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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Os caminhos e os novos desafios do sindicalismo no Brasil 3

Fatores como a flexibilização das relações de trabalho e as novas formas de gestão provocam o parcial desmantelamento dos sindicatos, que vem buscando novas alternativas de intervenção, negociação e organização para se manterem atuantes


por EVERALDO DA SILVA e MANOEL JOSÉ FONSECA ROCHA


O BRASIL está cada vez mais se inserindo de modo subordinado no regime de acumulação mundial, aumentando a vulnerabilidade externa de sua economia e agravando os problemas sociais. Conseqüentemente, a dinâmica produtiva se realiza por meio da internacionalização da economia. Assim, os trabalhadores estão cada vez mais impossibilitados de fazerem resistência. Os sindicatos não estão conseguindo impedir os movimentos que prejudicam e desarticulam os trabalhadores. A fragilidade social e a dominação do mercado sobre as condições de emprego são alguns dos obstáculos para a prática de resistência dos trabalhadores.


Atualmente, o número de trabalhadores que os sindicatos conseguem juntar nas reuniões é baixo, diferentemente de 15 anos atrás, quando os trabalhadores discutiam os seus interesses em comum, encorajando-os à ação coletiva de resistência. O medo de perder o emprego vem sendo um dos principais fatores que contribuiu para dificultar a organização nos locais de trabalho, sendo que este fenômeno vem aumento brutalmente, dificultando a criação de uma “consciência sindical”.


Com a instabilidade e a fragmentação da classe trabalhadora, o sindicalismo tem novos desafios, principalmente diante de uma base social composta de partes de diferentes naturezas. Os sindicatos do terceiro milênio têm, desde logo, de compreender as profundas modificações ocorridas, quer na organização da produção capitalista, quer na própria estrutura de classes na sociedade. Os sindicatos têm, agora, de se assumir como órgãos de luta política e adotar uma estratégia de ruptura com o atual estado de coisas que, aliás, vem colocando os trabalhadores em níveis, em alguns casos, inferiores àqueles com que se tiveram de bater nos primórdios da Revolução Industrial


POR ESSA RAZÃO, o sindicalismo brasileiro está buscando novas alternativas que, apesar de ainda serem incipientes, evidenciam certo desenvolvimento, como a tentativa de articulação com outros movimentos sociais (terra, moradia, cidadania, justiça, etc.); a busca de abertura efetiva para novos temas e demandas (ambiente, gênero e raça, cidadania dentro e fora dos locais de trabalho, educação do trabalhador – político – sindical, geral e profissional) e a incorporação de práticas alternativas de intervenção, negociação e organização (Câmaras Setoriais/Regionais, políticas públicas e sociais, e articulação no âmbito do Mercosul).

A primeira experiência neoliberal durante o governo de Margareth Thatcher (foto), em 1979, prejudicou os sindicatos ao tirar encargos das empresas e direitos trabalhistas


O processo de produção, na qualidade de um campo de disputa entre capital e trabalho, manifesta inúmeros papéis: de controle, de resistência, de alienação, de constituição de identidade, de conflitos de interesses e de produção do consenso. A importância do processo de trabalho na produção e na reprodução de diferentes e relevantes dimensões das relações sociais, dentro e fora da empresa, de acordo com o que foi exposto, fundamenta a necessidade do envolvimento pró-ativo dos sindicatos.


Os mecanismos de controle, criados não somente pela classe patronal, mas também pelo governo, promovem um crescente e assustador desmantelamento das organizações sindicais. Pela parte do governo, as políticas assistencialistas, como vale-refeição, vale-gás, salário-família, bolsa-escola, etc., isoladamente ou somadas, são, na verdade, instrumentos ocultos que, de forma competente, afastam os trabalhadores de suas entidades representativas. Por outro lado, existem os mecanismos criados pela classe patronal, como as associações dos operários: espaços criados com a finalidade de promover horas de lazer/diversão e não para reflexão dos trabalhadores. Há ainda, o exército de reserva, que concede ao capitalista o direito crescente de remunerar cada vez menos seus trabalhadores.


Levando-se em conta o que foi observado, os sindicatos ainda são fortes instrumentos de luta em defesa dos interesses de seus sindicalizados. No entanto, a sua representatividade dependerá da construção de um sentimento de cidadania, suficientemente forte e que justifique a sua permanência.



REFERÊNCIAS
ANTUNES, R. L. C. O que é sindicalismo. São Paulo: Brasiliense, 1981.CARDOSO, A. M. A década neoliberal e acrise dos sindicatos no Brasil. São Paulo:Boitempo, 2003.KAPSTEIN, E. B. Workers and the worldeconomy. Foreign Affairs, p. 16, maio/jun. 1996.McILROY, J. O inverno do sindicalismo. In:ANTUNES, R. (Org). Neoliberalismo, trabalho e sindicatos: reestruturação produtiva no Brasil e na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 1997.POCHMANN, M. A década dos mitos. SãoPaulo: Contexto, 2001.REGINI, M. Sindicalismo. In: BOBBIO, N.;MATTEUCCI, N.; PASQUINO, G. Dicionário depolítica. 11. ed. Brasília: Editora Universidadede Brasília, 1998.SANTANA, M. A. O sindicalismo brasileironos anos 1980/2000: do ressurgimentoà reorientação. In: Cadernos Adenauer.Sindicalismo e relações trabalhistas. Rio deJaneiro: Fundação Konrad Adenauer,jul. 2002.SANTANA, M. A.; RAMALHO, J. R. (Orgs.).Além da fábrica: trabalhadores, sindicatose a nova questão social. São Paulo:Boitempo, 2003.



EVERALDO DA SILVA é mestre em Desenvolvimento Regional pela Fundação Universidade Regional de Blumenau, doutorando em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, professor e Gestor Acadêmico do Grupo Uniasselvi da Faculdade Metropolitana de Blumenau e professor do Instituto Catarinense de Pós-Graduação. Possui artigos e livros publicados na área das Ciências Sociais, Sociologia e Metodologia. E-MAIL: evesociologia@gmail.com



MANOEL JOSÉ FONSECA ROCHA é bacharel em Estudos Sociais e História pelo Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Pelotas, mestre em Educação pela Universidade Regional de Blumenau, professor do Instituto Catarinense de Pós-Graduação e Faculdade Metropolitana de Blumenau. Possui artigos publicados em congressos, revistas na área das Ciências Sociais e livros nas áreas de História e Sociologia.
E-MAIL: manoel@furb.br


Revista Sociologia

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