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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sociologia clínica 2

Não há, para esse coletivo, uma fórmula única de se intervir em um dado campo social, institucional, organizacional ou outro. O próprio campo e o seu jogo de forças flexionam a maneira de conceber uma metodologia associada a uma base teórica consistente de modo a colocar-se uma inventividade em ato, sempre fruto de um coletivo. "Pode-se dizer que a Sociologia Clínica se caracteriza melhor como um movimento científico inscrito no 'movimento do pensamento complexo', em oposição ao pensamento disjuntivo, redutor, unidimensional e mutilante", diz Norma Tekeuti, usando expressões de Edgar Morin.

Eventos e organizações



Os pesquisadores têm se reunido em congressos, encontros, colóquios e jornadas, como o Congresso internacional de Sociologia Clínica já em sua décima primeira versão. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) abrigou dois desses congressos - as versões VIII (em 2001) e XI (em 2007). Há também o Colóquio de Spetses- Grécia que se realiza a cada dois anos. O próximo será em maio de 2008, na sua 5ª versão, em organização conjunta entre a Universidade de Atenas, sobre o tema O sujeito face às contradições da sociedade hipermoderna.

A cada dois anos, há um encontro do Congresso da AISLF pelo seu Comitê de Pesquisa nº 19 cuja próxima reunião será em Istambul, em julho de 2008.

Em 2001, foi criado o Instituto Internacional de Sociologia Clínica (IISC), em Paris, onde se encontram pesquisadores e clínicos que desenvolvem formação, pesquisa e oficinas de Histórias de Vida (www.sociologieclinique-iisc.com).

Anualmente, o IISC organiza um Colóquio, cujo tema previsto para maio de 2008 é Pourquoi se raconter? (Por que contar [histórias de vida]?).

O Laboratoire de Changement Social da Université Paris 7, França (LCS), sob as direções de Vincent de Gaulejac e Eugène Enriquez, tem sido um pólo aglutinador de pesquisadores de diversos países. Alguns sociólogos clínicos brasileiros são membros associados desse laboratório, como os pesquisadores Teresa Carreteiro, Norma Takeuti e Aécio de Gomes Matos.

Fonte: Norma Missae Takeuti( UFRN), Vanessa Andrade de Barros (UFMG), Cronos - Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN e livro Cenários Sociais e Abordagem Clínica, organizado por José Newton Garcia de Araújo e Teresa Cristina Carreteiro


O movimento se inscreve no núcleo do debate sobre o processo de subjetivação e a questão do sujeito - obliterados do campo científico sociológico nesta contemporaneidade de intensa transformação de significações em todos os setores da vida humana. "A abordagem procura a sua consistência em torno das concepções do pluralismo e da alteridade nas quais as categorias de 'historicidade, experiência do sujeito e vivido' tornam-se o seu arsenal privilegiado de reflexão e 'produção de sentido' dentro da proposta da epistemologia da recepção", expõe a pesquisadora.

Em seu artigo Abordagem clínica nas ciências humanas, o sociólogo clínico do Québec, Robert Sévigny, registra que "o sentido da palavra clínica é observar diretamente, junto ao leito do paciente". O termo é polissêmico, mas, segundo Norma Takeuti, para o que interessa à Sociologia Clínica, pode-se dizer que a palavra do 'paciente' - o que ele tem a dizer sobre aquilo que o atinge - é de suma importância para se conhecer, compreender e aprofundar o 'objeto' de interesse do 'clínico' e do 'sujeito estudado'.

A postura clínica se afasta de um esquema clássico na Sociologia de separar o momento de refletir a teoria e o momento da prática. "Não se trata apenas de colher dados de campo, mas, também, de intervir onde há demanda - seja por parte de grupos, instituições, organizações, comunidades - para se efetuar um trabalho de elucidação de processos que os indivíduos vivem numa dada situação. De toda forma, o pressuposto é que só os próprios sujeitos podem conhecer o sentido de suas ações", analisa.

Para Robert Sévigny, "o caso pode ser um indivíduo, uma organização, um grupo, uma profissão, uma região e até uma sociedade que tenha uma experiência em comum".

A esse respeito, o doutor em Psicologia Clínica e Social, José Newton Garcia de Araújo, professor da PUC-Minas, comenta: "esta disciplina supõe que, em suas intervenções e pesquisas, o sociólogo clínico não se contente em olhar 'de cima' um dado fenômeno, a fim de diagnosticálo ou decifrá-lo". Ele afirma que a compreensão ou o saber, relativos à situação na qual o sociólogo clínico intervém, constrói-se com a ajuda de outro olhar, isto é, o olhar dos sujeitos envolvidos no fenômeno social pesquisado. Do mesmo modo, toda intervenção sociológica, em uma instituição ou em uma organização, supõe discussões e decisões partilhadas com esses mesmos sujeitos. A metodologia da intervenção e da pesquisa, em Sociologia Clínica, requer a abertura do espaço da palavra e da ação aos atores sociais nelas envolvidos. Falamos, então, de uma intervenção participada, de uma pesquisa-ação. Esses sujeitos, tanto quanto o pesquisador, são também sujeitos de conhecimento, detentores de outros saberes oriundos de suas práticas e de sua reflexão, de seus desejos, de seu imaginário criador. Por isso, é essencial a escuta desses atores, no sentido de mobilizá-los subjetivamente, nos planos individual e coletivo, no sentido de torná-los, enquanto possível, sujeitos de sua própria história (veja quadro Histórias de vida).


A abordagem do tipo clínico está presente desde as origens da Sociologia, como por exemplo, na obra de Gabriel Tarde (foto), mais reconhecido no campo da Psicologia SociaL

Priorizar a análise de caso é uma característica da abordagem clínica assinalada por Robert Sévigny, que diz ser tanto para um indivíduo quanto para a sociedade


Priorizar a análise de caso é outra característica da abordagem clínica assinalada por Robert Sévigny. Ele diz que um caso pode ser tanto um indivíduo, uma organização formal, um grupo de atores que vivem uma experiência comum, uma profissão, uma região e até uma sociedade em sua globalidade. Segundo o pesquisador canadense, é preciso reconhecer que quanto mais o caso se torna extenso, quanto mais se trata de grandes conjuntos complexos, fica menos fácil de aplicar com rigor a abordagem.

Para a professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Vanessa Andrade de Barros, doutora em Sociologia pela Université Paris 7, "clinicar remete a estar junto à situação que se quer compreender, em campo e não em laboratórios. É uma prática centrada em casos individuais, particularmente problemáticos, para os quais é preciso encontrar soluções. Os problemas recaem nos indivíduos, mas também sobre grupos, organizações e instituições, acontecimentos e situações particulares que são examinados sob o ângulo de sua singularidade e especifica.



Revista Sociologia

Sociologia clínica

A abordagem busca desenredar as complexas relações entre os condicionamentos sociais e psíquicos presentes nas condutas dos indivíduos e de grupos



Escuta implicada na pesquisa



O reconhecimento da subjetividade no campo sociológico ainda causa certa estranheza, mesmo entre os pares da Academia. A concepção centrada na objetividade científica e no pressuposto teórico de que as razões estão no sistema e não nos sujeitos ganhou espaço dentro da Sociologia e deu, durante algum tempo, o tom das explicações para as relações e processos sociais e culturais. Entretanto, a subjetividade é uma presença desde as origens da Sociologia. Fazer estudos sociológicos levando em conta as questões subjetivas não é uma descoberta desses últimos anos. É algo que se foi construindo lentamente, enfrentando dificuldades para alcançar o reconhecimento, mas que hoje - como afirmam estudiosos no Brasil e em vários outros países - ocupa largo espaço no mundo acadêmico com o nome de Sociologia Clínica.

O grupo de Sociologia Clínica é reconhecido, desde 1994, como RC46 - o Comitê de Pesquisa em Sociologia Clínica que faz parte da Associação Internacional de Sociologia (ISA) (www.isa-sociology. org/rc46.htm). RC46 do ISA abrevia a sigla em inglês Research Committee 46 International Sociological Association (ISA) que é o maior centro de pesquisa em Sociologia do mundo.

E o RC19 é Comitê de Pesquisa em Sociologia Clínica que faz parte da Associação Internacional de Sociólogos de Língua Francesa (AISLF). Anteriormente a essa data, vários encaminhamentos já haviam sido feitos no sentido de divulgação e reconhecimento como colóquios, publicações, intercâmbios entre os correspondentes de países diferentes, inclusive o Brasil, e por meio da inserção de pesquisadores em fóruns locais e internacionais. (Veja quadro Origeme pesquisadores).

"Não se trata de mais uma corrente sociológica, mas de uma maneira de abordar os problemas sociais, articulando aspectos sociais e individuais", expõe a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Norma Missae Takeuti, pós-doutorada em Sociologia Clínica na França, e pesquisadora associada das entidades internacionais RC46 da ISA e RC19 da AISLF.


A Sociologia Clínica aproxima- se de diversas práticas sociológicas passadas e presentes que, de diversas formas, tentam conjugar um tipo de produção teórica e crítica com a prática em campo, não se resumindo à simples aplicação de um saber produzido por experts para os quais não faz sentido a participação dos indivíduos envolvidos em uma dada situação social.

A pesquisadora faz observar que uma abordagem do tipo clínico está presente desde as origens da Sociologia, como, por exemplo, na obra de Gabriel Tarde, mais reconhecido no campo da Psicologia Social ou da Psicologia e recentemente redescoberto pela Sociologia em estudos que realizou sobre a comunicação, a opinião pública, processos de influência e as instituições. "A abordagem clínica analisa o social, tentando compreender o que os indivíduos contemporâneos vivenciam, representam e como o incorporam a suas experiências" diz Norma Takeuti.

Outro autor clássico, Émile Durkheim, considerado 'objetivista', possui entre o conjunto de seus escritos a obra As formas elementares da vida religiosa, na qual tentou mostrar os elos existentes entre o psiquismo individual e o psiquismo coletivo, bem como o papel essencial das crenças e das paixões na vida coletiva. Do mesmo modo, seu discípulo, Marcel Mauss, no Ensaio sobre a dádiva, indica que o sociólogo deve levar em conta o sentido que os sujeitos dão a sua vida e à história da qual eles são protagonistas.

Corrente não se limita a colher dados de campo, mas também faz intervenção onde há demanda Ainda, na França, alguns representantes do Collège de Sociologie Sacrée, como Georges Bataille, Roger Caillois, Michel Leiris - discípulos de Marcel Mauss - buscaram desvendar no social as turbulências, tragédias e as relações da sociedade com os mitos fundadores, sua relação com o sagrado, bem como a parte do 'excesso' existente na sociedade, seja erotismo, guerra, festas, jogos ou brincadeiras. "Se uma determinada Sociologia convencional está voltada para explicar os fenômenos sociais a partir das estruturas e processos sociais amplos que determinam a vida dos indivíduos, a Sociologia Clínica integra na sua abordagem a compreensão dos aspectos inconscientes e afetivos que organizam as ações dos indivíduos na sociedade", evidencia Norma.

Origem e pesquisadores

A Sociologia Clínica originou-se da iniciativa de pesquisadores francófonos (França, Bélgica e Quebec). Robert Sévigny, Jacques Rhéaume e Gilles Houlle (Montréal), Marcel Bol de Balle (Bélgica), Eugène Enriquez, Vincent de Gaulejac, Max Pagès, Jacqueline Barus-Michel e Florence Giust-Desprairies (França).

Pesquisadores de outras nacionalidades vêm se juntando ao grupo, como Jan Marie Fritz (USA), Klimis Navridis (Grécia), Elvia Tarracena (México), Ana Maria Araújo (Uruguai), Igor Massalkov (Rússia). O pólo brasileiro tem tido presença nos Comitês de Pesquisa e organização de colóquios internacionais por meio de alguns pesquisadores: Teresa Carreteiro (Universidade Federal Fluminense - UFF/RJ), Norma Takeuti (PPGCSUniversidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN/Natal), Aécio de Gomes Matos (PPGS-Universidade Federal de Pernambuco - UFPE/Recife), José Newton Araújo Garcia (PUC/MG), Michel Le Ven (Universidade Federal de Minas Gerais/ BH), Vanessa Barros (UFMG/BH), Ruth Vasconcelos (Universidade Federal de Alagoas/Maceió), entre outros.

Cada qual possui um grupo ou unidade de pesquisa em suas instituições próprias, com equipes de pesquisadores, doutorandos, mestrandos e graduandos. Os pesquisadores brasileiros têm ocupado cargos de direção no RC46 Comitê da ISA (www.isa-sociology.org/rc46.htm) e no RC19 Comitê da AISLF.

Fonte: Norma Missae Takeuti (UFRN), Vanessa Andrade de Barros (UFMG), Cronos - Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN e livro Cenários Sociais e Abordagem Clínica, organizado por José Newton Garcia de Araújo e Teresa Cristina Carreteiro

O sujeito e a subjetividade ganham centralidade: a Sociologia Clínica não ignora que o sujeito é determinado tanto nos níveis social, cultural, econômico e ideológico, como em nível psíquico; busca compreender como o indivíduo se debate em meio a essas determinações na tentativa de produzir a sua existência social; entende que o universo das significações sociais só pode ser compreendido - sociologicamente - quando se penetra no vivido, na experiência dos indivíduos apreendidos na sua historicidade.

A abordagem abraça pesquisadores de diferentes filiações institucionais e entrelaça pertenças disciplinares diversas como Ciência Política, Comunicação, Ciência da Saúde, Psicossociologia, Educação etc.

O corpo de conhecimentos da psicanálise tem sidobase teórica de muitas pesquisas sociológicas

O corpo de conhecimentos da psicanálise, por exemplo, embora esteja em um campo científico aparentemente distanciado, tem sido base teórica de muitas pesquisas sociológicas, o que vem resultando numa série de reflexões e novos caminhos.


O diferencial da Sociologia clínica é que não há 'mestres fundadores' ditando novos 'dogmas', senão referências que produzem reflexões e práticas identificadas a um processo que se assemelha mais a uma arte da pesquisa e um encaminhamento progressivo do sentido

"São pesquisadores que, menos preocupados com uma 'identidade disciplinar', reconhecem-se nas suas diferenças pela identificação com uma 'ética de pesquisa'. Pode-se dizer deles que estão à procura de recursos intelectuais para a elaboração de um trabalho que se centra tanto na interioridade quanto na exterioridade de si, do outro e do objeto", diz a professora Norma Takeuti, ratificando o que expôs a esse respeito o sociólogo e pensador francês Edgar Morin, autor do livro Introdução ao Pensamento Complexo.

No seu entender, tais pesquisadores estariam voltados para uma tentativa de prática complexa nas encruzilhadas dos campos disciplinares das ciências do homem.

Eles procuram sair de certos impasses e clivagens assentados no campo da Sociologia, desde o seu início: oposições simplistas e enclausuramentos disciplinares ou teóricos entre o psiquismo e o social, o ator e o sistema, o determinismo e a autonomia. "As práticas da Sociologia Clínica não se esgotam em um único modo de fazer, uma vez que cada uma delas possui uma contextualização sociocultural e histórica", acentua Norma. "Na realidade, a Sociologia Clínica não tem um objeto próprio", assinala, citando o doutor em Sociologia Clínica, Eugène Enriquez, professor da Université Paris 7 e do Laboratoire de Changement Social.

Para este pesquisador, o diferencial desse enfoque em relação a uma estrutura corrente das ciências humanas e sociais é que não há um ou alguns 'mestres fundadores' ditando novos 'dogmas' e procedimentos em Sociologia, senão referências daqueles que estão, há mais tempo, produzindo reflexões e práticas identificadas a um processo que se assemelha mais a uma arte da pesquisa e um encaminhamento progressivo do sentido. Ao invés de 'novas regras metodológicas', encontram-se, sobretudo, esboços teóricos referenciais, de autorias diversas.








Revista Sociologia

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

terceiro setor:solução para o desemprego ou efeito curativo 2

por FELIPE LUIZ GOMES E SILVA


No Brasil, por exemplo, são gastos R$ 7 bilhões com 11,1 milhões de famílias integradas no Programa Bolsa Família, enquanto R$ 110 bilhões remuneram os poderosos detentores dos títulos da dívida pública. Entre janeiro de 2003 e outubro de 2006, as empresas transnacionais, sediadas no País, repatriaram nada menos do que US$ 18,9 bilhões, 112% a mais do que a era Fernando Henrique Cardoso (1998-2002).

O pauperismo e a indigência (superpopulação supérflua) da América Latina e do "terceiro-mundo" somente serão superados com a construção de uma nova sociabilidade humana livre da lógica da acumulação, do desenvolvimento das forças destrutivas e da dependência do capital mundial.

O assistencialismo, a mera caridade legal e a filantropia,práticas inerentes ao chamado "terceiro setor" e às políticas "pseudoliberais" (SARTRE, 1987) talvez possam, por algum tempo, "animar" parte da sociedade e amenizar o sofrimento humano como simples efeito curativo (KURZ, 1997).


Definição dos setores

O pesquisador Rubem C. Fernandes (1994) assim demarca as fronteiras entre o "Primeiro, Segundo e Terceiro Setores":

Como podemos observar, definido pelos seus fins, o denominado "terceiro setor" é composto por agentes privados que buscam a realização de objetivos coletivos e/ou públicos. Desta forma, há, segundo esse autor, clara coincidência com os objetivos do Estado.

O segundo setor é organicamente composto por agentes que buscam objetivos privados, ou seja, orienta-se, primariamente, pelos interesses do mercado, pauta-se pela competição e pelos lucros. Quando os agentes estatais buscam fins privados encontram-se no espaço da corrupção. Dito de outra forma, as condutas pautam-se pelas "políticas de favores", pelo clientelismo, nepotismo e personalismo.

Afirma Fernandes (1994) que o "terceiro setor" denota um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de bens e serviços públicos. Este é o sentido positivo da expressão. Bens e serviços públicos, neste caso, implicam uma dupla qualifi- cação: não geram lucros e respondem a necessidades coletivas. "O conceito é certamente amplo e passível de qualificações sob diversos aspectos. As variações ocorrem, e os casos fronteiriços suscitam disputas polêmicas, como acontece com qualquer classificação".


As pesquisas do Observatório Urbano das Nações Unidas (ONU) alertam que, em 2020, a pobreza no mundo atingirá 45% do total de habitantes das cidades

MAS NEM COMO efeito curativo tem cumprido sua promessa de incluir no mercado formal os desempregados. A produção em escala de trabalhadores precários no terceiro-mundo e na América Latina tem sido acelerada pela aplicação dos Planos de Ajustes Estruturais (superávit fiscal, redução do déficit da balança comercial, desmontagem da previdência, liberalização financeira e comercial, [des] regulamentação dos mercados e a privatização das empresas estatais) "recomendados" pelo Banco Mundial. As pesquisas do Observatório Urbano das Nações Unidas (ONU) alertam que, em 2020, a pobreza no mundo atingirá cerca de 45% do total de habitantes das cidades.

Em Lagos, Nigéria, a classe média desapareceu, o lixo produzido pelos poucos e cada vez mais ricos compõe a cesta de alimentos que frequenta a mesa dos trabalhadores pobres. No Brasil, o denominado mercado informal já atinge mais de 51% da população, na América Latina, 57% e na África, 95% (DAVIS, 2004).

Dificilmente os agentes e os pesquisadores universitários que apoiam as ações do "terceiro setor" perguntam quais são as origens históricas e estruturais da pobreza e da miséria dos países dependentes. É preciso não abandonar a visão de totalidade social e considerar que o local não pode ser entendido como divorciado do mundial e, principalmente, da livre presença das transnacionais e das transações financeiras globais que, junto com os Programas de Ajuste Estrutural (PAEs), recomendados pelo Banco Mundial, provocam devastadores ciclones sociais (DAVIS, 2004; MÉSZÁ- ROS, 2006).

Muitas empresas praticam o denominado "marketing do bem" e a "solidariedade que aparece"

Atualmente, cerca de 180 milhões de pessoas estão em evidente situação de desemprego aberto.Mesmo nos Estados Unidos da América, lócus privilegiado das ações ditas solidárias, o "terceiro setor" não superou os problemas sociais: hoje, eles possuem a 20ª taxa de mortalidade infantil do mundo, 1/3 das crianças em idade escolar está sem vacinas básicas, 31 milhões de seres humanos não têm cobertura de saúde, há 5 milhões de sem-tetos, etc. (PETRAS,1996).

As ações locais, com ou sem apoio das corporações e do Banco Mundial, são limitadas e não questionam as raízes estruturais do desemprego, da pobreza e da precariedade do trabalho. Muitas empresas, na realidade, enquanto praticam o denominado"marketing do bem" e a "solidariedade que aparece" (BUCCI, 2004), exploram ao máximo os seres humanos e os recursos naturais da América Latina e do terceiro-mundo.

Muitas destas ações corporativas têm por objetivos claros "educar" lideranças rebeldes e prevenir a emergência de lutas sociais radicais. "São proponentes de novos contratos que restabelecem vínculos de solidariedade transclassistas e comunidades pensadas com inteira abstração dos "novos" dispositivos de exploração do trabalho (NETTO, 2005), a "flexploração" e a terceirização dos operários (SILVA, 2004). Será possível realizar, no século XXI, a utopia da cidadania plena - igualdade, fraternidade e liberdade - no interior da ordem social capitalista contemporânea?

Revista Sociologia

Terceiro setor: solução para o desemprego ou efeito curativo? 1

Embora impreciso e problemático, o uso do conceito de terceiro setor tem crescido como consequência das perversas políticas neoliberais que ocasionam desemprego, precariedade do trabalho, pobreza e indigência


por FELIPE LUIZ GOMES E SILVA








FELIPE LUIZ GOMES E SILVA é professor aposentado de Gestão, Políticas Públicas e Terceiro Setor para os cursos de Ciências Sociais, Economia e Administração Pública da Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras, campus de Araraquara. Autor do livro A fábrica como agência educativa (Editora Cultura Acadêmica, Unesp - Araraquara, 2001). E-mail: felipeluizgomes@terra.com.br


O que é "terceiro setor" afinal? Para Fernandes (1997), é uma expressão de linguagem que foi traduzida da língua inglesa, sendo "portadora de uma ambiciosa mensagem: além do Estado e do mercado há um terceiro personagem". Ao lado dos sindicatos e de várias associações profissionais há outros recortes associativos que não se estruturam segundo a clássica divisão capital versus trabalho. Segundo Coelho (2000), esta expressão foi usada pela primeira vez na década de 1970 por pesquisadores estadunidenses. No entanto, há indicações de que o termo tenha surgido, inicialmente, como uma referência feita pelo magnata John Rockfeller à vitalidade da comunidade estadunidense (LANDIM, 1999).

Sabemos que qualquer conceito é apenas uma aproximação da realidade, a qual pode se manifestar de variadas formas. Dependendo do contexto histórico, social e político, do tempo e do lugar; a palavra é um instrumento ideológico por excelência (BAKHTIN, 1997). Veja quadro Definição de setores.

Como exemplos de instituições que pertencem ao "terceiro setor" podemos citar a Fundação Abrinq (São Paulo), o Projeto Axé de Educação Infantil e Adolescente (Salvador), o Orfanato Renascer (Araraquara), o Instituto Ethos (São Paulo) e também todo um conjunto de entidades assistenciais e caritativas que compete entre si na busca de recursos financeiros e de parcerias no mercado solidário.

Em razão da diversidade de instituições e de objetivos, a noção de "terceiro setor" é imprecisa e problemática. Para nós, a questão não se resume a uma mera dificuldade formal de classificação, como já apontamos anteriormente, resulta de seu "caráter eminentemente ideológico"; no sentido de ocultar a realidade concreta, ou seja, a não superação do mundo da aparência.

As organizações abrangidas por essa noção são diversas e diferenciadas, heterogêneas e até contraditórias. Apresentam diferenças em suas origens históricas, em suas finalidades, em suas maneiras de se relacionar com o Estado, com a sociedade e com o mercado. De modo geral, têm seu campo de trabalho limitado e condicionado pelas fontes de financiamento e pelo nível de pobreza presente nas diversas nações e regiões (SILVA, 2004).

Os donos do capital deverão reduzir a jornada de trabalho e investir em ações comunitárias solidárias

DE ACORDO COM Oliveira (1995), as Organizações Não Governamentais, por exemplo, "são importantes elementos de ativação da sociedade em geral, quando fazem o trabalho de passagem das carências para os direitos".

Indagamos: quantas organizações, de fato, superam o assistencialismo, realizam os direitos sociais e ultrapassam a filantropia e/ou mero gerenciamento da pobreza? Ressaltemos que, para Fernandes (1994), o "terceiro setor" não pretende substituir a ação do Estado, a sua dinâmica deve ser complementar; é fruto das insuficiências e dos limites da atuação do mercado.

Mas independentemente da vontade e das boas ações humanas, o denominado "terceiro setor" tem, na realidade, crescido em consequência das perversas políticas neoliberais. Com a "crise" do Estado de Bem- Estar Social (nos países centrais) e do Estado Desenvolvimentista (nos países periféricos), a ideologia do "terceiro setor" passa a ser funcional/ operacional às políticas do capitalismo neoliberal, ocultando as raízes estruturais do desemprego, da precariedade do trabalho, da pobreza e da indigência (MONTÃNO, 2002; SILVA, 2004, 2006).Os voluntários que atuam no denominado "terceiro setor" contra a fome e a miséria, só na aparência são livres cidadãos.

A questão fundamental é: sem romper com o modo de produção capitalista, será possível combater a indigência e construir uma nova sociabilidade humana por meio das ações do primeiro, segundo e terceiro setores?

Para Claus Off e a resposta é positiva. Uma nova sociabilidade será construída mediante uma sintonia fina entre o primeiro, segundo e terceiro setores. Atores coletivos da sociedade civil demarcarão as fronteiras e a relação entre o Estado, o mercado e o "terceiro setor". Todos comporão, de forma harmônica, um arranjo social novo e superior. Grande parte dos desempregados será cuidada pela solidariedade religiosa (1999, apud SILVA, 2006).

O estadunidense J. Rifkin também defende a tese da possibilidade de humanizar o capitalismo por meio da articulação dos três setores. Os donos do capital, as corporações, deverão reduzir a jornada do trabalho e investir em ações comunitárias solidárias. Para ele, com o crescimento do desemprego estrutural e da miséria, estamos diante de dois riscos: o crescimento da população carcerária e a emergência de ideologias políticas extremistas.

Só as ações do "terceiro setor" salvarão o capitalismo e a democracia (RIFKIN,1997). Como é evidente, o acelerado crescimento do chamado "terceiro setor" é fruto da lógica da acumulação ampliada do capital, do aumento da população que vive no inferno da indigência e que constitui o peso morto do exército de reserva - que, segundo R. Castel (1998), são os supranumerários, os não empregáveis considerados inúteis para o mundo.

Em 1988, na França, somente um estagiário em quatro, e um trabalhador precário em três encontraram um emprego estável ao final de um ano. Sendo assim, a expressão "interino permanente" não é um jogo de palavras.

Os Estados Unidos apresentam a vigésima taxa de mortalidade infantil do mundo e 5 milhões de sem-teto


Revista Sociologia

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Os dramas da mente 3

Por Anderson Fernandes de Oliveira



O LADO DE DENTRO

Autoconhecimento, para entrar no ciclo de aprendizado contínuo, e astúcia política, ou seja, saber se colocar em qualquer situação, sendo sempre um profissional com equilíbrio são fatores fundamentais para aperfeiçoar a desenvoltura social de um indivíduo no local de trabalho, apontados por Andréa Mônaco, psicóloga, atriz, coordenadora responsável pela elaboração, aplicação e acompanhamento de Programas de Treinamentos e Desenvolvimentos (T&D) focados em Comunicação, coaching e coordenadora geral de consultores de desenvolvimento pessoal e profissional da HomineArt, consultoria de capital humano.

Andréa já treinou diversos executivos e colaboradores de grandes empresas e multinacionais e cita que o departamento de pessoal de uma empresa pode adotar três processos facilitadores no desenvolvimento de seus funcionários. "O primeiro passo é criar na empresa uma cultura de que não existem erros, apenas aprendizados. Em segundo lugar, formular um T&D conforme as condições financeiras da empresa (budget) e o público alvo (target) fundamentado na cultura sugerida, para desenvolvimento dos envolvidos. E, por fim, preparar o ambiente corporativo para aceitar as mudanças comportamentais daqueles que estão neste programa de desenvolvimento."

Ela considera que todos, sem exceção, conseguem potencializar os seus "eus", tornando-se mais comunicativos, por meio dos treinamentos em cursos de artes cênicas. Isso também é válido até mesmo para os mais tímidos. O fato a se destacar é que algumas pessoas têm mais facilidade do que outras para se entregar ao processo das aulas e, por isso, colhem os resultados mais rapidamente, uma vez que não existe dificuldade de aprendizado, mas sim de entrega. Mas, segundo a professora e psicóloga, invariavelmente, todos atingem os objetivos a que se propuseram.

Entretanto, ela afirma que nem sempre timidez e introversão são fatores desencadeantes de um bloqueio nas relações sociais. "Atendi, certa vez, um executivo do sistema financeiro que não conseguia se desempenhar em suas reuniões e apresentações por ficar demasiadamente preocupado com o que seus pares e líderes estavam pensando a seu respeito. Esse é o medo da desaprovação, o mais comum limitador no desenvolvimento pessoal e profissional. Digo que 95% dos nossos 'treinandos' possuem esse bloqueio por não se autoconhecerem o suficiente", revela Andréa.

PSICODRAMA E SUAS REFERÊNCIAS LITERÁRIAS


Loucos em cena


O psiquiatra José Fonseca analisa e entrelaça a filosofia dialógica de Martin Buber e as teorias psicodramáticas de Jacob Levy Moreno. Essa análise, somada à experiência clínica, permite ao autor expor sua visão da loucura e da sanidade, esboçando a teoria do desenvolvimento da personalidade. Indicado para profissionais das áreas psi, educadores e pessoas interessadas em filosofia e religião.

Psicodrama da loucura - Correlações entre Buber e Moreno Por: José Fonseca. Editora Ágora

Drama atual

O livro organizado pelo psicodramatista estadunidense Jacob Gershoni, , traz a contribuição de autores de diversas partes do mundo, Eles escrevem sobre sua prática clínica com famílias, crianças, adolescentes e minorias, bem como sobre o uso do psicodrama em ambientes educacionais e na área jurídica. Apresenta também as mais modernas aplicações do psicodrama e retoma a contribuição de Moreno para a psicoterapia de grupo


Psicodrama no século 21 - Aplicações clínicas e educacionais Por: Jacob Gershoni. Editora Ágora


Cérebro em foco

Fundamentando os pressupostos básicos da teoria de Moreno e das contribuições de Jaime Guillermo Rojas- Bermúdez com estudos da neurociência, a obra aborda o relacionamento terapêutico e os mecanismos de mudança numa perspectiva neuropsicológica. Também menciona, com casos clínicos, a técnica da construção de imagens e discute diretrizes para o psicodramatista contemporâneo.


Psicodrama e neurociência - Contribuições para a mudança terapêutica Por: Heloisa Junqueira Fleury, Georges Salim Khouri e Edward Hug. Editora Ágora

Caminhos brasileiros

O livro recupera a história do psicodrama brasileiro desde seus primórdios, contextualizando o movimento social. Aborda a chegada do psicodrama no Brasil, a resistência à ditadura militar, a criação da Federação Brasileira de Psicodrama (Febrap) e da Revista Brasileira de Psicodrama, os congressos bianuais e alguns eventos fundamentais para a expansão do movimento, bem como seus precursores no Brasil e a influência de outras áreas do conhecimento sobre eles.


Psicodrama brasileiro - História e memórias Por: Júlia Motta. Editora Ágora

Contudo, para Cintia Balsinelli, psicóloga do departamento de Recursos Humanos da editora de livros Larousse, buscar aperfeiçoar a desenvoltura por meio das artes cênicas não é suficiente para pessoas com dificuldade em entrosamento. Ela ressalta a importância das artes teatrais para a mente e cognição de um indivíduo, mas avalia que saber entender-se e conhecer-se é o que vai garantir que possíveis dificuldades sejam realmente sanadas, ou seja, procurar ajuda de um psicólogo.

De qualquer maneira, Cintia acredita que o palco sirva para aprimorar nossa comunicação sobre diversos aspectos, o que facilita muita coisa no nosso dia a dia. Para ela, a comunicação é, hoje, nosso maior trunfo. Saber ouvir e observar faz parte desta comunicação e estas técnicas são amplamente ensinadas nestes cursos. "Jacob Levy Moreno trabalhava muito com o Psicodrama, que é uma técnica de tratamento grupal. Ele acreditava que por meio da dramatização de temas específicos, o paciente conseguiria não só interagir com o grupo, mas também aprender com ele. De forma simples e objetiva, os temas eram 'vivenciados' pelos participantes de forma a explorarem suas emoções e conflitos", reflete a psicóloga.

Cintia também revela que, na área de Recursos Humanos, por exemplo, estas técnicas são utilizadas em seleção de pessoal e também em treinamentos corporativos, pois permitem a vivência do conflito, exploram a espontaneidade e fazem que os participantes revivam o seu papel dentro da organização.


EM CIMA DO TABLADO




Os jogos dramáticos são uma das formas para soltar os personagens inconscientes dos indivíduo. É o momento do autoconhecimento

No Psicodrama, o compartilhamento de histórias permite recriar um acontecimento e vê-lo de outra forma, além de compartilhá-lo de forma a criar uma realidade semelhante a todos. Isso permite reviver o papel da pessoa dentro da sociedade e aprimorá-lo a fim de resolver conflitos internos e/ou sociais.

Se pegarmos alguns pontos da teoria do Psicodrama, poderemos entender o porquê de os cursos em artes cênicas serem tão procurados para casos de dificuldade de expressão e envolvimento social. A dramatização, por exemplo, é uma das técnicas estudadas por Moreno, que tem como objetivo aproximar o indivíduo dele mesmo, por meio da espontaneidade. Trata- se de um caminho pelo qual o indivíduo pode entrar em contato com seus conflitos internos, que até então estavam em estado inconsciente.

Outro exemplo é o jogo dramático, técnica que tem a finalidade de aproximar o psicólogo dos problemas da pessoa, por meio de jogos. Parafraseando a atriz Marília Ferreira, os jogos expõem as pessoas a situações, por vezes, embaraçosas. Remetendo a Moreno, cenas sem dramaticidade são cenas vazias. Pelas cenas dramáticas, o indivíduo expressa livremente as criações do seu mundo interno, realizando-as na forma de representação de um papel, pela produção mental de uma fantasia ou por uma determinada atividade corporal. Assim, com os dramas vividos em cima do tablado, a pessoa tem a possibilidade de encontrar seu potencial escondido dentro de seus personagens inconscientes.




Revista Psique

Os dramas da mente 2

Por Anderson Fernandes de Oliveira



Em grupo, as pessoas trabalham suas fragilidades, como a timidez. A partir de uma grande exposição, elas vão se desacorrentando de seus medos


MUITAS PESSOAS COM TALENTO PERDEM GRANDES OPORTUNIDADES POR NÃO TEREM CORAGEM DE SE EXPOR, DE CORRER RISCOS


Para esse trabalho, ela adotou alguns procedimentos técnicos, como, por exemplo, simulação, dinâmica, jogos e dramatização.



APERFEIÇOANDO PROFISSIONAIS PSI

A situação curiosa que vem acontecendo é quando os psicólogos recorrem a essa prática, seja para romper as barreiras e travas sociais, ou na intenção de aperfeiçoar as suas já adquiridas técnicas de entrosamento e comunicação. Foi o caso da psicóloga Roseli, que encontrou em uma escola de teatro, as técnicas que precisava para aperfeiçoar o seu trabalho.

Ela diz que o curso influencia de modo direto a sua profissão. "Quando decidi procurar um curso de teatro estava em busca de novas dinâmicas, técnicas e metodologias que eu pudesse aplicar nos treinamentos para profissionais das áreas de Call Center e de cobrança por telefone. Pude, por meio da aplicação das técnicas que aprendi, facilitar o aprendizado dos 'treinandos'", explica.

Para a psicóloga, o desenvolvimento cênico como potencializador na formação de um indivíduo é uma grande oportunidade de vivenciar algo que, muitas vezes, ele não se permitiria experimentar em seu cotidiano, por causa de seus bloqueios. É como se ele, num primeiro momento, estivesse apenas emprestando seu corpo para um personagem. Mas, na realidade, ele está entrando em contato com conteúdos seus, que jamais havia pensado. E entrar em contato é construir ou reconstruir uma experiência nova, poder mudar uma atitude, trazer uma nova forma de ver o mundo e agir.

Vagas que exigem uma postura de extroversão, por exemplo, são alguns dos desafios para pessoas com esses bloqueios. Segundo Ana Paula Gimenes, psicóloga pela Universidade de São Francisco e pós-graduada em Desenvolvimento do Potencial Humano nas Organizações, pela PUC-Campinas, existem casos de pessoas tímidas que se saem bem em um cargo que exija desenvoltura, porém, exige um treino para isso.

Ela acredita que essas pessoas deverão ter um esforço maior para se sobressair e, com esse, superar-se constantemente. "Temos exemplos de garotos que vêm para o primeiro emprego (como empacotador), e são mais 'acanhados', mais tímidos, e com a necessidade do dia a dia em ter de entrar em contato direto com os clientes, desenvolvem esta habilidade, se destacando mais, conquistando promoções dentro da empresa", afirma a psicóloga que trabalha no RH de uma rede de supermercados.

METODOLOGIA BRASILEIRA DE ENSINOS


As dificuldades que as pessoas apresentam em sua vida pessoal são refletidas em seu trabalho no palco. Com isso em vista, Leonardo Calixto, diretor da Escola E.I.T. (Espaço de Interpretação Teatral), que reúne outros dois grupos voltados à arte e ao desenvolvimento pessoal, idealizou uma metodologia de ensino exclusiva e visionária, chamada Cultura de Performance. "Comecei a preparar os atores não apenas para o trabalho ao qual eram contratados, e sim para a carreira. Para isso, focava sempre no desenvolvimento pessoal e obtinha os melhores resultados no palco. Claro, tudo isso sem negligenciar as técnicas imprescindíveis das artes cênicas", explica Calixto, sobre seu processo de criação.

Ele desenvolveu uma metodologia que além de potencializar o desempenho dos profissionais, consideraria o meio que eles estão inseridos, sua cultura. "Cansei de atender executivos com ótimo desempenho, mas que quando trocavam de instituição financeira se viam surpresos com as dificuldades de desempenho que tinham na nova instituição; alguns a ponto de não conseguirem se desempenhar, não permanecendo no cargo, tudo isso apenas por desconsiderarem a nova cultura a que estavam inseridos", afirma o empresário. Desta forma, ele concluiu que performance não é nada sem a cultura, originando o nome da metodologia: Cultura de Performance.

O curso está aberto para todos os públicos, mas os psicólogos profissionais de RH podem se beneficiar muito com ele. A Cultura de Performance dispõe de técnicas e ferramentas de gestão de pessoas, que auxiliam o profissional de recursos humanos nessa empreitada de identificar e preencher as necessidades comportamentais do mundo corporativo, da forma mais humanizada possível. Dentre as ferramentas, estão o Assessments, que prepara o psicólogo para analisar o perfil comportamental, e o Feedback, dedicado a fortalecer aprendizados, minimizando limitações.


Participam dos cursos desde diretores de multinacionais até profissionais liberais, como médicos, engenheiros e psicólogos. Todos com objetivo de desenvolver sua habilidade de comunicação

Em busca de aperfeiçoar seu trabalho dentro da empresa, Ana Paula também procurou ajuda de uma escola de teatro para trabalhar seus métodos. Segundo ela, profissionais que lidam com Recursos Humanos estão sempre em contato com pessoas, expectativas e emoções, e o curso a auxiliou conhecer mais de si mesma e, desta forma, tornar-se mais apta a ajudar outras pessoas.



Revista Psique

Os dramas da mente 1

As artes cênicas desenvolvem, por meio da dramatização, o desempenho pessoal e profissional de leigos e até de psicólogo

Por Anderson Fernandes de Oliveira




Assista a uma aula de teatro e veja como ela pode ser interessante. O vídeo chama-se Matéria Timidez, e mostra um pouco de como funcionam as aulas em cursos de artes cênicas. Ele está disponível gratuitamente no You Tube e foi produzido por Programa Fuzarka - Band minas.

A mente vive nos pregando peças. Quantas vezes nos deparamos com situações em que não conseguimos controlar nossa ansiedade, nossa angústia, nosso medo? Falar em público, por exemplo, pode ser um desafio assustador, abrindo a possibilidade de trazer consigo todos esses sentimentos citados. Contudo, isso pode ir além de um quadro de simples timidez: pode ser um bloqueio, um problema muito maior. Quando chega a hora iminente de se apresentar diante de outros, os riscos de passar por uma situação constrangedora são grandes.

Geralmente, este tipo de situação está ligado à infância e à adolescência, quando se iniciam os primeiros trabalhos escolares que exigem exposição. Mas essas travas podem ultrapassar as barreiras acadêmicas e prejudicar o campo profissional de diversas pessoas, inclusive psicólogos.

PSICODRAMA NA PRÁTICA

Jacob Levy Moreno (1889-1974) criou a concepção de que podemos definir a alma hu- 58 psique ciência&vida mana por meio da ação, intitulada Psicodrama. É um método de pesquisa e intervenção nas relações interpessoais entre grupos ou de uma pessoa consigo mesma. Ele também idealiza a Sociometria, que focaliza o próprio grupo, diferentemente da técnica de Psicodrama, com foco no indivíduo no trabalho dramático.

Moreno sonhava com a transformação social e do trabalho. Já no começo do século XX, ele ia às praças públicas de Viena e interagia com a comunidade, provocando sua plateia a descobrir novas formas de estar no mundo. A Filosofia do momento, que embasa a teoria e a prática psicodramática, configurou-se por sua observação do potencial criativo do ser humano.

Em grego, drama significa "ação", portanto. Psicodrama pode ser definido como uma via de investigação da alma humana mediante a ação. Mas, na prática, será que essa técnica seria capaz de desenvolver um indivíduo com os bloqueios sociais que o limitam às apresentações em público?


Muitos profissionais, até mesmo psicólogos, têm uma grande barreira mental que os atrapalham - ou impedem - de se apresentar em grupo


Marília Ferreira é atriz e se envolveu com arte há pouco mais de três anos. Ela diz que na infância tinha sérios problemas em se envolver com os grupos escolares. Mais que isso, tinha dificuldade de se expressar e era muito introvertida. Este problema, na fase adulta, foi sanado graças às aulas de teatro. Nelas, Marília destaca os "jogos teatrais", que buscam trabalhar a exposição da pessoa. "Eles nos fazem agir algumas vezes de maneira boba diante de algumas pessoas, mas justamente para que haja uma quebra nos bloqueios da timidez. Aos poucos, e com muito trabalho, esse bloqueio vai desaparecendo começamos a desenvolver melhor um lado 'cara de pau' por assim dizer. Você fica mais preparado para agir quando for solicitado", explica a atriz.


TÉCNICAS CÊNICAS

Para extravasar a timidez, portanto, pessoas têm como alternativa as aulas de teatro. Para a jovem atriz Marília, na didática em palco há um grande desenvolvimento pessoal, mas isso depende e varia de acordo com os limites de cada pessoa. "Teatro é autoconhecimento, e não um psicólogo que irá discutir seus problemas mais íntimos", ela comenta. Tendo em vista ideários como este, algumas escolas de teatro estão adotando técnicas do Psicodrama de Moreno, com o intuito de embasar ainda mais as disciplinas do curso.

Com mais de 13 anos de experiência como consultora na área de relacionamento com o cliente, ministrando diversos módulos de treinamentos para atendentes, supervisores e gerentes de empresas de Call Centers, a psicóloga Roseli de Freitas, especializada em Telemarketing pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), ressalta a importância da abordagem cênica para o aperfeiçoamento da desenvoltura pessoal, que reflete direto no campo profissional.


Sobre os desafios que as pessoas enfrentam na hora de se apresentar, relacionar-se e desenvolverse com outras, Roseli considera o medo o maior deles. Medo da exposição, de errar, de ser julgado, de não ser aceito, de sentir-se rejeitado. Em processos seletivos, por exemplo, a psicóloga observa que muitas pessoas com talento perdem grandes oportunidades por não terem coragem de se expor, de correr riscos. Padrão esse que pode ter sido aprendido com base em um modelo rígido de educação, em busca da perfeição.

Roseli, trabalha com a autoestima das pessoas que lidam, antes de tudo, com a emoção de alguém que está do outro lado, com o cliente.



Revista Psique

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

As máquinas espirituais de Kurzweil

de KurzweilJoão de Fernandes Teixeira





João de Fernandes Teixeiraé Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. http://www.filosofiadamente.org/


Um dos livros interessantes sobre inteligência artificial que apareceu no final do século XX é A era das máquinas espirituais de Ray Kurzweil, publicado em 1999, mas infelizmente só traduzido para o português em 2005. (Ao que pese o atraso, a tradução, feita pelo professor Fábio Fernandes, da PUC-SP, é de excelente qualidade). Tampouco o livro recebeu atenção por parte da grande imprensa brasileira, que não lhe dedicou nenhuma resenha por ocasião de sua tradução.Kurzweil não é apenas um futurólogo que se pôs a fazer hipóteses fantasiosas sobre as décadas seguintes como muitos pensam. Ele é um cientista da computação, inventor de vários softwares para pessoas portadoras de necessidades especiais, como, por exemplo, os cegos. Inventou também o OCR, programa que foi muito usado para transpor documentos e s can e a d o s para o Word. Mas, mais do que tudo isso, Kurzweil é um filósofo da mente, sobre cujas ideias vale a pena retornar.

Contra o catastrofismo oriundo das distopias do tipo "socialismo ou barbárie" que sugerem que chegamos inexoravelmente na barbárie e no fim do mundo, Kurzweil nos apresenta uma humanidade com um futuro melhor, graças aos avanços da inteligência artificial. Presenciamos uma persistente modificação quantitativa da tecnologia computacional e é essa lenta mudança cumulativa que nos permite prever saltos qualitativos a partir da segunda metade do século XXI..

Antes disso, já na década de 2020 começarão a surgir grandes invenções, que na verdade já existem, mas ainda não se tornaram comercialmente viáveis. Aparecerão as máquinas para traduzir idiomas. Poderei ligar para um amigo japonês falando português e ele atenderá no Japão um telefone que traduzirá minha fala automaticamente para o japonês e vice-versa. Teremos chips implantados no nosso cérebro que nos permitirão falar e escrever em inglês, francês, alemão, etc. sem esforço algum. Não há maior perda de tempo, para quem não gosta, do que ter de aprender idiomas por anos a fio. Mas não faltarão certamente os neoluditas - aqueles que se opõem à tecnologia - e Kurzweil sabe muito bem disso. Há muitos deles espalhados pelo mundo, quase sempre movidos por razões religiosas. A Al-Qaeda, por exemplo, é um caso extremo.


Mas o grande tema do livro de Kurzweil é a parabiose, ou seja, nossa gradual mistura com as máquinas. Este é, na verdade, um fenômeno de duas mãos. Várias tentativas de usar cérebros vivos como computadores já foram feitas, as chamadas wetware machines. Na direção inversa - e é disso que Kurzweil nos fala - corre nossa mistura gradual com as máquinas que ocorrerá num futuro próximo: nossa mente abandonará, gradativamente, sua base neural cujo substrato são moléculas de carbono e migrará para um novo tipo de base material, as máquinas de silício ou de outro componente inorgânico, que permitirá uma expansão de nossa capacidade de raciocínio, memória e outras funções cognitivas. Isso acontecerá por volta do ano 2090.

Kurzweil acredita que nosso cérebro e todo seu conteúdo (a mente) pode ser escaneado e transformado em um software que, no futuro, poderia caber em um computador. Ele acha que tudo isso poderia caber em um superpotente PC do futuro. Esse escaneamento representaria um projeto gigantesco, tal como foi o Projeto Genoma, mas Kurzweil vê sua realização como algo iminente. De fato, não parece que esse seja um sonho tão distante. O projeto Blue Brain, que está sendo realizado na Suíça pela parceria entre a IBM e o Brain Mind Institute pretende construir uma réplica completa do cérebro humano nos próximos 15 anos.

Kurzweil entende que, tornando-nos software, seríamos seres com, potencialmente, uma longevidade quase infinita. Teríamos acedido à condição de máquinas espirituais, softwares que poderiam ficar vagando pela internet indefinidamente.

Essas ideias têm, contudo, muitos impactos na Filosofia. Se me transformam em software e me colocam em um PC e se continuo vivo, quem fica sendo o "verdadeiro" João Teixeira? Será que minha cópia no PC será consciente - tão consciente quanto eu me julgo ser?

Kurzweil tem uma posição peculiar com relação ao problema da consciência. Não existe teste que nos permita verificar se uma criatura ou dispositivo artificial é consciente ou não. Assim sendo, é consciente quem se proclamar consciente, quem conseguir convencer os outros de que é consciente - mesmo que os outros não saibam exatamente o que é ser consciente

Em outras palavras, o ser humano alardeia que tem consciência e seria a isso que se resumiria o problema da consciência. Esse é um critério excessivamente estrito, pois exclui, por exemplo, todos os mamíferos não humanos da categoria ser-consciente. Mas será que temos critério melhor do que esse?.

Procurarmos outra base materi al para a vida seria uma alternativa para a atual situação de impossibilidade de evolução biológica do nosso corpo


Raymond Kurzweil


Softwares não são entidades matemáticas que poderiam ser eternas e indestrutíveis no céu de Platão - se esse céu existir. Softwares são modos de descrição (e de instrução) de estados específicos de hardware, mesmo que esses modos apareçam na tela do computador na forma de um idioma amigável e interativo para o programador. Ou seja, software é código, ente de linguagem que não tem existência própria, pois não existiria sem algum tipo de hardware no qual ele possa ser executado. E não consta que hardwares eternos e indestrutíveis existam. Assim sendo, as máquinas espirituais não serão eternas.Mas talvez elas constituam uma alternativa para a combinação mórbida entre prolongamento da vida e involução do corpo que hoje está ocorrendo com o ser humano. A medicina prolonga a vida, mas o corpo parece inexoravelmente involuir, apesar de todos os esforços contrários que possamos fazer para tentarmos preservá-lo.

Nesse sentido, tornarmo-nos máquinas espirituais, ou seja, procurarmos outra base material para a vida seria uma alternativa para a atual situação de impossibilidade de evolução biológica do nosso corpo na qual nos encontramos. Nossa civilização impede a evolução biológica do nosso corpo. Não há mais evolução biológica, só cultural. Cabe então à cultura, com suas invenções tecnológicas, resolver o problema da involução do nosso corpo, que a cada dia se agrava mais. Será que a humanidade só se coloca problemas que pode resolver

Revista Filosofia

Embate intrínseco 3

por EMERSON JOSÉ SENA DA SILVEIRA







Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, instituiu por Lei Estadual o ensino religioso confessional nas escolas públicas, em uma “aliança tácita” entre católicos e evangélicos


UM SISTEMA que busca definir os princípios epistemológicos e metodológicos da investigação acerca das religiões. Um sistema sob duplo “ataque”: por parte das ciências sociais e por parte da teologia de cunho mais “fechado” e conservador. Fazer ciência com um objeto de estudo tão delicado é colocar uma distinção evidente entre uma metodologia lógica e científica de uma “expressão teológica” da fé. Por outro lado é possível abrir-se às experiências vivenciais de diálogo inter-religioso, experiências que tragam a curiosidade para o plano das vivências pedagógicas nas escolas, tentanto escapar da lógica implacável dos estereótipos e das discriminações. Enfim, pode haver um espaço para troca, diálogo e convivência, onde se trate o tema “religião” de forma aberta e onde se entenda a religião como um fenômeno humano. Dificil, pois a própria dinâmica interna de muitas religiosidades instaura uma tensão entre o conhecimento científico-acadêmico sobre a religião e a prática religiosa. Uma tensão analisada por Max Weber no magistral texto “Rejeições religiosas do mundo e suas direções”, em que define cinco áreas de confronto entre as religiões mundiais e a realidade sociocultural: a esfera sexual-erótica (pensamos na negação cristã do sexo como prazer, com uma “honrosa” exceção: o casamento regular), a esfera artística, a esfera política (a tensão entre valor religioso e ação política prática), a esfera intelectual (a tensão entre compeender o mundo e experimentar uma fé, impondo àqueles que crêem um sacrifício do intelecto) e a esfera econômica.



É possível abrir-se a experiências de diálogo inter-religioso, que tragam a curiosidade para o plano das vivências pedagógicas



Mas quem pensa que as polêmicas acabaram, não percebeu o alvoroço de católicos (capitaneados por arcebispos e órgãos como o Fonaper) em relação ao Projeto de Lei nº 42 (A), encaminhado em 2007 pelo deputado Lincoln Portela a duas comissões da Câmara Federal: de Educação e Cultura (CEC) e de Constituição, Justiça e Cidadania (CCDC). Esse projeto altera o artigo 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, procurando disciplinar a oferta de educação sexual nas escolas de educação básica. O alvoroço dos católicos, e talvez de outras religiosidades, é compreensível dentro dos embates entre concepções de sociedade e de valor. No quadro weberiano, as “rejeições religiosas do mundo”. Weber identifica na questão da sexualidade uma das áreas de mais forte atrito entre as orientações modernas e a religiosidade cristã.



O termo “Ensino Religioso” permaneceu na chave semântica original: ensinar catequese, a rezar. Por meio de decretos e legislações tentou-se instituir uma nova realidade educacional



O CONTROLE e a disciplina da sexualidade sempre foram objeto da ascese cristã. Trata-se de uma das maiores forças imanentes, a dispensar transcendências e outras “teologizações” que procuram dar um enquadramento e uma ressignificação, dentro dos parâmetros historicamente constituídos, pelo cristianismo. Basta lembrar os complexos argumentos teológicos invocados e construídos para explicar algumas passagens bíblicas canônicas e aceitas por todos os cristãos, como a que narra a cena em que Maria Madalena segue afoita para tocar Jesus e recebe um firme “Não me toques”. Esse gesto de ir, com pressa, tocar o mestre é, para alguns intérpretes, mais do que uma simples confirmação de fé. Para os católicos, em geral, o Projeto de Lei nº 42 (A) se torna uma espécie de processo de “desvirtuamento” de uma sexualidade vista como “pura” e que deveria estar a “serviço de Deus e de seu Reino”, a serviço da família. Esse projeto conteria uma forma de educação sexual vista como o oposto dessa idéia. Será mesmo? Enfim, os embates prometem continuar acirrados no Reino dos Homens, enquanto a Cidade de Deus ainda não é inaugurada.


Revista Sociologia

Embate intrínseco 2

por EMERSON JOSÉ SENA DA SILVEIRA



Difusão
As ciências da religião nasceram com o propósito de compreender manifestações religiosas diferentes, embora esse projeto “científico” seja recente no Brasil. As primeiras iniciativas datam no máximo de 35 ou 40 anos, mas hoje se espalham por 13 programas de mestrado e doutorado, com nível internacional e nacional, além de reconhecimento do Ministério da Educação.Entre eles podem ser citados os programas de pós-graduação em Ciência(s) da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, da Universidade Metodista de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Isso sem contar os cursos de pós-graduação lato-sensu abertos em diversas faculdades.




Na contracorrente do declínio católico na sociedade brasileira: o ator Gilson Cezzar interpreta o Cristo negro em encenações populares em bairro de Brasília – via-sacra denuncia desigualdade racial e violência




A SITUAÇÃO do “Ensino Religioso” ao longo da República foi marcada pelos embates entre grupos de pressão de católicos e laicos, entre liberais e intelectuais de direita. O declínio do catolicismo como religião hegemônica na cultura e na sociedade brasileiras trouxe novos contornos à questão. A pluralidade religiosa colocou em xeque o “Ensino Religioso”. A Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação aprovada em 1996 foi fruto de um embate de oito anos entre duas propostas distintas: a primeira, o denominado Projeto Jorge Hage, resultado de uma série de debates com a sociedade, organizados pelo Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública, apresentada à Câmara dos Deputados. E a segunda, de autoria dos senadores Darcy Ribeiro, Marco Maciel e Maurício Correa, ao MEC. A principal divergência entre os dois projetos era o papel do Estado na educação. Do lado dos setores organizados da sociedade civil, havia ênfase nos mecanismos de controle social do sistema de ensino. Do lado dos senadores, buscava-se um “equilíbrio” entre o aspecto do controle e a questão do mercado e da iniciativa privada. Apesar de conter elementos do primeiro grupo, o texto final da LDB se aproxima mais das idéias levantadas pelo segundo (leia quadro Tentativa pela diversidade). Para resolver determinados impasses, uma Resolução CEB/CNE (nº 02 de 7/4/1998) considerou o “Ensino Religioso” como área de conhecimento. Mas não se mudam semânticas sociais de termos e palavras com decretos.O termo “Ensino Religioso” (ou “Educação Religiosa”) permaneceu na chave semântica original: ensinar catequese, ensinar a rezar, agora não só o catolismo, mas outras religiosidades cristãs e não-cristãs. Por meio de decretos e legislações tentou-se instituir uma nova realidade educacional. Porém, o uso do termo “Ensino Religioso” não vai minorar os conflitos, geradores de resistências e equívocos, como a Lei Estadual que instituiu no Rio de Janeiro o Ensino Religioso confessional nas escolas públicas. Essa lei, sancionada em setembro de 2000 pelo ex-governador Anthony Garotinho, dividia as aulas de religião por confissão religiosa, e, embora fossem facultativas, elas integravam o calendário normal das escolas públicas, desde a educação infantil até o ensino médio. Observe-se que, ao redor dessa lei, houve uma “aliança tácita” entre católicos e evangélicos.Em janeiro de 2004 foi realizado um concurso público para contratação de professores de religião. Porém, o Tribunal de Justiça concedeu liminar suspendendo-o, em resposta à ação empreendida pelo Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro (Sinpro- RJ), já que em um dos artigos a lei previa a demissão do professor caso este “perdesse sua fé”.




Tentativa pela diversidade



Apesar de ser atribuída a Darcy Ribeiro, a LDB de 1996 contou com a participação de um senador assumidamente católico: Marco Maciel, exvice- presidente no governo de Fernando Henrique Cardoso. Na nova LBD, de 1996, o artigo 33 consagra o termo “Ensino Religioso”, abrindo espaço para a interconfessionalidade. No parágrafo segundo, afirma que “os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso”. Tentou-se assegurar o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, alterando o artigo 33 da LDB com uma nova redação, a partir da Lei 9.475/97. A matrícula é facultativa e oferecida a todos os alunos, desde a educação infantil até o final do ensino médio.




FICA A PERGUNTA: e o direito daqueles que não querem ter uma religião (os “sem-religião” no Brasil já são, segundo o IBGE, 7% da população)? Bem, o debate é longo. Mas no âmbito da “Educação Religiosa” há práticas inovadoras em inúmeras cidades e estados. E o exemplo do estado de São Paulo pode ser citado: as muitas religiosidades são abordadas do ponto de vista das ciências sociais e históricas.Ainda assim, de modo geral o “Ensino Religioso”, se não é “catequese”, pelo menos é visto como se fosse. E as resistências se propagam e se retroalimentam. É possível propor uma nova semântica para o que vem sendo praticado em algumas cidades e estados no que é hoje chamado de “Ensino Religioso”? Ou, ainda, é possível pensar o Ensino Religioso como área de conhecimento, a partir da escola e não das crenças religiosas, tendo como objeto de estudo o fenômeno religioso? Em relação à segunda pergunta, devido à própria carga de disputas pesadas entre Estado e Igreja, bem como às iniciativas equivocadas de governos estaduais, como a do Rio de Janeiro sob o “cajado” do casal presbiteriano Garotinho, a resposta é não.




O peso histórico da religião poderia ser redimensionado para além do improdutivo impasse entre “ateu versus crente”




Há polêmica contra a implementação efetiva do “Ensino Religioso” nas escolas da rede pública, tanto por parte de alguns grupos e associações científicas quanto de segmentos religiosos




No entanto, outra área de conhecimento e de práticas acadêmicas tem ganhado corpo no Brasil e procura mostrar o fenômeno religioso como algo a ser compreendido e pesquisado. Essa área é conhecida com o nome “ciências da religião” ou “ciências das religiões”. Há uma disputa em torno do significado dos termos. Na verdade, os embates epistemológicos e metodológicos são a garantia de vitalidade de uma área científica. Talvez, com as perspectivas dessa(s) “ciência(s) da religião” o peso histórico da religião no ensino religioso, ainda que surjam críticas, poderia ser redimensionado para além do improdutivo impasse entre “ateu versus crente”.



É preciso ainda fazer menção que dentro do “Ensino Religioso”, como área do conhecimento, existem revistas, fóruns, pesquisas, congressos, enfim, o que pode ser chamado de massa crítica inicial, fomentada por associações como o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper). Mas todas essas iniciativas acabam por esbarrar, por se misturar e por dialogar com as ciências da religião. Se tomarmos as publicações e as iniciativas, elas são em boa parte de universidades católicas, de editoras católicas e/ou protestantes.



As chamadas ciências da religião (ou ciências das religiões, ou ciência da religião) constituem hoje um marco teórico, epistemológico e metodológico respeitável para a compreensão do fenômeno religioso (leia quadro Difusão). Para não serem confessionais, as ciências da religião tiveram de construir um referencial teórico que perpassa toda área do conhecimento aplicado ao estudo da religião e reunir as contribuições das ciências (antropologia, sociologia, psicologia, história) que parcialmente tratam da religião, organizando- as em um sistema científico



Revista Sociologia

Embate intrínseco 1

Religião como conteúdo escolar no Brasil esbarra na dificuldade em conciliar interesses e no choque entre conhecimento científico e prática religiosa

por EMERSON JOSÉ SENA DA SILVEIRA




A sociologia da linguagem contempla o ramo da semântica social dos discursos, e com ela aprende-se que nenhuma palavra é ingênua e neutra. Michel Foucault, no livro A ordem do discurso, analisa o “efeito de verdade” contido nos discursos emitidos pelos agentes sociais enredados nas malhas das estruturas sociais. As práticas discursivas apontam para um grande dilema: o que fazer com o Ensino Religioso, ou Educação Religiosa, no ensino brasileiro? Na Europa essa questão nem se coloca com tanta força. Os índices de desinteresse pela religião rondam os 75%, exceto entre imigrantes e a população muçulmana. A socióloga Danièle Hervieu-Léger, analisando a presença do catolicismo na França (e seus movimentos internos, como o carismático, a entrada nas mídias eletrônicas, etc.), afirma que está ocorrendo uma “exculturação” das tradições cristãs. Ou seja, elas deixam de falar à sociedade, para serem um discurso minoritário e isolado.


NO BRASIL, antropólogos e sociólogos em alentados debates, como Marcelo Camurça, se debruçam sobre fenômenos e percebem uma direção de “inculturação”, apontando para um diálogo vigoroso entre as tendências sociais modernas e o catolicismo. De fato, a influência cristã e católica ainda é imensa. O texto da LDB, sancionado em 1996, afirmava que o ensino religioso poderia ocorrer, mas sem “ônus para os cofres públicos”. Outra redação posterior suprimiu essa frase. “Ensino Religioso” é um termo que possui um efeito de poder, mesmo que se mude para “Educação Religiosa”.


Entre cientistas sociais da religião, apesar das divergências, não se fala mais em extinção das manifestações religiosas

Há nele uma enorme carga de significados sedimentados e, hoje, não se sabe ao certo do que se trata e não há concordância a respeito. Um lodaçal de sentidos que levantam polêmicas e provocam resistências generalizadas, questionamentos e protestos contra a implementação efetiva (e suas formas) do “Ensino Religioso” nas escolas da rede pública (estadual e municipal), tanto por parte de alguns grupos e associações científicas quanto de segmentos religiosos, como alguns grupos pentecostais. Os primeiros vêem na religião o “atraso” e a persistência da tradição, os segundos consideram o “Ensino Religioso” como uma ingerência católica e uma luta por hegemonia.Tanto um grupo quanto outro possuem uma concepção tradicional da religião. Essa concepção não capta as atuais dinâmicas religiosas na sociedade moderna. O primeiro grupo, dos opositores em geral à questão religiosa, não percebe que o estatuto do religioso mudou. Entre cientistas sociais da religião, apesar das divergências, não se fala mais em extinção das manifestações religiosas ou em sua migração completa para o âmbito da vida privada. Se por um lado há o crescimento da oferta de templos, serviços e produtos ligados à religião, por outro se aprofunda o que os teóricos chamam de secularização, a partir do avanço das tecnologias e das ciências em geral.


Michel Foucault (na foto) analisa o “efeito de verdade” nos discursos dos agentes sociais. E são exatamente as práticas discursivas que apontam para um grande dilema quanto à religião no ensino brasileiro




A tensão entre ciência e religião foi analisada por Max Weber, que definiu cinco áreas de confronto: a esfera sexual-erótica, a artística, a política, a intelectual e a econômica



O SEGUNDO grupo resiste à tolerância religiosa, por ter uma posição que tende a negar a autonomia de religiosidades diferentes daquilo que se considera “normal” e “correto”. Esse grupo não está restrito aos evangélicos pentecostais, mas é difundido entre todas as famílias religiosas. Contudo, a idéia de que o ensino religioso é “coisa de católico” revela uma percepção parcialmente correta das forças e relações entre Estado e religião. Essa parcialidade da razão está relacionada à evolução histórica e semântica do termo “Ensino Religioso”, pleno de estereótipos. De fato, o “Ensino Religioso” ministrado era até recentemente, com poucas exceções, uma espécie de catecismo religioso, católico ou cristão, pouco ou nada disfarçado.Dessa forma, o “Ensino Religioso” era e ainda tende a ser compreendido como o ensino de uma fé, de dogmas, de coisas religiosas, de fórmulas e orações, apesar de muitas iniciativas que procuram superar essa perspectiva confessional. Essas percepções são integrantes dos estereótipos, cuja força está naquilo que podemos chamar de economia cognitiva, ou seja, economia da compreensão sobre uma realidade.


A idéia de que ensino religioso é “coisa de católico” revela percepção parcialmente correta de forças entre Estado e religião

Os estereótipos economizam o investimento da compreensão, pois compreender um fenômeno exige investir tempo, cognição e vontade, o que na maioria das vezes não acontece e não é realizado, optando- se sumariamente por “catalogar” e dar por encerrada a interminável tarefa da compreensão.Um verdadeiro “caldo” de informações, muitas vezes desconexas (ouvi dizer, ouvi falar, vi na internet, fulano falou, etc.), formam um bloqueio à compreensão. Não à toa, os estereótipos sobre a prática religiosa circulam o tempo todo nos discursos cotidianos, nas conversas entre professores, alunos e entre outros grupos sociais. Dos estereótipos emergem termos, registrados em conversas populares, como “crente-fanático”, “espírita-macumbeiro”, “candomblé/ umbanda-adepto do demônio”, “católico- idólatra”, “religiãoalienação”, “ateu-coitado”. Mas será mesmo que o “Ensino Religioso” é bandeira católica?Pode-se discutir e contestar se hoje ele ainda o é, na luta para reconquistar a hegemonia do campo ideológico educacional. E, porém, sua história semântica aponta, pelo menos em sua origem, para isso, embora a situação hoje tenha se tornado complexa, com muitas variáveis políticas e culturais.





Revista Sociologia

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Máscaras do tempo

Mecanismos pelos quais o cérebro percebe a passagem do tempo evocam princípios da física enunciados na teoria da relatividade e na mecânica quântica

por Marcus Vinícius C. Baldo, André M. Cravo e Hamilton Haddad Jr.

iraida icaza


De Heráclito a Einstein, os mistérios do tempo ocupam as mentes de filósofos e cientistas


Ao longo da história, questões acerca da origem e do significado da vida, da criação do Universo e livre-arbítrio têm roubado o sono de filósofos e cientistas. A indagação sobre a natureza do tempo, entretanto, parece ser o questionamento mais cotidiano e familiar. Considerado em suas diferentes acepções, o tempo está em toda parte: no calendário da parede, nos diversos relógios que pautam nossa vida, no nascer e no pôr-do-sol, nas fases da lua, nas estações do ano, bem como em nós mesmos - quando sentimos fome ou sono durante o dia ou testemunhamos no espelho as marcas da passagem dos anos. Antiga preocupação filosófica, mais recentemente o tempo passou a ocupar também a mente dos cientistas, interessados em medi-lo e compreendê-lo. Para enxergarmos com clareza suas múltiplas faces, é necessário encarar o tempo igualmente sob múltiplos ângulos. O desafio depende de um esforço conjunto do qual devem participar filósofos, físicos e neurocientistas.

Segundo resultados teóricos e experimentais da física moderna, a velocidade da luz (e de qualquer onda eletromagnética) no vácuo é uma constante, sendo também a velocidade limite que não pode ser superada pela propagação de qualquer outro sinal. Quando admiramos o céu em noite estrelada, vemos algo que jamais existiu exatamente daquela forma, porque cada estrela encontra-se mais perto ou mais longe da Terra, portanto a luz de cada uma delas percorre uma determinada distância em um tempo distinto. A luz das mais próximas viaja alguns poucos anos, enquanto a das mais distantes leva bilhões de anos para atingir nossas retinas. Muitas estrelas que vemos hoje já não existem - explodiram e desapareceram há milhares ou milhões de anos.

Fábrica de Ilusões

Em uma escala de tempo muito menor, impulsos nervosos produzidos pelos estímulos que nos rodeiam - e que vão se transformar em sons, imagens, cheiros - também apresentam velocidade finita de propagação, bem como diferentes tempos de processamento neural. Olhar, ouvir, cheirar e sentir o mundo a nossa volta assemelha-se, portanto, a olhar um céu estrelado: as sensações chegam ao cérebro em momentos distintos, mesmo que tenham partido de um mesmo objeto no mesmo instante. Com alguma prática, o cérebro torna-se hábil em juntar estímulos assíncronos para fazê-los parecer simultâneos. Assim percebemos - ilusoriamente - como síncronos a imagem de lábios que se movem e o som da voz de quem fala.

A ilusão de uma consciência instantânea e simultânea aos estímulos sensoriais que a evocam foi denominada "presente especioso" pelo psicólogo e filósofo americano William James (1842-1910). James considerava o presente ilusório não apenas pelo conteúdo temporal da consciência surgir com atraso em relação ao mundo, ou por dar coerência temporal a uma atividade neural inevitavelmente assíncrona. Ele percebia o presente como uma sensação estendida no tempo, possivelmente exigindo, de um lado, a reevocação de um passado recente guardado na memória de curtíssimo prazo e, de outro, a expectativa de um futuro iminente.


A finitude, tanto da velocidade da luz quanto da propagação da informação no sistema nervoso, conduz a um segundo paralelo entre a física e a neurociência do tempo: a relatividade da simultaneidade.

Segundo a teoria da relatividade proposta por Albert Einstein, se dois eventos A e B (por exemplo, o piscar de duas lâmpadas) são vistos por alguém como simultâneos, um segundo observador, em movimento retilíneo uniforme em relação ao primeiro, poderá vê-los como não simultâneos: a lâmpada A piscando antes da B se o observador estiver se deslocando em um sentido, ou o contrário quando ele se mover na direção oposta. Como ambos os observadores são totalmente equivalentes, já que não existe um "éter" preenchendo o espaço ou algo especial que torne absoluto algum local dele, as duas observações, embora contraditórias, são legítimas e também equivalentes.

Da mesma forma, resultados obtidos em nosso laboratório na Universidade de São Paulo (USP) e por outros pesquisadores demonstram consistentemente que dois estímulos simultâneos - visuais, auditivos ou tácteis - poderão ser ou não percebidos simultaneamente dependendo de vários fatores psicofísicos, entre eles o foco de atenção. Em um típico experimento de julgamento de ordem temporal (JOT), um voluntário senta-se à frente do monitor do computador e fixa o olhar em um ponto demarcado da tela, onde será apresentada uma rápida sucessão entre dois estímulos visuais separados por certa distância. Sua tarefa é relatar qual estímulo foi percebido primeiro. Se prestar atenção ao local onde um dos estímulos será apresentado (mesmo que não dirija o olhar àquele local), as chances de que ele o perceba antes do outro estímulo são muito maiores, mesmo que ambos sejam simultâneos. Nesse caso, a alocação da atenção a um ou outro estímulo teria papel equivalente à mudança do referencial inercial do qual se faz a observação da ordem dos eventos - tal como enunciado pela teoria da relatividade.

Não apenas a ordem e a simultaneidade de dois eventos podem ser relativas para a física e as neurociências, distâncias espaciais e intervalos temporais também são. Segundo a teoria da relatividade, o comprimento de um objeto ou a duração de um evento serão relativos ao referencial inercial em que se encontra o observador. Se ele estiver em movimento em relação ao objeto, seu comprimento será menor se comparado ao mesmo objeto medido por um observador estacionário. O fator de contração é dado pelas equações de transformação de Lorentz . Contração semelhante ocorre quando um observador, cujo referencial inercial está em movimento em relação a um evento, mede a duração deste e compara o resultado com o do observador estacionário.

Experimentos psicofísicos semelhantes ao JOT mostram que a percepção de duração é relativa também ao estado do observador. Fisiologicamente, a incerteza de um julgamento temporal aumenta com a duração do intervalo julgado. Esse resultado, denominado propriedade escalar da percepção de tempo, parece decorrer de um fenômeno psicofísico mais geral, conhecido como lei de Weber (proposto por Ernst Weber, em 1831), segundo o qual para percebermos que um dado estímulo sensorial sofreu variação, o acréscimo (ou decréscimo) mínimo necessário deve ser proporcional à magnitude inicial do estímulo original. Isso talvez ajude a entender por que o tempo parece passar cada vez mais depressa à medida que envelhecemos.


Todos nós também já experimentamos a sensação de o tempo "voar", quando estamos em lugares ou situações agradáveis, ou de se "arrastar", nos momentos em que esperamos com ansiedade algo acontecer. Novamente, parece ser a atenção que prestamos à sucessão de eventos em curso o fator determinante de nossa experiência temporal. Vários estudos demonstram que a duração de um estímulo sensorial, tal como percebida por um observador, é fortemente influenciada pela atenção que ele dispensa ao estímulo.

A percepção temporal pode ser alterada também pela ação de drogas ou doenças que provavelmente modificam circuitos neurais cuja atividade determina nossa capacidade de julgar a duração de um intervalo temporal ou a ordem de dois eventos. A doença de Parkinson, por exemplo, caracteriza-se pela disfunção em certas via neurais que utilizam dopamina como neurotransmissor. Os pacientes manifestam comprometimento da organização temporal de ações motoras e nítido prejuízo no desempenho de tarefas que requerem exclusivamente a percepção de intervalos de tempo. Resultados de nosso laboratório mostram que pacientes com Parkinson exibem significativa redução da precisão no julgamento da ordem temporal de dois eventos visuais, quando comparados a voluntários saudáveis da mesma idade.

Podemos novamente estabelecer um paralelo entre a mudança de referencial em que medidas de intervalos temporais são realizadas e a modificação na atividade de circuitos neurais responsáveis pela codificação do tempo, seja pela modulação fisiológica exercida pela atenção, seja pela interferência de fármacos ou por doenças. Em ambos os casos, o intervalo temporal medido fisicamente ou percebido fisiologicamente é relativo ao referencial em que se situa o observador.

Setas do Tempo

Podemos dizer que, em essência, somos as nossas memórias. Aquilo que declaramos e contamos compõe a chamada memória declarativa, da qual fazem parte fatos sobre o mundo e sobre nossas próprias experiências.

Estima-se que mais da metade das conversações adultas se refiram a eventos passados ou futuros, e essa habilidade de "viajar no tempo", acreditam muitos neurocientistas, é exclusiva do ser humano. É possível que seu aparecimento tenha sido um passo decisivo no processo evolutivo da espécie. Viajando no tempo, entre memórias e projetos, podemos reavaliar experiências passadas, com suas possíveis causas, e ponderar cenários futuros, com suas eventuais conseqüências, o que aumenta a probabilidade de optarmos por decisões e ações mais adaptativas.

Entretanto, existe nítida assimetria entre a memória de um evento passado, cristalizado e único em sua realidade, e a expectativa de um evento futuro, aberto e múltiplo em suas potencialidades..


Em meados do século XX, o matemático austríaco Kurt Gödel obteve uma solução para as equações do campo gravitacional propostas por Einstein na teoria da relatividade geral. Segundo ele, seria possível, sob certas condições, a existência de órbitas fechadas ao longo do espaço-tempo quadridimensional, o que significa que um objeto, em uma viagem ao longo dessa trajetória, voltaria no tempo. Tais resultados trazem à tona o relevante papel desempenhado pelo conceito de causalidade na ciência.

Esse aspecto se torna mais claro com o exemplo do astronauta que, viajando ao longo de uma alça fechada do espaço-tempo, retorna ao passado e, por descuido, provoca um acidente que mata a própria mãe, ainda jovem, antes mesmo de ter sido gerado por ela. Embora muito próximos da ficção científica, tais argumentos baseiam-se em resultados físicos rigorosamente formulados.

Para David Hume, filósofo escocês do século XVIII, a crença na relação causal entre dois eventos decorre apenas do fato de nos habituarmos a vê-los numa dada ordem temporal. Daí viria a sólida, porém ilusória, idéia de que toda conseqüência é precedida de uma causa. No século XX, Hans Reichenbach teceu o conceito de "cadeias causais" para ordenar eventos no tempo. Seguidos em determinado sentido, os eventos ordenam-se de acordo com um princípio de "causalidade"; no sentido oposto, ordenam-se segundo uma "finalidade". A definição de um sentido do tempo (a chamada seta do tempo) ou a escolha da causalidade em detrimento da finalidade é, na visão do filósofo da ciência alemão, uma conseqüência da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia (ou, intuitivamente, o grau de desordem) de um sistema isolado tende a aumentar. O aumento da entropia definiria, portanto, o sentido da seta do tempo.

Quando assistimos a um filme em que cacos de vidro espalhados no chão se aproximam uns dos outros e finalmente se juntam, sabemos imediatamente que ele está sendo projetado de trás para frente. Do ponto de vista termodinâmico, a desordem (entropia) do copo aumenta quando ele se quebra, espalhando cacos pelo chão. O aumento da entropia seria uma indicação segura da direção do tempo, que jamais retrocederia pelas mesmas razões pelas quais a entropia não poderia diminuir. Há, no entanto, problemas sutis nesse raciocínio, detectados pela primeira vez no final do século XIX pelo físico austríaco Ludwig Boltzmann.

Em minuciosa análise termodinâmica, Boltzmann notou que, partindo de um instante no tempo, a entropia de um sistema deve aumentar tanto em direção ao futuro quanto em direção ao passado. Ou seja, a seta do tempo teria duas pontas. Para observarmos hoje o aumento da entropia, como prescrito pela segunda lei da termodinâmica, ela precisaria necessariamente ser menor no passado remoto. Logo, o problema da seta do tempo, na física, parece implicar considerações cosmológicas, remontando a condições termodinâmicas que caracterizaram a origem do Universo. Sob o prisma das neurociências, a assimetria entre eventos já registrados e aqueles ainda por serem gravados em nossa memória parece oferecer, ainda que sem rigor matemático, uma distinção satisfatória entre passado e futuro (e qual deles deve acontecer primeiro).


O ato de observar e medir um evento passou a fazer parte da física com o advento da mecânica quântica, segundo a qual observador e observado acoplam-se, indissociavelmente, na mensuração de um dado estado físico (descrito por uma função de onda). Muitos filósofos e físicos acreditam que o tempo perceptivo registrado por um observador possa, portanto, ter papel relevante na determinação da seta do tempo.

O físico britânico Paul Davies acredita que o fluxo do tempo é resultado de um processo subjetivo, a ser explicado pelas neurociências e não pela física. Pelo menos duas interessantes conexões existem entre os objetos de estudo das duas disciplinas. A primeira é aquela, já mencionada, que vincula um observador consciente ao fenômeno por ele observado. É o ato da observação que transforma as probabilidades descritas pela função de onda em um valor ou estado físico definido e único. Nas palavras de John Wheeler, importante físico americano do século XX: "nenhum fenômeno elementar é um fenômeno até que ele seja um fenômeno observado ou registrado." A segunda conexão entre física e neurociências é a semelhança matemática e conceitual existente entre a definição de entropia, proposta por Boltzmann, e a definição de informação, que o matemático americano Claude Shannon apresentou em meados do século XX. A entropia seria uma medida de nossa ignorância sobre um sistema, sendo a aquisição de informação sobre ele o equivalente a uma redução de sua entropia (negentropia). O atrativo dessa analogia é que, enquanto entropia é um clássico ingrediente de formulações termodinâmicas, informação é a matéria prima, por excelência, da atividade neural.

Percepção do Tempo

Pouco depois do surgimento da teoria da relatividade, o professor de matemática de Einstein, Hermann Minkowski, propôs uma formalização em que tempo e espaço passam a fazer parte de uma única estrutura geométrica. Formada pela fusão de três dimensões espaciais e uma temporal, essa estrutura é conhecida desde então como espaço-tempo quadridimensional. Embora mantenha suas peculiaridades, espaço e tempo devem, de acordo com a relatividade, ser considerados em conjunto, oferecendo um arcabouço único para a descrição dos eventos físicos.

Nossas percepções de espaço e tempo também não existem de forma independente, e tarefas perceptivas que exigem julgamento espaço-temporal possuem longa história nas neurociências. Em 1796, o astrônomo real do observatório de Greenwich, Reino Unido, despediu seu assistente em razão das constantes discrepâncias, da ordem de vários décimos de segundo, na observação do trânsito estelar. As observações exigiam o julgamento, em relação a um ponto de referência no observatório, da localização de uma estrela em um exato instante de tempo marcado pelo tique-taque audível de um relógio. A precisão dessas observações era crítica para as medidas astronômicas, o que levou o problema para os laboratórios sob a forma de procedimentos que ficaram conhecidos como experimentos de complicação, idealizados pelo pai da psicologia fisiológica, Wilhelm Wundt. Tais experimentos implicavam a comparação simultânea de estímulos em movimento contínuo e estímulos de apresentação súbita.



Reportar a localização de um dado objeto em movimento no exato instante em que um outro evento ocorre é, genuinamente, uma tarefa espaço-temporal. Não só um julgamento espacial deve ser realizado simultaneamente a um julgamento temporal, as percepções de espaço e tempo podem - e talvez devam - compartilhar circuitos neurais que são superpostos quanto a esse processamento.

Mais recentemente, o interesse em experimentos de complicação foi reavivado pela descoberta de uma ilusão visual simples, porém ainda muito controversa: o efeito flash-lag. Um objeto em movimento é percebido como se estivesse à frente de sua real posição no instante em que um evento, que ocorre subitamente, é utilizado como referencial no tempo.

Muito se tem debatido sobre as origens neurofisiológicas desse fenômeno, mas um aspecto que demonstramos com alguma segurança é sua modulação por fatores atencionais: a magnitude do efeito flash-lag aumenta ou diminui à medida que prestamos menos ou mais atenção aos estímulos em questão (o que pode parcialmente explicar a tendência dos árbitros auxiliares, em partidas de futebol, de indicar impedimentos inexistentes). A modulação atencional de uma ilusão que implica a percepção de tempo e espaço sugere, mais uma vez, que a atenção entra em cena como uma espécie de "mudança de referencial", no qual eventos espaço-temporais tomam parte.

Uma das razões pelas quais as percepções de tempo e espaço talvez se fundem em uma mesma estrutura espaço-temporal é que a determinação subjetiva de tempo possa depender mais de "como" é representada pelo sistema nervoso, e menos de "quando". Steven Hillyard, da Universidade da Califórnia, mostrou recentemente que a modulação atencional da percepção de ordem temporal, produzida por dois estímulos sonoros, era codificada por variações nas amplitudes de potenciais elétricos observados nos respectivos circuitos neurais envolvidos, e não por suas latências ou qualquer outra variável temporal. Portanto, espaço e tempo não são traduzidos necessária e respectivamente por códigos espaciais e temporais, mas ambos poderiam ser representados pelo sistema nervoso como códigos neurais que nada têm a ver diretamente com as características espaciais e temporais daquilo que representam. Esses mecanismos sugerem um análogo neural, ainda que metafórico, ao espaço-tempo físico.

Blocos de Tempo

Heráclito de Éfeso, que viveu na Grécia entre os séculos VI e V a.C., via o Universo como um processo contínuo de mudança: "todas as coisas estão em perpétuo estado de fluxo". Um de seus mais famosos aforismos diz que "no mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos". Ou seja, não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez as águas do rio - em perpétuo fluxo - já não serão as mesmas, assim como nós mesmos já teremos mudado.


No entanto, o escrutínio filosófico e as formalizações físicas não conseguem determinar a existência de um fluxo temporal único, contínuo e objetivo. Não há resposta para certas perguntas, por exemplo, "qual a velocidade do tempo?" (exceto, talvez, para uma personagem do escritor português José Saramago, que afirma que o tempo passa a uma velocidade de 60 minutos por hora). Esse incômodo beco sem saída tem levado à concepção do tempo como um bloco. O espaço-tempo de Minkowski conteria toda a eternidade: passado, presente e futuro mapeados nesse bloco único. Embora a sensação de um "agora" desempenhe papel central em nossa vida, a intuição é subvertida por concepções relativísticas, segundo as quais todos os instantes desse "tempo blocado" são igualmente reais. O fluir do tempo, do passado ao futuro, passando pelo "agora" que nitidamente sentimos, surgiria em nosso cérebro como o resultado de fazermos, ativa e conscientemente, uma observação desse bloco espaço-temporal. Essa observação então corresponderia, para cada observador, a uma fatia do bloco, que contém a cota de espaço que chamamos "aqui" e o instante de tempo que chamamos "agora".

Essa visão física se aproxima da concebida por Platão no século IV a.C. Em um de seus famosos diálogos, Timeu, o tempo seria uma "imagem móvel da eternidade". Já a concepção neurocientífica nos leva ao pensamento de Santo Agostinho, que viveu oito séculos mais tarde, para quem passado e futuro não existem. Quando olhamos para o passado, ele já se foi: é uma memória. Quando procuramos o futuro, ele ainda não chegou: é uma expectativa. Portanto, somente o presente existe, conclui o filósofo. O tempo seria uma criação da mente humana - quando medimos uma extensão temporal, estamos na verdade medindo memórias do passado e expectativas do futuro. Santo Agostinho é o primeiro pensador ocidental a destacar claramente o caráter subjetivo do tempo.

É possível que as múltiplas faces do tempo tenham individualidade própria. E que os múltiplos "tempos" tenham, portanto, de ser tratados de forma particularizada ou independente, pelo respectivo nível descritivo que o aborda. Seria preciso considerar por exemplo as diferentes naturezas da "fibra" do tempo, com a qual seriam tecidos, em diferentes planos, os múltiplos e distintos tempos físico, biológico, neural e social. Enquanto isso, continuaremos a enfrentar o desafio de compreender como o tempo flui através da mente, já que, fora dela, o rio de Heráclito existe, mas está congelado


Tempo nas neurociências


O surgimento de mecanismos neurais que processam o tempo foi essencial para nossa evolução. O controle neural do tempo é crucial para atividades cuja escala varia entre milésimos de segundo a décadas. São elas: regulação de funções vegetativas e de comportamentos que oscilam periodicamente (ritmos biológicos); funções motoras nas quais a seqüência e coordenação de movimentos exigem grande precisão temporal, da ordem de milissegundos; percepção de sucessão, ordem, intervalos e durações temporais, que se estendem de frações de segundo às memórias que construímos ao longo da vida.

Em seres humanos e outros animais, o processamento neural do tempo tem sido abordado por meio de técnicas como ensaios comportamentais, análises moleculares, métodos eletrofisiológicos, farmacológicos, clínicos e de neuroimagem. Os resultados mais recentes indicam que diferentes módulos neurais participam dos diversos tipos de processamento temporal, dependendo da escala de tempo e da natureza da tarefa.

Ritmos circadianos, por exemplo, operam em períodos de 24 horas, determinando comportamentos tais como o ciclo vigília-sono e a alimentação. Seu controle depende de circuitos neurais localizados no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, que oscilam sob a influência de ritmos externos, como o ciclo claro-escuro produzido pela rotação diária da Terra. Ritmos biológicos, produzidos endogenamente por osciladores neurais, são extremamente úteis no ajuste homeostático e na sincronização de comportamentos aos ritmos exógenos gerados pela natureza periódica de rotação e translação do planeta.

Estudos recentes mostram a existência de dois outros sistemas neurais, relativamente independentes, do processamento temporal. O primeiro é um sistema automático do qual participa o cerebelo, opera na escala de milissegundos e se relaciona à marcação temporal de eventos discretos (descontínuos). O segundo sistema relaciona-se a eventos contínuos, é controlado por mecanismos cognitivos e atencionais e envolve os núcleos da base e várias áreas corticais no processamento de eventos temporais cuja escala de tempo iguala ou supera um segundo. Observações clínicas sugerem que lesões cerebelares comprometem aspectos temporais determinantes da transição de estados motores, enquanto lesões dos núcleos da base comprometeriam, temporalmente, a transição de estados atencionais. Esses núcleos subcorticais parecem estar envolvidos, junto com circuitos dos córtices pré-frontal e parietal posterior, na representação cognitiva de números, seqüências e magnitudes. Dessa forma, áreas neurais comuns participariam de tarefas cuja essência são contagem e o ordenamento, seja temporal, seja numérico. Um possível papel dos núcleos da base seria o de monitorar a atividade que circula entre eles, o tálamo e o córtex cerebral, agindo como detectores de coincidência que controlam o fluxo de informação.


O Tempo na Física


Um dos pilares da física moderna é a obra monumental de Isaac Newton (1642-1727). Em um mesmo modelo teórico, Newton concebeu um sistema mecânico que unificou a física dos corpos em movimento - de maçãs caindo de árvores a órbitas de luas e planetas. A metafísica de Newton adotava a visão de tempo e espaço absolutos. Em relação ao espaço, ele defendia uma forma de "substantivalismo", de um espaço como "substância" - visão oposta ao "relacionismo" adotado por Leibniz, seu contemporâneo. Newton percebeu que, em relação ao espaço absoluto, um movimento uniforme, com velocidade constante, exigiria o fluir de um tempo absoluto. Como afirmou em sua obra Principia mathematica, "O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo, e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com nenhuma coisa externa. [...] Todos os movimentos podem ser acelerados ou retardados, mas o fluxo do tempo absoluto não é sujeito a nenhuma mudança".

Assim, um único "agora" preencheria todo o espaço, desde o local em que você, leitor, se encontra lendo essas páginas, até uma estrela distante, na borda da galáxia ou nos confins do Universo. Embora tenha despertado o questionamento crítico de alguns físicos e filósofos, essa cosmovisão persistiu por mais de 200 anos, e ainda hoje se encontra entranhada nas concepções de muitos de nós. Em meados do século XIX, James Clerk Maxwell colocou, ao lado da mecânica de Newton, uma síntese do eletromagnetismo igualmente unificadora, que expressava, por meio de quatro elegantes equações, todo um conjunto de resultados empíricos relativos a fenômenos elétricos e magnéticos. Com base nas equações de Maxwell, e em experimentos muito precisos realizados no final do século XIX, mostrou-se que a velocidade de uma onda eletromagnética (e, portanto, da luz) no vácuo, era a mesma em qualquer direção: pouco mais de 1 bilhão de km/h. Os resultados conduziram a uma inconveniente contradição entre essas duas teorias físicas - as mais bem-sucedidas até então.

O início do século XX foi marcado por abalos que dilaceraram os alicerces da física clássica. Personagem principal desse fecundo capítulo da história da ciência, Albert Einstein (1879-1955) protagonizou a demolição da física newtoniana. Com suas teorias da relatividade (a especial, de 1905, e a geral, de 1916), propôs um modelo de Universo no qual espaço e tempo não são independentes nem absolutos, mas se fundem em um único espaço-tempo quadridimensional, em que uma onda eletromagnética propaga-se com velocidade constante em relação a qualquer referencial inercial em que seja medida. Como conseqüência da constância da velocidade da luz, conceitos temporais como simultaneidade e duração ou espaciais, como distância e comprimento, tornam-se relativos a um dado referencial inercial. Com as teorias de Einstein, a unidade e a coerência da física foram preservadas e, de quebra, uma visão radicalmente nova do universo tomou o lugar das concepções usuais de espaço e tempo.


Revista Scientific American Brasil