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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sociologia clínica

A abordagem busca desenredar as complexas relações entre os condicionamentos sociais e psíquicos presentes nas condutas dos indivíduos e de grupos



Escuta implicada na pesquisa



O reconhecimento da subjetividade no campo sociológico ainda causa certa estranheza, mesmo entre os pares da Academia. A concepção centrada na objetividade científica e no pressuposto teórico de que as razões estão no sistema e não nos sujeitos ganhou espaço dentro da Sociologia e deu, durante algum tempo, o tom das explicações para as relações e processos sociais e culturais. Entretanto, a subjetividade é uma presença desde as origens da Sociologia. Fazer estudos sociológicos levando em conta as questões subjetivas não é uma descoberta desses últimos anos. É algo que se foi construindo lentamente, enfrentando dificuldades para alcançar o reconhecimento, mas que hoje - como afirmam estudiosos no Brasil e em vários outros países - ocupa largo espaço no mundo acadêmico com o nome de Sociologia Clínica.

O grupo de Sociologia Clínica é reconhecido, desde 1994, como RC46 - o Comitê de Pesquisa em Sociologia Clínica que faz parte da Associação Internacional de Sociologia (ISA) (www.isa-sociology. org/rc46.htm). RC46 do ISA abrevia a sigla em inglês Research Committee 46 International Sociological Association (ISA) que é o maior centro de pesquisa em Sociologia do mundo.

E o RC19 é Comitê de Pesquisa em Sociologia Clínica que faz parte da Associação Internacional de Sociólogos de Língua Francesa (AISLF). Anteriormente a essa data, vários encaminhamentos já haviam sido feitos no sentido de divulgação e reconhecimento como colóquios, publicações, intercâmbios entre os correspondentes de países diferentes, inclusive o Brasil, e por meio da inserção de pesquisadores em fóruns locais e internacionais. (Veja quadro Origeme pesquisadores).

"Não se trata de mais uma corrente sociológica, mas de uma maneira de abordar os problemas sociais, articulando aspectos sociais e individuais", expõe a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Norma Missae Takeuti, pós-doutorada em Sociologia Clínica na França, e pesquisadora associada das entidades internacionais RC46 da ISA e RC19 da AISLF.


A Sociologia Clínica aproxima- se de diversas práticas sociológicas passadas e presentes que, de diversas formas, tentam conjugar um tipo de produção teórica e crítica com a prática em campo, não se resumindo à simples aplicação de um saber produzido por experts para os quais não faz sentido a participação dos indivíduos envolvidos em uma dada situação social.

A pesquisadora faz observar que uma abordagem do tipo clínico está presente desde as origens da Sociologia, como, por exemplo, na obra de Gabriel Tarde, mais reconhecido no campo da Psicologia Social ou da Psicologia e recentemente redescoberto pela Sociologia em estudos que realizou sobre a comunicação, a opinião pública, processos de influência e as instituições. "A abordagem clínica analisa o social, tentando compreender o que os indivíduos contemporâneos vivenciam, representam e como o incorporam a suas experiências" diz Norma Takeuti.

Outro autor clássico, Émile Durkheim, considerado 'objetivista', possui entre o conjunto de seus escritos a obra As formas elementares da vida religiosa, na qual tentou mostrar os elos existentes entre o psiquismo individual e o psiquismo coletivo, bem como o papel essencial das crenças e das paixões na vida coletiva. Do mesmo modo, seu discípulo, Marcel Mauss, no Ensaio sobre a dádiva, indica que o sociólogo deve levar em conta o sentido que os sujeitos dão a sua vida e à história da qual eles são protagonistas.

Corrente não se limita a colher dados de campo, mas também faz intervenção onde há demanda Ainda, na França, alguns representantes do Collège de Sociologie Sacrée, como Georges Bataille, Roger Caillois, Michel Leiris - discípulos de Marcel Mauss - buscaram desvendar no social as turbulências, tragédias e as relações da sociedade com os mitos fundadores, sua relação com o sagrado, bem como a parte do 'excesso' existente na sociedade, seja erotismo, guerra, festas, jogos ou brincadeiras. "Se uma determinada Sociologia convencional está voltada para explicar os fenômenos sociais a partir das estruturas e processos sociais amplos que determinam a vida dos indivíduos, a Sociologia Clínica integra na sua abordagem a compreensão dos aspectos inconscientes e afetivos que organizam as ações dos indivíduos na sociedade", evidencia Norma.

Origem e pesquisadores

A Sociologia Clínica originou-se da iniciativa de pesquisadores francófonos (França, Bélgica e Quebec). Robert Sévigny, Jacques Rhéaume e Gilles Houlle (Montréal), Marcel Bol de Balle (Bélgica), Eugène Enriquez, Vincent de Gaulejac, Max Pagès, Jacqueline Barus-Michel e Florence Giust-Desprairies (França).

Pesquisadores de outras nacionalidades vêm se juntando ao grupo, como Jan Marie Fritz (USA), Klimis Navridis (Grécia), Elvia Tarracena (México), Ana Maria Araújo (Uruguai), Igor Massalkov (Rússia). O pólo brasileiro tem tido presença nos Comitês de Pesquisa e organização de colóquios internacionais por meio de alguns pesquisadores: Teresa Carreteiro (Universidade Federal Fluminense - UFF/RJ), Norma Takeuti (PPGCSUniversidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN/Natal), Aécio de Gomes Matos (PPGS-Universidade Federal de Pernambuco - UFPE/Recife), José Newton Araújo Garcia (PUC/MG), Michel Le Ven (Universidade Federal de Minas Gerais/ BH), Vanessa Barros (UFMG/BH), Ruth Vasconcelos (Universidade Federal de Alagoas/Maceió), entre outros.

Cada qual possui um grupo ou unidade de pesquisa em suas instituições próprias, com equipes de pesquisadores, doutorandos, mestrandos e graduandos. Os pesquisadores brasileiros têm ocupado cargos de direção no RC46 Comitê da ISA (www.isa-sociology.org/rc46.htm) e no RC19 Comitê da AISLF.

Fonte: Norma Missae Takeuti (UFRN), Vanessa Andrade de Barros (UFMG), Cronos - Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN e livro Cenários Sociais e Abordagem Clínica, organizado por José Newton Garcia de Araújo e Teresa Cristina Carreteiro

O sujeito e a subjetividade ganham centralidade: a Sociologia Clínica não ignora que o sujeito é determinado tanto nos níveis social, cultural, econômico e ideológico, como em nível psíquico; busca compreender como o indivíduo se debate em meio a essas determinações na tentativa de produzir a sua existência social; entende que o universo das significações sociais só pode ser compreendido - sociologicamente - quando se penetra no vivido, na experiência dos indivíduos apreendidos na sua historicidade.

A abordagem abraça pesquisadores de diferentes filiações institucionais e entrelaça pertenças disciplinares diversas como Ciência Política, Comunicação, Ciência da Saúde, Psicossociologia, Educação etc.

O corpo de conhecimentos da psicanálise tem sidobase teórica de muitas pesquisas sociológicas

O corpo de conhecimentos da psicanálise, por exemplo, embora esteja em um campo científico aparentemente distanciado, tem sido base teórica de muitas pesquisas sociológicas, o que vem resultando numa série de reflexões e novos caminhos.


O diferencial da Sociologia clínica é que não há 'mestres fundadores' ditando novos 'dogmas', senão referências que produzem reflexões e práticas identificadas a um processo que se assemelha mais a uma arte da pesquisa e um encaminhamento progressivo do sentido

"São pesquisadores que, menos preocupados com uma 'identidade disciplinar', reconhecem-se nas suas diferenças pela identificação com uma 'ética de pesquisa'. Pode-se dizer deles que estão à procura de recursos intelectuais para a elaboração de um trabalho que se centra tanto na interioridade quanto na exterioridade de si, do outro e do objeto", diz a professora Norma Takeuti, ratificando o que expôs a esse respeito o sociólogo e pensador francês Edgar Morin, autor do livro Introdução ao Pensamento Complexo.

No seu entender, tais pesquisadores estariam voltados para uma tentativa de prática complexa nas encruzilhadas dos campos disciplinares das ciências do homem.

Eles procuram sair de certos impasses e clivagens assentados no campo da Sociologia, desde o seu início: oposições simplistas e enclausuramentos disciplinares ou teóricos entre o psiquismo e o social, o ator e o sistema, o determinismo e a autonomia. "As práticas da Sociologia Clínica não se esgotam em um único modo de fazer, uma vez que cada uma delas possui uma contextualização sociocultural e histórica", acentua Norma. "Na realidade, a Sociologia Clínica não tem um objeto próprio", assinala, citando o doutor em Sociologia Clínica, Eugène Enriquez, professor da Université Paris 7 e do Laboratoire de Changement Social.

Para este pesquisador, o diferencial desse enfoque em relação a uma estrutura corrente das ciências humanas e sociais é que não há um ou alguns 'mestres fundadores' ditando novos 'dogmas' e procedimentos em Sociologia, senão referências daqueles que estão, há mais tempo, produzindo reflexões e práticas identificadas a um processo que se assemelha mais a uma arte da pesquisa e um encaminhamento progressivo do sentido. Ao invés de 'novas regras metodológicas', encontram-se, sobretudo, esboços teóricos referenciais, de autorias diversas.








Revista Sociologia

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