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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Camus: um grito de esperança silencioso 1

Com seu ensaio O Mito de Sísifo, que caminha entre a Filosofia e a Literatura, Camus tenta explicar o absurdo e o suicídio

Por Paulo Roberto Pedrozo Rocha




O Grito, de Edvard Munch (1893). Obra expressionista que evoca desespero existencial. Dor e angústia também são algumas das interpretações a respeito do quadro

Paulo Roberto Pedrozo Rocha é mestre e doutor em Filosofia pela USP. Atualmente cumpre estágio de pós-doutorado na PUC-SP e é professor dos cursos de graduação, Letras, Tradutor Intérprete e Ciências Sociais da Universidade Nove de Julho - Uninove

"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da Filosofia." Com essas palavras, o franco-argelino Albert Camus (1913-1960) abre seu ensaio intitulado O Mito de Sísifo, quem sabe uma das obras mais significativas situada no tênue fio que separa a Filosofia da Literatura entre os europeus da metade do século passado.

O leitor da Filosofia irá recorrer em primeiro plano aos escritos dos iluministas franceses tais como Jean-Jacques Rousseau (embora este, tão frequentemente tratado como francês era, na verdade, suíço de nascimento) com o seu Júlia ou a Nova Heloísa ou até mesmo Voltaire (este sim um verdadeiro "Barão" francês) em contos como o Ingênuo, ou o clássico Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos que, escrito em 1782 retrata a antessala da Revolução Francesa, revelando de forma, ora divertida, ora irônica, um tratado de Filosofia Política no que se refere ao pensamento iluminista sobre as relações de classe e poder, temas tão caros aos filósofos de todos os tempos.

Camus é um romancista. Nesta condição, ele vive um dilema com a corrente existencialista tão em voga na metade do século XX. Para os existencialistas, dentre os quais se destaca Jean-Paul Sartre (1905-1980), a Literatura precisa ser engajada e não poderia mais ser vista como mera forma de entretenimento. Através dela era preciso dizer que o literato é antes de tudo um inconformado. Vale lembrar que boa parte dos existencialistas de então havia vivido a experiência da Segunda Guerra Mundial e no seu término estavam entre a indignação trazida pelos horrores da guerra e a esperança prefigurada pelo socialismo soviético1.


1 Para saber mais sobre esse assunto ver O que é Literatura, Jean-Paul Sartre, Ed. Ática, 1993.




Sísifo, por Max Klinger (1914). No mito grego, Sísifo é condenado a eternamente rolar uma pedra morro acima e buscá-la morro abaixo. Exemplo de paixão à vida, mesmo no absurdo da falta de sentido

Contudo, será num ensaio (e é importante lembrar que o ensaio é mais do que uma mera variação dos tratados filosóficos), e não em um romance que Camus irá elaborar o que poderíamos chamar de "DNA" do novo romance filosófico. O Mito de Sísifo se impõe como um instrumento de reflexão representando um gênero literário - o dos ensaios - consagrado na Literatura francesa desde Michel de Montaigne no século XVI.

O Mito de Sísifo é um livro de 1942. Nesta época, Camus já se distanciava gradativamente do existencialismo, corrente à qual, em sua opinião, ele nunca pertenceu. Para ele, não havia sentido exigir da Literatura uma posição sempre militante.

Esse comportamento sugeria a Camus uma espécie de mascaramento da realidade, pois ele via uma explícita intenção por parte dos pares do existencialismo em defender as atrocidades cometidas pelo regime soviético. Para Camus, a obrigatoriedade do engajamento implicaria, necessariamente, em um desvirtuar da tarefa principal da Literatura: revelar a alma humana.
Daí as primeiras impressões colhidas em O Mito de Sísifo: "Começar a pensar é começar a ser atormentado... matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos." Ao invés de uma confissão militante, se impõe uma decepção, um gesto que implica no desapontar-se com o mundo, o que poderia ser denominado noção do absurdo.

Ao propor a noção de absurdo, Camus passa quase que inexoravelmente a expor o tema de seu ensaio, que era "essa relação entre o absurdo e o suicídio, a medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo." A princípio, os leitores de Camus poderiam supor que de sua escrita iria advir uma solução para a noção de absurdo. Ainda que esta solução fosse limite, ainda que constatasse que a vida não valeria a pena. Esta expectativa, na verdade, é frustrada.


ABSURDO: TEMÁTICA RECORRENTE ENTRE OS FILÓSOFOS


Albert camus não foi o primeiro a refletir sobre o absurdo. outros filósofos também lidam com esse tema. ele está presente nas teorias de Soren Kierkegaard, Léon Schestow, Karl Jaspers, Martin Heidegger, edmund Husserl e, mais próximos a camus, de Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty. Para Heidegger, por exemplo, o existir é o absurdo e a Filosofia deve fazer o homem se dar conta disso. absurdo porque o "ser", lançado no tempo, e que nunca "é", depara-se com o "nada", e vive a angústia.

Mas Heidegger defende que essa percepção faz o homem se deparar com sua finitude e valorizar seus potenciais. Já Sartre, filósofo existencialista, associa o absurdo à "náusea" de estar vivo. a "náusea" adviria do fato de o homem não poder ser senão o "não-ser" e, "não-sendo", nunca poder se deparar com o nada. Karl Jaspers segue outra linha. ele acredita que a certeza existencial passa pela fé. ele defende uma fé filosófica. Só ela faria o homem entender o absurdo da vida.




Revista Filosofia

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