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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

As máquinas espirituais de Kurzweil

de KurzweilJoão de Fernandes Teixeira





João de Fernandes Teixeiraé Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. http://www.filosofiadamente.org/


Um dos livros interessantes sobre inteligência artificial que apareceu no final do século XX é A era das máquinas espirituais de Ray Kurzweil, publicado em 1999, mas infelizmente só traduzido para o português em 2005. (Ao que pese o atraso, a tradução, feita pelo professor Fábio Fernandes, da PUC-SP, é de excelente qualidade). Tampouco o livro recebeu atenção por parte da grande imprensa brasileira, que não lhe dedicou nenhuma resenha por ocasião de sua tradução.Kurzweil não é apenas um futurólogo que se pôs a fazer hipóteses fantasiosas sobre as décadas seguintes como muitos pensam. Ele é um cientista da computação, inventor de vários softwares para pessoas portadoras de necessidades especiais, como, por exemplo, os cegos. Inventou também o OCR, programa que foi muito usado para transpor documentos e s can e a d o s para o Word. Mas, mais do que tudo isso, Kurzweil é um filósofo da mente, sobre cujas ideias vale a pena retornar.

Contra o catastrofismo oriundo das distopias do tipo "socialismo ou barbárie" que sugerem que chegamos inexoravelmente na barbárie e no fim do mundo, Kurzweil nos apresenta uma humanidade com um futuro melhor, graças aos avanços da inteligência artificial. Presenciamos uma persistente modificação quantitativa da tecnologia computacional e é essa lenta mudança cumulativa que nos permite prever saltos qualitativos a partir da segunda metade do século XXI..

Antes disso, já na década de 2020 começarão a surgir grandes invenções, que na verdade já existem, mas ainda não se tornaram comercialmente viáveis. Aparecerão as máquinas para traduzir idiomas. Poderei ligar para um amigo japonês falando português e ele atenderá no Japão um telefone que traduzirá minha fala automaticamente para o japonês e vice-versa. Teremos chips implantados no nosso cérebro que nos permitirão falar e escrever em inglês, francês, alemão, etc. sem esforço algum. Não há maior perda de tempo, para quem não gosta, do que ter de aprender idiomas por anos a fio. Mas não faltarão certamente os neoluditas - aqueles que se opõem à tecnologia - e Kurzweil sabe muito bem disso. Há muitos deles espalhados pelo mundo, quase sempre movidos por razões religiosas. A Al-Qaeda, por exemplo, é um caso extremo.


Mas o grande tema do livro de Kurzweil é a parabiose, ou seja, nossa gradual mistura com as máquinas. Este é, na verdade, um fenômeno de duas mãos. Várias tentativas de usar cérebros vivos como computadores já foram feitas, as chamadas wetware machines. Na direção inversa - e é disso que Kurzweil nos fala - corre nossa mistura gradual com as máquinas que ocorrerá num futuro próximo: nossa mente abandonará, gradativamente, sua base neural cujo substrato são moléculas de carbono e migrará para um novo tipo de base material, as máquinas de silício ou de outro componente inorgânico, que permitirá uma expansão de nossa capacidade de raciocínio, memória e outras funções cognitivas. Isso acontecerá por volta do ano 2090.

Kurzweil acredita que nosso cérebro e todo seu conteúdo (a mente) pode ser escaneado e transformado em um software que, no futuro, poderia caber em um computador. Ele acha que tudo isso poderia caber em um superpotente PC do futuro. Esse escaneamento representaria um projeto gigantesco, tal como foi o Projeto Genoma, mas Kurzweil vê sua realização como algo iminente. De fato, não parece que esse seja um sonho tão distante. O projeto Blue Brain, que está sendo realizado na Suíça pela parceria entre a IBM e o Brain Mind Institute pretende construir uma réplica completa do cérebro humano nos próximos 15 anos.

Kurzweil entende que, tornando-nos software, seríamos seres com, potencialmente, uma longevidade quase infinita. Teríamos acedido à condição de máquinas espirituais, softwares que poderiam ficar vagando pela internet indefinidamente.

Essas ideias têm, contudo, muitos impactos na Filosofia. Se me transformam em software e me colocam em um PC e se continuo vivo, quem fica sendo o "verdadeiro" João Teixeira? Será que minha cópia no PC será consciente - tão consciente quanto eu me julgo ser?

Kurzweil tem uma posição peculiar com relação ao problema da consciência. Não existe teste que nos permita verificar se uma criatura ou dispositivo artificial é consciente ou não. Assim sendo, é consciente quem se proclamar consciente, quem conseguir convencer os outros de que é consciente - mesmo que os outros não saibam exatamente o que é ser consciente

Em outras palavras, o ser humano alardeia que tem consciência e seria a isso que se resumiria o problema da consciência. Esse é um critério excessivamente estrito, pois exclui, por exemplo, todos os mamíferos não humanos da categoria ser-consciente. Mas será que temos critério melhor do que esse?.

Procurarmos outra base materi al para a vida seria uma alternativa para a atual situação de impossibilidade de evolução biológica do nosso corpo


Raymond Kurzweil


Softwares não são entidades matemáticas que poderiam ser eternas e indestrutíveis no céu de Platão - se esse céu existir. Softwares são modos de descrição (e de instrução) de estados específicos de hardware, mesmo que esses modos apareçam na tela do computador na forma de um idioma amigável e interativo para o programador. Ou seja, software é código, ente de linguagem que não tem existência própria, pois não existiria sem algum tipo de hardware no qual ele possa ser executado. E não consta que hardwares eternos e indestrutíveis existam. Assim sendo, as máquinas espirituais não serão eternas.Mas talvez elas constituam uma alternativa para a combinação mórbida entre prolongamento da vida e involução do corpo que hoje está ocorrendo com o ser humano. A medicina prolonga a vida, mas o corpo parece inexoravelmente involuir, apesar de todos os esforços contrários que possamos fazer para tentarmos preservá-lo.

Nesse sentido, tornarmo-nos máquinas espirituais, ou seja, procurarmos outra base material para a vida seria uma alternativa para a atual situação de impossibilidade de evolução biológica do nosso corpo na qual nos encontramos. Nossa civilização impede a evolução biológica do nosso corpo. Não há mais evolução biológica, só cultural. Cabe então à cultura, com suas invenções tecnológicas, resolver o problema da involução do nosso corpo, que a cada dia se agrava mais. Será que a humanidade só se coloca problemas que pode resolver

Revista Filosofia

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