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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Dicionário Filosófco de Voltaire 1

Tolerância - Seção II

Este é um espaço para publicação de trechos de textos e obras flosófcas sobre temas diversifcados



A ressurreição de Cristo, obra de Raffaello Sanzio (1500)

De todas as religiões, a cristã é, sem dúvida, aquela que mais deve inspirar tolerância, embora até hoje os cristãos tenham sido os mais intolerantes de todos os homens. Jesus, dignando-se nascer na pobreza e na humildade, assim como seus irmãos, nunca se dignou a praticar a arte de escrever. Os judeus tinham uma lei escrita com os maiores detalhes e nós não temos uma única linha escrita por Jesus. Os apóstolos se dividiram a respeito de diversos pontos. São Pedro e São Barnabé comiam carnes proibidas com os Dicionário Filosófco de Voltaire Tolerância - Seção II novos cristãos estrangeiros e se abstinham delas com os cristãos judeus. São Paulo lhes recriminava essa conduta, mas esse mesmo Paulo, fariseu, discípulo do fariseu Gamaliel, esse mesmo Paulo que havia perseguido os cristãos com furor e que, tendo rompido com Gamaliel, ele próprio se fez cristão, em seguida dirigiu-se, no entanto, a Jerusalém, para oferecer sacrifícios no templo, no período de seu apostolado. Observou publicamente, durante oito dias, as cerimônias da lei judaica, á qual havia renunciado; acrescentou até devoções e purifcações que as havia em abundância; agiu inteiramente como judeu. O maior apóstolo dos cristãos fez durante oito dias as mesmas coisas pelas quais os homens são condenados à fogueira em grande parte dos povos cristãos.

Teudas, Judas, se haviam arvorado em Messias antes de Jesus. Dositeu, Simão, Menandro, se apresentaram como Messias depois de Jesus. Houve, desde o primeiro século da Igreja, aproximadamente vinte seitas Judeia.

Os gnósticos contemplativos, os seguidores de Dositeu, os partidários de Cerinto existiam antes que os discípulos de Jesus tivessem assumido o nome de cristãos. Logo houve trinta Evangelhos, pertencendo cada um deles a uma sociedade diferente; e desde o fnal do século I, podemos contar trinta seitas de cristãos na Ásia Menor, na Síria, em Alexandria e mesmo em Roma.

Todas essas seitas, menosprezadas pelo governo romano e escondidas em sua obscuridade, se perseguiam, no entanto, umas às outras nos subterrâneos, onde rastejavam, isto é, proferiam sua abjeção; quase todas elas eram compostas unicamente do segmento mais desprezível da sociedade.

Quando, finalmente, alguns cristãos abraçaram os dogmas de Platão e misturaram um pouco de Filosofa à sua religião, que separaram da judaica, tornaram-se imperceptivelmente mais respeitados, mas sempre divididos em várias seitas, sem que nunca tenha havido um só momento em que a Igreja cristã estivesse unida. Surgiu no meio das divisões dos judeus, dos samaritanos, dos fariseus, dos saduceus, dos essênios, dos judaítas, dos discípulos de João, dos terapeutas. Esteve dividida em seu berço, esteve também nas próprias perseguições que sofreu sob os primeiros imperadores.

Muitas vezes o mártir era considerado como uma apóstata por seus irmãos e o cristão carpocratiano expirava sob a espada dos carrascos romanos, excomungado pelo cristão ebionita, o qual era anatematizado pelo adepto de Sabélio.

Essa horrível discórdia, que já dura há tantos séculos, é uma lição realmente marcante de que devemos perdoar mutuamente nossos erros; a discórdia é o grande mal do gênero humano e a tolerância é seu único remédio.

Não há ninguém que discorde dessa verdade, seja que medite calmamente em seu recinto particular, seja que examine pacifcamente a verdade com seus amigos. Por que, pois, os mesmo homens que admitem em particular a indulgência, a benevolência, a justiça, se levantam em público com tanto furor contra essas virtudes? Por quê? È que seu interesse é seu deus, é porque sacrifcam tudo a esse monstro que adoram.
Revista Filosofia

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