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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Filosofia da mente 1



Matéria e Memória


João de Fernandes Teixeira



João de Fernandes Teixeira é Ph.D. pela University of Essex (Inglaterra) e se pós-doutorou com Daniel Dennett nos Estados Unidos. É professor titular na Universidade Federal de São Carlos. http://www.filosofadamente.org/



O título desta coluna é também a do livro clássico de Henri Bergson (1859-1941). Publicado em 1896, Matéria e Memória interessa aos filósofos da mente por sua rejeição ao reducionismo. Aliás, toda Filosofia bergsoniana caminha na direção de rejeitar essa visão, segundo a qual nossas sensações e estados mentais seriam meras traduções da movimentação das moléculas no cérebro.


É nesse livro em especial e em algumas outras passagens de sua obra que Bergson ataca o problema da relação entre mente e cérebro pela irredutibilidade da memória ao corpo. Para isso, ele precisa avançar contra uma concepção corrente de memória, típica da Psicologia popular, segundo a qual ela é o armazenamento de percepções no cérebro, ou seja, a uma ideia do cérebro como arquivo de lembranças.


Quando começamos a perder a memória estamos, na verdade, enfrentando problemas de acesso a ela. Em nenhum momento ela desaparece. Bergson também argumenta que as lesões cerebrais tampouco destroem as lembranças supostamente localizadas na região lesada; elas podem simplesmente comprometer as ações necessárias ao seu acesso.


Um caso curioso mencionado por Bergson contra a hipótese do cérebro-arquivo é o de um paciente que se esquece somente da letra "f". O fato de apenas a letra "f" ter sido esquecida não indica que ela foi apagada. Ao contrário, abstrair o "f" em todas as palavras escritas ou faladas sugere que há um reconhecimento implícito dessa letra e que de alguma forma ela continua na memória.





Ainda usando exemplos que envolvem peculiaridades sobre a memória para fundamentar seu antirreducionismo, Bergson cita o caso do indivíduo que foi progressivamente perdendo sua memória, mas de acordo com a ordem estabelecida pela gramática. Primeiro vieram os substantivos, depois os adjetivos, e assim por diante. Como a degeneração física do cérebro poderia obedecer à gramática?


Bergson menciona esse caso como mais uma maneira de enfatizar o seu antirreducionismo mostrando como a memória pode manifestar assimetrias entre mente e cérebro. Anos mais tarde, Wittgenstein (1889-1951) também identifcaria uma dessas assimetrias, afrmando nas suas Zettel que a memória "é uma regularidade psicológica à qual não corresponde nenhuma regularidade fisiológica".


Outro flósofo - quase contemporâneo a Bergson, mas de uma tradição completamente diferente que também se ocupou do tema da memória foi Norman Malcolm (1911-1990). Ele foi discípulo e amigo de Wittgenstein. Malcolm, que cita Bergson, também critica a ideia de memória como estoque. Mas essa parece ser uma ideia profundamente entranhada na literatura neurocientífca há muito tempo. Basta ver, por exemplo, o ensaio de Freud O bloco maravilhoso, de 1924. Nele está implícita a questão do estoque, de saber como é possível gravar uma quantidade tão formidável de lembranças num espaço tão pequeno. A mesma preocupação encontra-se em pesquisadores mais recentes, como, por exemplo, o neurobiólogo Karl Pribram, que utilizando um modelo holográfco chegou a propor que nosso cérebro pode ser mesmo um imenso reservatório contido num espaço diminuto.


Para Bergson memória é retenção, e o que precisa ser explicado são os processos de supressão ou desaparecimento de lembranças


Revista Filosofia

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