Amazon MP3 Clips

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Filosofia da mente 2

Matéria e memória

João de Fernandes Teixeira

Malcolm aponta que a Neurociência até agora confundiu a ideia de estocagem com a de retenção, que são semelhantes, mas distintas. Seu exemplo parece ser bem claro. Quando troco alguns móveis da minha sala de estar, mas mantenho a mesa de minha avó, estou retendo-a. Isso é diferente de colocá-la no sótão, que seria estocá-la. Essa mesma diferença deveria ser aplicada ao caso da memória.

Mas será que no amnésico gramatical de que nos fala Bergson, a ordem cerebral não poderia simplesmente coincidir com a ordem da gramática e isso justifcaria a possibilidade de sustentarmos a existência de uma degeneração ordenada sem, no entanto, que isso implique uma assimetria entre mental e cerebral? Estudos mais recentes com neuroimagem vêm tentando mostrar que o mapa de nossas funções cognitivas e o mapa de nosso cérebro são isomórfcos. A Ciência cognitiva sugere que a sintaxe está gravada no cérebro. Nesse caso, Bergson poderia não estar certo e a razão do desaparecimento de lembranças na ordem gramatical poderia ser explicada a partir de um modelo neurocognitivo.



Henri Bergson, obra de J. E. Blanche (1891
)


Baseando-se nessa ideia, a Neurociência atual busca incessantemente o lugar da memória no cérebro, como se em alguns pontos dele houvesse algo parecido com transcrições neuronais de lembranças. Mas essa busca por marcas de memória tem sido malsucedida. Uma das difculdades é que, do ponto de vista químico, a gravação e supressão de lembranças é um processo idêntico, o que difcultaria a identifcação de quando essas transcrições estariam ocorrendo.

Malcolm chega a sugerir que o que chamamos de memória é um jogo de linguagem que cria não apenas a ideia de um lugar virtual no cérebro onde as lembranças estariam estocadas, como também criaria uma ilusão temporal, ou um tempo virtual em sentido contrário, como se a mente pudesse retroceder ao passado. Mas a memória é um passado que ocorre sempre agora, pois os processos mentais ocorrem sempre no presente, em tempo real. A memória não é uma camada no tempo, mas apenas uma maneira específca de falar de coisas no presente, usando um jogo de linguagem específco. Memória e percepção estão muito próximas...

Claro que essa é uma concepção que se choca frontalmente com o conceito de memória da Neurociência contemporânea e, sobretudo, com o nosso senso comum. Mas no caso de Bergson não é isso o que ocorre. Seu modelo de memória se mantém atual na Neurociência contemporânea. Sua crítica à ideia de memória como reservatório cerebral e de uma memória que não desaparece é compatível a um modelo defendido por vários neurocientistas contemporâneos, entre os quais o brasileiro Ivan Izquierdo. Nesse modelo, memória é retenção, e o que precisa ser explicado são os processos de supressão ou desaparecimento de lembranças. É o inverso do modelo do estoque, que mesmo assim mostra que temos muito mais lembranças do que nosso cérebro pode acomodar (com exceção, talvez, de Funes, o memorioso, personagem de Jorge Luis Borges que se lembrava de tudo...).

Revista Filosofia

Nenhum comentário:

Postar um comentário