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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Embate intrínseco 3

por EMERSON JOSÉ SENA DA SILVEIRA







Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, instituiu por Lei Estadual o ensino religioso confessional nas escolas públicas, em uma “aliança tácita” entre católicos e evangélicos


UM SISTEMA que busca definir os princípios epistemológicos e metodológicos da investigação acerca das religiões. Um sistema sob duplo “ataque”: por parte das ciências sociais e por parte da teologia de cunho mais “fechado” e conservador. Fazer ciência com um objeto de estudo tão delicado é colocar uma distinção evidente entre uma metodologia lógica e científica de uma “expressão teológica” da fé. Por outro lado é possível abrir-se às experiências vivenciais de diálogo inter-religioso, experiências que tragam a curiosidade para o plano das vivências pedagógicas nas escolas, tentanto escapar da lógica implacável dos estereótipos e das discriminações. Enfim, pode haver um espaço para troca, diálogo e convivência, onde se trate o tema “religião” de forma aberta e onde se entenda a religião como um fenômeno humano. Dificil, pois a própria dinâmica interna de muitas religiosidades instaura uma tensão entre o conhecimento científico-acadêmico sobre a religião e a prática religiosa. Uma tensão analisada por Max Weber no magistral texto “Rejeições religiosas do mundo e suas direções”, em que define cinco áreas de confronto entre as religiões mundiais e a realidade sociocultural: a esfera sexual-erótica (pensamos na negação cristã do sexo como prazer, com uma “honrosa” exceção: o casamento regular), a esfera artística, a esfera política (a tensão entre valor religioso e ação política prática), a esfera intelectual (a tensão entre compeender o mundo e experimentar uma fé, impondo àqueles que crêem um sacrifício do intelecto) e a esfera econômica.



É possível abrir-se a experiências de diálogo inter-religioso, que tragam a curiosidade para o plano das vivências pedagógicas



Mas quem pensa que as polêmicas acabaram, não percebeu o alvoroço de católicos (capitaneados por arcebispos e órgãos como o Fonaper) em relação ao Projeto de Lei nº 42 (A), encaminhado em 2007 pelo deputado Lincoln Portela a duas comissões da Câmara Federal: de Educação e Cultura (CEC) e de Constituição, Justiça e Cidadania (CCDC). Esse projeto altera o artigo 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, procurando disciplinar a oferta de educação sexual nas escolas de educação básica. O alvoroço dos católicos, e talvez de outras religiosidades, é compreensível dentro dos embates entre concepções de sociedade e de valor. No quadro weberiano, as “rejeições religiosas do mundo”. Weber identifica na questão da sexualidade uma das áreas de mais forte atrito entre as orientações modernas e a religiosidade cristã.



O termo “Ensino Religioso” permaneceu na chave semântica original: ensinar catequese, a rezar. Por meio de decretos e legislações tentou-se instituir uma nova realidade educacional



O CONTROLE e a disciplina da sexualidade sempre foram objeto da ascese cristã. Trata-se de uma das maiores forças imanentes, a dispensar transcendências e outras “teologizações” que procuram dar um enquadramento e uma ressignificação, dentro dos parâmetros historicamente constituídos, pelo cristianismo. Basta lembrar os complexos argumentos teológicos invocados e construídos para explicar algumas passagens bíblicas canônicas e aceitas por todos os cristãos, como a que narra a cena em que Maria Madalena segue afoita para tocar Jesus e recebe um firme “Não me toques”. Esse gesto de ir, com pressa, tocar o mestre é, para alguns intérpretes, mais do que uma simples confirmação de fé. Para os católicos, em geral, o Projeto de Lei nº 42 (A) se torna uma espécie de processo de “desvirtuamento” de uma sexualidade vista como “pura” e que deveria estar a “serviço de Deus e de seu Reino”, a serviço da família. Esse projeto conteria uma forma de educação sexual vista como o oposto dessa idéia. Será mesmo? Enfim, os embates prometem continuar acirrados no Reino dos Homens, enquanto a Cidade de Deus ainda não é inaugurada.


Revista Sociologia

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