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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Velocidade máxima, espaços reduzidos 1

Suscitada pela chamada globalização, a discussão sobre a relação entre tempo e espaço - e seus impactos no sistema capitalista e na sociedade moderna - é um dos principais problemas sociológicos contemporâneos

por Tatiana Martins Alméri



Conforme o século 21 vai tomando seu espaço, a sensação de que os dias são um pouco mais curtos parece aumentar. As bases tecnológicas que supostamente viriam para proporcionar uma diminuição de gasto de tempo e de energia dos seres humanos com relação ao trabalho parece não cumprir a sua missão tão explicitamente, e os dias ficam a cada dia mais curtos, as semanas passam cada vez mais rápidas e a vida se torna veloz. Até chegar a hora que o tempo para, a reflexão acontece e o momento de olharmos em frente ao espelho e analisarmos as marcas que o tempo deixou chega, é hora de revermos as aprendizagens, os convívios, e assumirmos: É, a vida voou!

Essa passagem de tempo vem se modificando conforme as mudanças que a sociedade vai proporcionando, e o sentimento de que o tempo passa mais rápido está totalmente ligado à impressão de que o espaço também está diminuindo. A cada dia que passa essa relação entre vida, tempo e espaço vai se configurando de uma maneira mais intensa.


Isso vem se modificando a cada estágio social, tanto do sistema capitalista quanto dos sistemas que o precederam. Quanto maior o desenvolvimento do sistema atual, maior a sensação de que o tempo passa mais rápido e que a distância entre as pessoas, os países, as coisas e as buscas pelas soluções de problemas tendem a diminuir. "Nas diversas culturas humanas, os indivíduos e grupos experimentaram variadas formas de se relacionar com o espaço e com o tempo; e, em um certo número dessas culturas, suas diferentes épocas ou estágios evolutivos viram mudanças nessa relação. De nosso ponto de vista ocidental e eurocêntrico, algumas dessas diferentes experiências seguem [infelizmente] ainda uma linha evolutiva que parece ligada ao caráter progressivo ou cumulativo da história de suas sociedades, por oposição ao caráter estacionário de outras." (FARIA, 1999)


Coloco o grifo, "infelizmente", pois o conceito do desenvolvimento do significado de cultura como algo evolutivo, influenciado pela teoria evolutiva de Charles Darwin, já foi derrubado teoricamente há tempos e com clareza argumentativa. Dessa maneira, a cultura deixou de ser um objeto sistemático e passou a ser analisada não mais como um processo evolutivo, com a possibilidade de desigualdades de estágios e além do estabelecimento de uma escala civilizatória, a qual deveria começar na selvageria e chegar à civilização, em cujo "ápice" estaria a civilização europeia. No entanto, esse tipo de pensamento continua sendo usado pelo senso comum.


Globalização, essa Pangeia


Essa linha evolutiva também orienta, neste caso, porém, de uma maneira positiva, a relação entre o tempo e o espaço. "Desde o surgimento do capitalismo, ao final da Idade Média europeia, a forma de vivenciar o espaço e o tempo passou a sofrer constantes modificações, modificações estas sempre num mesmo sentido, em que os espaços vão diminuindo e o tempo parece transcorrer de forma cada vez mais acelerada. É resultante desse movimento a circunstância de homens e mulheres que vivem este fim de século [século 20] experimentarem, como nunca na história, uma sensação de encurtamento das distâncias geográficas e de aumento da velocidade das transformações sociais, políticas e econômicas" (FARIA, 1999).


Esse aumento de velocidade das transformações é, atualmente, uma característica muito própria do sistema capitalista, essa sensação de diminuição de tempo e de espaço, de aumento das influências culturais - estimuladas pela mídia - e de que o mundo se tornou novamente uma Pangeia, que pode ser chamada de globalização.


A globalização, essa eficiente estrutura global se caracteriza de uma maneira tão hábil graças à capacidade de padronizações simbólicas geradas pelos países que possuem um maior acesso ao topo da hierarquia econômica do sistema capitalista, ou seja, os países desenvolvidos.


Os sistemas simbólicos são, para Bourdieu (1989), instrumentos de aprendizagens, conhecimento e de comunicação que institui a edificação de realidades, trazendo uma interpretação mundana muitas vezes impostas por dominadores, o que acaba legitimando essa dominação. Isso traz uma impressão de naturalidade ocasionada pela violência simbólica.


Por intermédio dos meios de comunicação, da política, da educação, da economia, a globalização age de uma maneira a transformar o tempo em um literal dinheiro. Como a busca do sistema capitalista é a concentração de dinheiro, o tempo é vendido e, juntamente com ele, a vida. A reflexão de Bourdieu sobre a identidade dominada então passa estar limitada pelas imposições da globalização, a qual traz um paradoxo: aumento de reflexão ou restrição ao pensamento dominante?





Revista Sociologia

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