida cotidiana. Mas não é o caso de outras muitas religiões. Há as que dão uma margem de liberdade bem maior, quando comparadas à doutrina islâmica, a começar pelo fato de se ter a liberdade de discutir o texto religioso e não concordar com as interpretações. Uma pessoa que não esteja bem com sua vida pode escolher uma maneira de se integrar com a religião, como uma forma de buscar uma orientação de valor e também de encontrar outras pessoas para servir como a figura de um mestre. Da mesma forma, um jovem pode escolher o patriotismo buscando o exército como valor e sentido para sua vida. Encontrando pessoas fortes que estejam no controle, que lhe transmitam segurança e que sirvam como meta de vida.

Esta busca de personagens fortes para simbolizar um mestre, que menciona, é uma atitude social antiga. Você acredita que a sociedade contemporânea, em geral, esteja carente de mitos?
Le Breton - As sociedades humanas funcionam ao redor dos imaginários que são poderosos, os imaginários religiosos, políticos. Já vivemos em um mundo em que os imaginários foram todos destruídos, o que o Jean François Lyotard chamou de "o fim do grande discurso". Não era possível pensar sobre o comunismo, socialismo e humanismo ou dispersar esses imaginários entre todos. A nossa sociedade sofreu por não encontrar o mundo propício diante de si. Para exemplificar em um contexto bem contemporâneo, a força do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por exemplo, é reconstruir esses imaginários, contra o neoliberalismo americano, de reintroduzir os valores de amizade, solidariedade, humanismo e igualdade. Estamos em uma época em que o capitalismo está passando por uma fortíssima crise social, econômica e política. Trata-se, então, de uma globalização que destrói a vida e que a torna difícil para milhares de pessoas. Obama representa o surgimento de uma utopia, de uma esperança, de um capitalismo com uma aparência humana.




ANTROPOLOGIA DAS EMOÇÕES




David Le Breton fez no livro As paixões ordinárias um estudo sobre a orquestra de emoções subjetivas do sujeito. Ele explica - e exemplifica - como esse processo emocional, as percepções sensoriais, ou a experiência e a expressão das emoções se dão, obviamente, da intimidade mais profunda do indivíduo e, mais que isso, se formam também graças às relações sociais e culturais em que o sujeito está inserido. Anos de estudo são somados às inúmeras referências, como Darwin, Proust, Sartre, Freud, dentre outros, para formar esta pesquisa antropológica que analisa nuances culturais que diferenciam nossas emoções.

Em um dos exemplos práticos que ele insere no livro, o beijo é um dos mais interessantes. Três modalidades do beijo se demarcam socialmente, abrindo-o a formas e significações muito diversas: sinal de afeição, rito de entrada ou de saída de uma troca e forma de congratulação. O autor explica que o beijo dado em solo, por exemplo, exprime a afeição de um indivíduo pelo país natal.

De joelhos sobre o solo, o indivíduo saúda simbolicamente um período de tempo que lhe é caro. O beijo no rosto entre meninos e meninas aqui no Brasil é corriqueiro, sendo normal trocar facilmente dois ou mais beijos nas bochechas. O número difere, com efeito, de uma região pra outra. Na Alsácia, eles são reduzidos, mas no Oeste e Centro da França podem passar de quatro.

Desta forma, o livro resgata a ideia de que as emoções não são espontâneas, mas ritualmente organizadas e que, portanto, o fundo biológico universal se declina social e culturalmente de um lugar a outro do mundo.

Livro - As paixões ordinárias
Autor - David Le Breton
Editora - Vozes
Páginas - 280
Preço sugerido - R$ 47,00

Revistas Sociologia

Construção de emoções

Sociólogo David Le Breton monta um estudo antropológico indicando que as emoções subjetivas são o resultado das condições sociais e culturais em que o indivíduo está inserido


Por Anderson Fernandes de Oliveira Fotos Leandro Fonseca


Viajante e estudioso de culturas, o sociólogo francês David Le Breton é um apreciador assumido das terras brasileiras. Já esteve no Brasil diversas vezes e ama, em especial, a cidade do Rio de Janeiro, que diz ser possuidora de uma beleza singular. Sobre São Paulo, ele é incisivo em mostrar seu desgosto. A selva de pedra lembra-o muito algumas cidades nos Estados Unidos, como Nova York, por exemplo. Ele prefere a natureza às paisagens urbanas. Por essa razão adora viajar. Segundo ele, ficar na França é muito enfadonho, devido ao clima muito frio e soturno.

Breton é doutor em Antropologia e professor na Universidade de Estrasburgo II. Tornou-se referência no estudo da corporeidade. Dentre suas obras publicadas no Brasil está a Sociologia do corpo (Ed. Vozes), em que o francês argumenta que o fenômeno de existência corporal está "incorporado" no nosso contexto social e cultural, ou seja, a linguagem corporal está inserida no canal pelo qual as relações sociais são elaboradas e vivenciadas. Para o professor, a Antropologia social e a Sociologia possuem inúmeras possibilidades de pesquisas, dentre elas, as investigativas. No âmbito individual e coletivo, elas podem ajudar nos estudos sobre as representações que construímos acerca do corpo e até mesmo na compreensão de certas culturas.

Neste e em muitos de seus trabalhos (ainda sem tradução para o português) Breton se preocupa com as investigações sociais e culturais do corpo como, por exemplo, os simbolismos, as expressões e percepções construídas na dinâmica social.

Suas análises envoltas da Sociologia da corporeidade ganham uma extensão com novos ares na obra As paixões ordinárias - Antropologia das emoções (Ed. Vozes). Em uma visita rápida por São Paulo, David Le Breton cedeu gentilmente uma entrevista à revista Sociologia Ciência & Vida, para falar um pouco sobre seu último livro, suas aventuras ao redor do mundo, Antropologia, cultura e a situação atual da sociedade contemporânea.

Para a construção do livro, você teve como base a Antropologia e a Sociologia. Você estudou algumas outras áreas da ciência e qual a importância dela no estudo antropológico?

Le Breton - A Antropologia é a disciplina dos indisciplinados [risos], daqueles que se recusam a limitar a sua curiosidade. O antropólogo é aquele que sai, que quer conhecer tudo de maneira mais ampla e dando a ele mesmo todos os meios para chegar a isso. Quando trabalho sobre qualquer assunto, seja ele emocional ou não, busco não só Antropologia e Sociologia, mas também a Psicanálise e a Etnologia. Acho que estou em uma herança da Antropologia cultural americana. Sua outra definição é que "nada que me é humano me é estranho". É necessário tudo para se construir o mundo.

" A Antropologia é a disciplina dos indisciplinados, daqueles que se recusam a limitar a sua curiosidade "




Você disse que está mais baseado na Antropologia americana. Existe outra Antropologia? Qual é a diferença?
Le Breton - Não sou estruturalista. A Antropologia que sigo é a social e cultural. Não está na herança de Claude Lévi-Strauss [antropólogo, professor e filósofo francês, considerado o fundador da Antropologia Estruturalista], mas, sobretudo, de George Balandier [etnólogo e sociólogo francês] e de Margareth Mead [antropóloga cultural norte-americana]. Eu me sinto muito mais próximo da Antropologia britânica, americana e anglo-saxônica. Existe também uma tradição na França que perdeu um pouco de importância que é do Marcel Mauss [sociólogo e antropólogo francês, sobrinho de Émile Durkheim, e considerado como o "pai" da etnologia francesa]. Eu me reconheço nesta tradição. Uma Antropologia do mundo contemporâneo que faz que a Sociologia também se imponha no momento da análise [Mauss apontava que as sociedades se formam basicamente pela troca, doação e reciprocidade de culturas].

Por que optou pelo nome As paixões ordinárias, em seu último livro?
Le Breton - O termo paixão é forte. Entendo-o de acordo com Descartes, que escreveu o Tratado das paixões, em que mostra que paixões ordinárias são aquelas com as quais vivemos todos os dias. Que são socialmente construídas e que também levam em conta a nossa individualidade dentro da cultura, da nossa história e nossa educação dentro da família.

" Falar de emoções positivas e negativas já é fazer um julgamento de valor. Jogar com essas emoções faz vender jornal "

Por que você escolheu o caminho das emoções? Qual o interesse?
Le Breton - Desde o meu primeiro livro A antropologia do corpo (Ed. Vozes) resolvi trabalhar com o corpo e as emoções. A ideia é construir uma Antropologia do corpo bem ampla. Trabalhei sobre a história do corpo, anatomia, não só do ponto de vista médico, mas antropológico. Comecei pelo ponto de vista da atitude em relação ao cadáver, por exemplo, as dissecções, de como elas se tornaram possíveis na história, as lutas culturais ao redor do cadáver, dentre outros rituais. Para mim, a história da medicina é também a história com a relação do corpo. Os anatomistas constroem o corpo com o qual a gente chega do hospital e que é curado, ou seja, chegamos com fraturas e eles têm o trabalho de reconstruir-nos. Procuro entender a invenção médica do corpo na modernidade. Construí também a Antropologia do rosto. Por que a importância do rosto existe em algumas sociedades e em outras não? Por que a desfiguração é uma tragédia na nossa sociedade? No livro abordei pela primeira vez a construção da emoção no rosto, as mímicas e o sorriso, para mostrar que o sorriso é uma coisa muito mais complicada. É uma joia e surge de uma espontaneidade diferente entre as culturas. Depois trabalhei na Antropologia da dor. É uma edição completamente renovada. Também trabalhei na construção social das percepções sensoriais, o sabor do mundo e ainda sobre as carnificações e mutilações corporais.



Esse trabalho das emoções é inédito e pioneiro ou você está sendo influenciado por outros pensadores?
Le Breton - Acredito que estou fazendo um estudo bem particular, bem singular que não existe ainda na tradição francesa, embora seja possível encontrá-lo na tradição americana e na britânica. De qualquer maneira, é um estudo que aborda outras perspectivas, algo que não existe, como por exemplo, nas análises realizadas nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha, onde alguns etnólogos trabalhavam sobre afetividade, emoções.


Quando você falou sobre a aparência em que a nossa sociedade é muito influenciada e outras não, você se referia à sociedade ocidental?
Le Breton - Sim.

Portanto, a cultura oriental adota outro tipo de abordagem?
Le Breton - Existem nuances. Do mesmo jeito que a França não é os Estados Unidos, o Canadá não é a Finlândia, mas existem pontos culturais em comum. Mesmo em relação ao corpo, existem semelhanças e diferenças. Se você pensar no Japão, no Brasil ou na América Latina, os imaginários sociais são bem diferentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, sobrevive em alguns lugares o imaginário social do puritanismo, que determina ao indivíduo, e a todo o coletivo, a recusa ao corpo. Essas são tendências de acabar e liquidar o corpo, como forma de respeito e veneração a um ser superior. Esse imaginário de recusa do corpo está muito menos presente na Europa, Brasil e América Latina. Existem pontos em comum, assim como existem as diferenças. Piercings e tatuagens, que são muito corriqueiros nos países europeus, até mesmo no Brasil, não são em outros lugares, por exemplo.


Revista Sociologia

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cada um no seu próprio ritmo 1



Sob o ponto de vista behaviorista, a pedagogia entende o aprendiz não como uma máquina de acúmulo de conhecimentos, mas um indivíduo único e modificado para o resto da vida

Por Alessandro Vieira dos Reis


Alessandro Vieira dos Reis é analista do comportamento Contato com o autor: alessandrovr@gmail.com. http://%20olharbeheca.blogspot.com/

Nos anos 1950, B.F. Skinner não apenas levantava hipóteses sobre tecnologias pedagógicas, mas efetivamente criava "máquinas de ensinar". O dispositivo mecânico e rudimentar funcionava com roldanas e fichas. O aluno rolava um texto recheado com questões e à medida que as respondia seguia adiante. As máquinas de ensinar indicavam o acerto ou erro do aluno imediatamente, diferentemente de provas em que a correção poderia demorar dias. Por esse feedback imediato, o reforço do acerto tinha mais força e o aluno poderia corrigir rapidamente os erros. As máquinas de ensinar poderiam ajudar na instrução, segundo Skinner, a respeito de qualquer saber traduzível em textos e expresso em forma simbólica, tais como gramática e matemática.

Poucos anos depois, com a revolução da informática, surgiam os primeiros computadores. Diante de uma máquina capaz não apenas de apontar erros e acertos em questões, mas também de computar dados e rodar programas variados de ensino, as possibilidades eram muitas.

Antigas novidades sobre o ensino

De poucas décadas para cá, o jargão dos educadores, especialmente em escolas de Ensino Fundamental e Médio, foi acrescido de diversos termos. Alguns deles encontram eco na Análise do Comportamento.

Interdisciplinaridade - Ensinar Português, Geografia e História por intermédio de uma redação. Aprender Matemática e poesia ao mesmo tempo, esquadrinhando métricas de sonetos. Isso é interdisciplinaridade: a visão pela qual as diferentes disciplinas de conhecimento devem se integrar em um todo, respeitando ainda suas diferenças. Para a Análise do Comportamento, como já expresso anteriormente, o que é ensinado na verdade são comportamentos, e não conhecimentos de diversos tipos diferentes. Sendo assim, tudo é uma questão de organizar esses comportamentos em classes passíveis de generalização e discriminação.

Ensino de Competências - Fala-se muito em competências hoje em dia. Uma competência pode ser definida como a capacidade de mobilizar recursos teóricos, práticos e atitudes para realizar algum trabalho. Em outras palavras, comportar-se de alguma forma, visando resultados. Novamente: não é um abstrato conhecimento que é transmitido nas escolas. Educar é ajudar as pessoas a mudarem a si mesmas, visando resultados no mundo.

Ciclos Cada um aprende em seu ritmo. Essa premissa é velha conhecida dos Analistas do Comportamento explicada pelo fato de diferentes pessoas terem diferentes históricos e repertórios. Alguns esquemas de reforço vão funcionar para uns, mas não para outros. A idéia de que todos os alunos precisam cursar as mesmas disciplinas ao mesmo período de tempo não encontra apoio em uma Análise Comportamental. Em vez de o ensino ser segmentado em séries estanques e alunos de mesma idade serem colocados todos na mesma sala (pressupondo que alunos da mesma idade aprendem de forma igual) o melhor seria que se respeitasse o ritmo de cada aluno.

Avaliação Formativa - Para que serve uma prova, ou um seminário, ou qualquer instrumento de avaliação? Muitos diriam que para checar se o aluno aprendeu e permitir que os selecionados passem adiante, enquanto que os reprovados repitam o ano. Esse não é o papel da avaliação na Pedagogia Comportamental. Avaliar é uma forma de incentivar os estudos. Todos sabem que alunos estudam mais quando as provas estão próximas. A partir daí descobriu-se que se a avaliação for contínua e freqüente, e tivesse o papel de orientar mais do que selecionar, então o aluno estaria regularmente estudando. Skinner já praticava a hoje chamada "Avaliação Formativa" décadas antes de pensadores como Phillipe Perrenoud falarem dela.



A educação pode ser escolar, organizacional ou clínica, mas todas devem prezar pela criação de uma cultura propícia à manutenção e evolução sadia da vida

Isso fez Skinner declarar que os computadores eram "o instrumento pedagógico do futuro", ao mesmo tempo em que criticava o emergente paradigma cognitivista de ensino, em que o aluno era comparado a um computador que deveria ter sua memória preenchida com dados.

A partir disso, é perfeitamente aceitável perguntar "como" as pessoas aprendem? Uma questão que pode ser fundamental, para muitos da Análise do Comportamento, é por que o funcionamento da aprendizagem ocupa lugar de destaque na abordagem comportamental, tanto no âmbito clínico quanto escolar e organizacional, se há uma didática behaviorista, uma Pedagogia Comportamental? Sob a hipótese de a resposta ser afirmativa, por que se ouve tão pouco sobre o tema? Talvez porque historicamente os analistas do Comportamento inventam muitas coisas, mas quase nunca levam o crédito.

Pessoas não aprendem como computadores, até porque computadores não aprendem: eles são alimentados com dados estruturados. Quando um computador roda um programa ele está executando um conjunto de instruções chamado algoritmo. Esse algoritmo pode ser substituído por outro, o que não implica em alterações na máquina. Na visão comporta mental, o mesmo não se aplica ao homem: o aprendizado muda, transforma o ser humano de maneira indelével. Alguém que aprendeu a andar de bicicleta não é um autômato executando um algoritmo apagável: é um indivíduo modificado de maneira única para o resto de sua vida.

Dizendo com outras palavras: educar não é transmitir conhecimentos, encher a cabeça das pessoas. Educar, para um behaviorista radical, é transformar pessoas e, assim, também o mundo. A própria noção de conhecimento é entendida não como algo dentro da mente, mas um conjunto de comportamentos que a pessoa exerce no mundo. Em vez de dizer "vou passar a ele o conteúdo de cálculo", um professor de ótica comportamental declararia: "vou ensiná-lo a calcular". Ensinar não é transmitir idéias, passar conteúdos ou transferir informações, é modificar as pessoas ao torná-las capazes de realizar novos comportamentos, aumentando seus repertórios.


Revista Psique

Cada um no seu próprio ritmo 2

Por Alessandro Vieira dos Reis

Diferentemente da didática tradicional, presente nas escolas desde a Idade Média, a Pedagogia Comportamental parte de pressupostos de que todos podem aprender e, se o aluno não aprende, é porque não foi corretamente ensinado. Para um behaviorista radical, o sucesso da educação está em achar um método apropriado para cada aprendiz, descobrir reforçadores eficazes, um ambiente propício, procedimentos mais afins com o histórico e repertório de cada um.

A premissa de que todos podem aprender pode ser traduzida no célebre ditado popular: "não existe mau aluno, existe mau professor". Ou, para ser mais cientificamente preciso, uma vez que o professor também é determinado pelo ambiente de ensino, "não existe mau aluno, existe mau ensino"
.
Outro ponto fundamental, eternamente presente em discussões pedagógicas, é se a diretividade é inevitável. Entende-se que todo ensino ocorre mediante um programa de objetivos, o que envolve, por exemplo, "comportamentos-alvo" que devem constar no repertório do aluno ao final do processo. Admitese que o professor possui um repertório de comportamentos maior e mais organizado que o do aluno e, por isso, tem condições de "orientar o pequeno" (tradução literal da palavra Pedagogia, do grego).

"Educar não é encher a cabeça das pessoas. Educar, para um behaviorista radical, é transformar pessoas e também o mundo"




Na escola

É certo que o comportamento do aluno em sala de aula mudou muito nas últimas décadas, mas entender o que move esse aluno e fazê-lo compreender seu contexto social ainda são tarefas atualíssimas do professor. Escritores da liberdade conta a história de uma professora de literatura que sugere aos seus alunos, todos com histórias de vida violentas, que façam diários e, por meio desse exercício, descobrem o poder da tolerância, recuperam suas vidas desfeitas e mudam seu pequeno mundo.

A diretividade, contudo, não pressupõe falta de interatividade. Deve-se ensinar mediante diretivas, mas conforme o que é reforçador para o aluno. Descobrir o que é reforçador para cada aluno - isto é, o que os motiva - é parte fundamental do ensino segundo a Análise do Comportamento.O professor eficaz é o que faz perguntas do tipo: o que você gosta de aprender? Como se sentiu naquela aula? Quais seus interesses para o futuro? Você está satisfeito com os rumos de sua educação?


Pessoas não aprendem como computadores, até porque computadores não aprendem: eles são alimentados com dados estruturados

Modelos comportamentais de ensino



Alguém que aprende a andar de bicicleta não é um autômato. É um indivíduo modificado de maneira única para o resto de sua vida

O método de ensino escolar desenvolvido por Skinner ficou conhecido como Instrução Programada. Fazendo uso das "máquinas de ensinar", bem como de outros procedimentos, Skinner concluiu que a melhor forma de educar não era a Tradicional, pela qual o professor era um transmissor de informações que deveriam preencher a mente de seus alunos.

A Instrução Programada apresenta algumas características, como respeitar o ritmo de aprendizagem de cada aluno; oferecer a avaliação como forma de ensino e orientação, não como seleção por notas; tornar o aluno gerenciador de seu próprio aprendizado, uma vez que ele regula o programa mediante seus interesses e limites; enfatizar que toda aprendizagem deve gerar habilidades demonstráveis no contexto real, onde o aluno operacionaliza saberes sobre o mundo. Um exemplo disso seria a aprendizagem efetiva da língua e não apenas decorar o vocabulário. (Mais tarde a Instrução Programada serviu de ponto de partida para o desenvolvimento do Personalized Struction System (PSI); e do método Precision Teaching, por Ogden Lindsley).

O fato é que métodos e modelos de ensino baseados na Análise Experimental do Comportamental são hoje desenvolvidos em diversas universidades e centros de pesquisa. Esses métodos influenciam, mesmo sem receber os créditos, pensadores de diversas áreas.

O fato é que métodos e modelos de ensino baseados na Análise Experimental do Comportamental são hoje desenvolvidos em diversas universidades e centros de pesquisa. Esses métodos influenciam, mesmo sem receber os créditos, pensadores de diversas áreas.

Modelo de ensino behaviorista

O livro Análise do comportamento humano, de Ellen Reese (Livraria José Olympo, 1976), apresenta um interessante modelo de ensino baseado na Análise do Comportamento. Segundo Reese, esse modelo pode ser roteirizado da seguinte maneira:


Especificar para o aluno o comportamento-alvo a ser aprendido.


Checar o que o aluno já sabe sobre o tema, para partir de seu repertório presente para que ele chegue ao comportamentoalvo.


Habituá-lo, previamente, com termos, conceitos e instrumentos que usará no processo.


Criar um ambiente favorável (o que envolve desde aspectos físicos até sociais e emocionais da situação de ensino).


Criar um sistema motivacional. Ou seja, descobrir o que é reforçador para o aluno e oferecer isso, mediante algum esquema de reforço.


Dar o exemplo dos comportamentosalvo executando-os (procedimento de modelação). Em seguida, deixar o aluno agir por conta própria, apenas dando instruções em tempo real para aperfeiçoar seu desempenho (procedimento de modelagem).


Manter registros ricos de todo o processo: fotos, diários, filmes, desenhos, etc., para demonstrar objetivamente o progresso do aluno.

Revista Psique

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Filosofia da mente 2

Matéria e memória

João de Fernandes Teixeira

Malcolm aponta que a Neurociência até agora confundiu a ideia de estocagem com a de retenção, que são semelhantes, mas distintas. Seu exemplo parece ser bem claro. Quando troco alguns móveis da minha sala de estar, mas mantenho a mesa de minha avó, estou retendo-a. Isso é diferente de colocá-la no sótão, que seria estocá-la. Essa mesma diferença deveria ser aplicada ao caso da memória.

Mas será que no amnésico gramatical de que nos fala Bergson, a ordem cerebral não poderia simplesmente coincidir com a ordem da gramática e isso justifcaria a possibilidade de sustentarmos a existência de uma degeneração ordenada sem, no entanto, que isso implique uma assimetria entre mental e cerebral? Estudos mais recentes com neuroimagem vêm tentando mostrar que o mapa de nossas funções cognitivas e o mapa de nosso cérebro são isomórfcos. A Ciência cognitiva sugere que a sintaxe está gravada no cérebro. Nesse caso, Bergson poderia não estar certo e a razão do desaparecimento de lembranças na ordem gramatical poderia ser explicada a partir de um modelo neurocognitivo.



Henri Bergson, obra de J. E. Blanche (1891
)


Baseando-se nessa ideia, a Neurociência atual busca incessantemente o lugar da memória no cérebro, como se em alguns pontos dele houvesse algo parecido com transcrições neuronais de lembranças. Mas essa busca por marcas de memória tem sido malsucedida. Uma das difculdades é que, do ponto de vista químico, a gravação e supressão de lembranças é um processo idêntico, o que difcultaria a identifcação de quando essas transcrições estariam ocorrendo.

Malcolm chega a sugerir que o que chamamos de memória é um jogo de linguagem que cria não apenas a ideia de um lugar virtual no cérebro onde as lembranças estariam estocadas, como também criaria uma ilusão temporal, ou um tempo virtual em sentido contrário, como se a mente pudesse retroceder ao passado. Mas a memória é um passado que ocorre sempre agora, pois os processos mentais ocorrem sempre no presente, em tempo real. A memória não é uma camada no tempo, mas apenas uma maneira específca de falar de coisas no presente, usando um jogo de linguagem específco. Memória e percepção estão muito próximas...

Claro que essa é uma concepção que se choca frontalmente com o conceito de memória da Neurociência contemporânea e, sobretudo, com o nosso senso comum. Mas no caso de Bergson não é isso o que ocorre. Seu modelo de memória se mantém atual na Neurociência contemporânea. Sua crítica à ideia de memória como reservatório cerebral e de uma memória que não desaparece é compatível a um modelo defendido por vários neurocientistas contemporâneos, entre os quais o brasileiro Ivan Izquierdo. Nesse modelo, memória é retenção, e o que precisa ser explicado são os processos de supressão ou desaparecimento de lembranças. É o inverso do modelo do estoque, que mesmo assim mostra que temos muito mais lembranças do que nosso cérebro pode acomodar (com exceção, talvez, de Funes, o memorioso, personagem de Jorge Luis Borges que se lembrava de tudo...).

Revista Filosofia

Filosofia da mente 1



Matéria e Memória


João de Fernandes Teixeira



João de Fernandes Teixeira é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. http://www.filosofadamente.org/



O título desta coluna é também a do livro clássico de Henri Bergson (1859-1941). Publicado em 1896, Matéria e Memória interessa aos filósofos da mente por sua rejeição ao reducionismo. Aliás, toda Filosofia bergsoniana caminha na direção de rejeitar essa visão, segundo a qual nossas sensações e estados mentais seriam meras traduções da movimentação das moléculas no cérebro.


É nesse livro em especial e em algumas outras passagens de sua obra que Bergson ataca o problema da relação entre mente e cérebro pela irredutibilidade da memória ao corpo. Para isso, ele precisa avançar contra uma concepção corrente de memória, típica da Psicologia popular, segundo a qual ela é o armazenamento de percepções no cérebro, ou seja, a uma ideia do cérebro como arquivo de lembranças.


Quando começamos a perder a memória estamos, na verdade, enfrentando problemas de acesso a ela. Em nenhum momento ela desaparece. Bergson também argumenta que as lesões cerebrais tampouco destroem as lembranças supostamente localizadas na região lesada; elas podem simplesmente comprometer as ações necessárias ao seu acesso.


Um caso curioso mencionado por Bergson contra a hipótese do cérebro-arquivo é o de um paciente que se esquece somente da letra "f". O fato de apenas a letra "f" ter sido esquecida não indica que ela foi apagada. Ao contrário, abstrair o "f" em todas as palavras escritas ou faladas sugere que há um reconhecimento implícito dessa letra e que de alguma forma ela continua na memória.





Ainda usando exemplos que envolvem peculiaridades sobre a memória para fundamentar seu antirreducionismo, Bergson cita o caso do indivíduo que foi progressivamente perdendo sua memória, mas de acordo com a ordem estabelecida pela gramática. Primeiro vieram os substantivos, depois os adjetivos, e assim por diante. Como a degeneração física do cérebro poderia obedecer à gramática?


Bergson menciona esse caso como mais uma maneira de enfatizar o seu antirreducionismo mostrando como a memória pode manifestar assimetrias entre mente e cérebro. Anos mais tarde, Wittgenstein (1889-1951) também identifcaria uma dessas assimetrias, afrmando nas suas Zettel que a memória "é uma regularidade psicológica à qual não corresponde nenhuma regularidade fisiológica".


Outro flósofo - quase contemporâneo a Bergson, mas de uma tradição completamente diferente que também se ocupou do tema da memória foi Norman Malcolm (1911-1990). Ele foi discípulo e amigo de Wittgenstein. Malcolm, que cita Bergson, também critica a ideia de memória como estoque. Mas essa parece ser uma ideia profundamente entranhada na literatura neurocientífca há muito tempo. Basta ver, por exemplo, o ensaio de Freud O bloco maravilhoso, de 1924. Nele está implícita a questão do estoque, de saber como é possível gravar uma quantidade tão formidável de lembranças num espaço tão pequeno. A mesma preocupação encontra-se em pesquisadores mais recentes, como, por exemplo, o neurobiólogo Karl Pribram, que utilizando um modelo holográfco chegou a propor que nosso cérebro pode ser mesmo um imenso reservatório contido num espaço diminuto.


Para Bergson memória é retenção, e o que precisa ser explicado são os processos de supressão ou desaparecimento de lembranças


Revista Filosofia

Irmandades ajudaram escravos a influenciar cultura e religião do Brasil

Por muito tempo os historiadores acreditaram que, depois que os portugueses trouxeram os escravos para o Brasil, destruíram totalmente os laços que eles mantinham entre si e impuseram sua cultura e religião.



Agência USP

Por muito tempo os historiadores acreditaram que, depois que os portugueses trouxeram os escravos para o Brasil, destruíram totalmente os laços que eles mantinham entre si e impuseram sua cultura e religião. Contudo, uma pesquisa de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP contribui para mostrar que essa visão tem seus erros. No inferno da sociedade escravista, as irmandades leigas - associações de devotos que não pertenciam ao clero - de negros eram um espaço onde os escravos conseguiam influenciar a cultura da colônia e preservar os próprios valores, rituais e laços de solidariedade. Nas irmandades, por meio da religião, relacionavam-se escravos africanos, escravos nascidos no Brasil, senhores e membros do clero, que participavam das reuniões. Michelle Comar, autora da tese, estudou o cotidiano dessas associações na cidade de São Paulo nos séculos XVIII e XIX. Ela pesquisou atas de reuniões, registros de contas e outros documentos no arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, no arquivo do Instituto Historiográfico e Geográfico e na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, do Largo do Paissandu. As três irmandades estudadas eram as de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de São Bendito e de Santa Efigênia / Santo Elesbão. As irmandades tinham direito de falar diretamente com o rei, ter igrejas e realizarem reuniões. A Igreja Católica incentivava sua criação, porque as irmandades traziam novos fiéis, construíam e ornamentavam igrejas e arcavam com os custos de missas. Cada irmão pagava uma taxa e deveria participar das festas e cultos em honra do santo padroeiro e ajudar os outros. Senhores de escravos também contribuíam. As irmandades forneciam um espaço onde os escravos não eram vistos como simples mão de obra barata. "Eles não eram vigiados pelos senhores e podiam até mesmo falar as suas línguas nativas", esclarece Michelle. Diferentemente do ambiente da senzala ou das missas, nas irmandades eles podiam expressar a sua fé, "colorindo-as" com tradições das suas regiões de origem, Congo e de Angola, no sudeste da África. Eles trouxeram para os rituais católicos roupas mais coloridas, cantos, danças e uma preocupação maior com a morte. Na cultura africana, o cuidado dos vivos com os mortos era muito importante. As suas almas deveriam ser homenageadas. Como um reflexo disso, as irmandades realizavam missas após morte de cada irmão e enterros bem organizados. Um outro ritual importante era a coroação dos reis e rainhas da irmandade. Esse casal, que ocupava os cargos mais importantes, era levado em um cortejo teatral pelas ruas da cidade, vestindo roupas européias e cantando e dançando segundo o ritual africano. Como a cultura do Brasil colonial era baseada na visão, essa era uma forma de influenciar a sociedade e contar a história do grupo. "Uma cultura não assimilou (engoliu) a outra. Houve uma troca entre os africanos, os nascidos no Brasil e os europeus", esclarece Michelle. Solidariedade Por intermédio das irmandades, os escravos podiam preservar a solidariedade para com os seus iguais, um traço forte na cultura do Congo e Angola. A irmandade apoiava o irmão e, muitas vezes, sua família em ocasiões como casamentos, nascimentos e morte. "Quando um irmão ou irmã eram muito perseguidos por seus senhores, a irmandade pagava a sua alforria, libertando-o", conta Michelle. "Não era possível lutar contra toda a sociedade escravista, mas as irmandades faziam esforços para aliviar a opressão." Os irmãos que pagavam anuidade tinham direito a acompanhamento do caixão, um espaço no solo dos cemitérios e velas, comprados pela irmandade. "Houve um momento em que morriam tantos escravos que, algumas vezes, os senhores não os enterravam e jogavam os corpos nas frentes das igrejas", explica Michelle. "Para aquelas pessoas, era pavoroso que um parente seu não tivesse um sepultamento". Depois de algum tempo, as irmandades tinham uma igreja, ornamentos, os suportes para caixão, o guião (bandeira) da irmandade e o solo do cemitério. Era a garantia de que nenhum irmão ficaria sem ser enterrado. As irmandades também ajudavam a transmitir a cultura do Congo e Angola no Brasil. "Se os africanos que chegavam à colônia não tivessem um espaço para encontrar os que já estavam aqui, não haveria uma manutenção da cultura", diz Michelle. "Poderiam, por exemplo, deixar morrer o cuidado que deveria haver com o seu irmão de nação e tribo, já que as relações estavam esfaceladas pelo tráfico". Além disso, os africanos que chegavam primeiro ensinavam como agir no novo ambiente. As irmandades negras surgiram em cidades de Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco e São Paulo. Muitas delas estão vivas até hoje. Em São Paulo, a irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos está ativa desde 2 de janeiro de 1711. Em 298 anos, a irmandade construiu duas igrejas: uma, no Largo do Rosário (atual Praça Antonio Prado), foi destruída pela prefeitura para virar estacionamento; a outra, no largo do Paissandu permanece de pé. A pesquisa, orientada pela professora Marina de Melo e Souza, está disponível na Biblioteca digital de Teses e Dissertações da USP.

Revista Leituras da História