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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dito e contradito 1

Você acha que cérebro e mente são a mesma coisa?



Gustavo Leal Toledo • Graduado em Filosofia na UERJ e mestre pela PUC-Rio com a dissertação O Argumento dos Zumbis na Filosofia da Mente: são zumbis físicos logicamente possíveis? Doutorou-se na mesma instituição. Tem diversas publicações no Brasil e no exterior. Atualmente é professor da UFSJ, no campus Alto Paraopeba

SIM


Teorias que tentam entender a mente sem ser através do cérebro sofrem o que Jaegwon Kim chamou de sobredeterminação, ou seja, descobrem que todos os poderes causais da mente podem ser explicados pelo cérebro. Ficam, então, com uma mente que “não serve para nada”. Uma possível saída para isso é ressignificar o sentido de ‘mente’, ‘cérebro’, ‘causação’, mas não me parece que mudar o significado de um termo realmente muda algo. Podemos entender o termo ‘causa’ de modo que a causação mental esteja incluída e assim passa a fazer sentido dizer que a mente causa algo. Mas o problema é anterior, pois qual é o real motivo para mudar o significado do termo ‘causa’ senão a nossa própria vontade de que a mente possa causar algo? Mas de onde tiramos que a mente causa algo? De onde tiramos que ela existe?

A resposta costuma ser que é óbvio que ela exista. Mas esta mesma resposta foi oferecida, por séculos, sobre a existência de Deus, bruxas, etc. No entanto, parece haver algo diferente na mente, pois eu tenho uma mente, ela sou eu. Se levanto para ir à padaria é porque quero ir à padaria e desejo comer pão. Querer e desejar são explicações mentalistas para o comportamento. Tal tipo de explicação é conhecido como Psicologia Popular, mas será que devemos continuar usando-a agora que temos novas explicações com poderes preditivos até maiores? O caso da depressão é paradigmático neste sentido: cada vez mais a explicamos não com a Psicologia Popular, mas com a Neurofisiologia e a Neuroquímica.

Uma das críticas a esta tentativa de naturalização da mente é o Argumento dos Zumbis, de David Chalmers, que diz que se um zumbi for fisicamente idêntico a um ser humano, mas sem consciência e nem estados qualitativos (qualia), e for logicamente possível (concebível), então o materialismo é falso. No entanto, tal zumbi teria que ser indistinguível do ser humano. O problema deste argumento surge porque até mesmo o próprio zumbi não poderia saber que é um zumbi, o que significa que nós poderíamos ser um zumbi e não saber!

Se isto for verdade, o argumento fracassa. A resposta que Chalmers oferece a esta crítica é decidir aceitar tal paradoxo, no entanto, isso não é um movimento admissível, pois estamos discutindo a possibilidade lógica de algo. Ele também diz que “devemos levar a consciência a sério”, mas isso também não resolve nada, pois o problema é justamente como isso deve ser feito. Assim, Chalmers estaria pressupondo o que deve explicar. Estaria colocando o coelho dentro da cartola para depois tirá-lo de lá.

Temos, então, que embora não existam argumentos definitivos para reduzir a mente ao cérebro, ou mesmo eliminá-la, não há também bons argumentos contrários a isso. O que nos resta é investigar os próprios motivos de termos começado esta discussão. Fica cada vez mais claro que o verdadeiro problema difícil não é discutir se a mente é ou não o cérebro, mas sim descobrir os motivos de, tradicionalmente, acreditarmos que ela não é. Será que ainda existem motivos bons o suficiente?



Revista filosofia

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