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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Futebol desafiou princípios do governo de Getúlio Vargas

Pesquisa mostra que o futebol brasileiro conseguiu, em parte, se contrapor aos ideais do estado varguista

Agência USP

O futebol brasileiro, de estilo individualista e exibicionista, não se curvou à tentativa do governo de Getúlio Vargas em usá-lo como instrumento político. A historiadora Melina Pardini lembra que, apesar de o Estado Novo - período de 1937 a 1945, em que Vargas impôs um governo autoritário - tentar concretizar o seu projeto de construir uma nação ordenada e disciplinada com o futebol, havia muitos aspectos do esporte que afrontavam esse plano.

No estudo de mestrado A Narrativa da Ordem e a Voz da Multidão: Futebol na Imprensa durante o Estado Novo, apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Melina relata que, para o governo da época passar sua ideologia através do futebol, utilizava alguns métodos bem eficazes. Um deles era pelo controle da mídia: "Nessa empreitada de moldar o futebol de acordo com os princípios estadonovistas, os jornais também representavam a massa torcedora como um conjunto harmônico, sem conflitos e individualismos."

Estilo libertário
De acordo com a pesquisadora, no Estado Novo havia outra concepção, outro estilo: um futebol ordenado, disciplinado e coletivo. "Houve um esforço para consolidar o futebol como esporte nacional e instrumento político, já que isso poderia ajudar a concretizar o projeto de construir uma nação ordenada e disciplinada", conta. "Mas existe um estilo brasileiro de jogar, individualista e que preza a malemolência, a malandragem. Um estilo libertário e individualista."

E esse estilo libertário que se sobrepôs ao estilo disciplinado ficou mais evidenciado por Leônidas da Silva, também conhecido como Diamante Negro. "O craque do momento era um negro, que era malandro e com um jogo totalmente individualista. Essas características de Leônidas minavam três valores do Estado Novo: a superioridade do homem branco, a disciplina e a coletividade."

A historiadora destaca que Leônidas conseguia passar uma imagem oposta da que o governo getulista queria. Além de ser um grande craque, ele era idolatrado pela população, principalmente a de baixa renda. O governo até tentava, pelo controle da imprensa, alterar a imagem do jogador, como ao afirmar que ele era um "mestiço a serviço da nação", mas a população "valorizava o lado descompromissado e brincalhão dele."

O estudo, que foi orientado pelo professor Flávio de Campos, do Departamento de História da FFLCH, aponta ainda outros artifícios de controle do Estado Novo. Ela cita a propaganda política de Vargas com a inauguração estádio do Pacaembu, em 1940, na qual a imagem do presidente era diretamente relacionada com a com a construção do estádio. Outro artifício marcante do Estado Novo foi com a copa de 1938. De acordo com a pesquisa, foi a primeira vez que o País teve de fato uma seleção nacional, visto que antes praticamente só escalavam jogadores do Rio de Janeiro. Devido à "preocupação com a unidade nacional", diz a historiadora. "O governo propiciou a criação de uma seleção com os melhores jogadores para promover o futebol brasileiro no exterior."

Resistência
Apesar dos esforços do governo, a própria população brasileira indiretamente se manifestava contra a ideologia deste pelo esporte. A valorização do estilo individualista foi uma dessas marcas. Melina também destaca a disputa regional que havia na época entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

Segundo a pesquisadora, a rivalidade entre os estados para decidir quem era melhor no futebol era tão grande que até os jornais na época trocavam ofensas quando havia jogo entre um time do Rio e outro de São Paulo. "Essa rivalidade acabava prejudicando a idéia de união nacional do Estado Novo", diz Melina.

A pesquisa teve como base de documentação três jornais de grande circulação, um de São Paulo (Correio Paulistano) e dois do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, de 1937 a 1941, e Jornal do Comércio, de 1942 a 1945), mais dois jornais esportivos, também um de São Paulo e um do Rio (respectivamente, Gazeta Esportiva e Jornal do Esporte). Melina analisou todas as publicações desses jornais da época estudada.


Revista Filosofia

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