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sábado, 27 de fevereiro de 2010

O segredo por trás de O Segredo 4

Reportagem: Pablo Nogueira


Remota, mas uma possibilidade. Assim, será então que pode estar nos efeitos do pensamento sobre o misterioso mundo quântico a chave da lei da atração que é anunciada em "O Segredo"? "Não", diz Marcelo Gleiser, astrofísico e colunista de Galileu. E dá suas explicações para o porquê. "No nosso mundo cotidiano e macroscópico, esses efeitos são muito suprimidos. Não dá para transportar as idéias de uma esfera para a outra. Um elétron pode atravessar uma parede, por exemplo, mas nós não podemos."

Alguns estudos levantam a possibilidade estatística de o nosso pensamento afetar a realidade. O físico João Bernardes Filho, professor da PUC-RS e autor de "Física e Psicologia" (EdiPUCRS), cita como exemplo os experimentos feitos no Laboratório de Estudos de Anomalias em Engenharia (PEAR), que iniciou suas atividades em 1979 na Universidade Princeton, nos EUA, e foi fechado em fevereiro passado.

Os pesquisadores do PEAR realizaram milhares de experimentos para tentar demonstrar uma suposta capacidade da mente humana de interferir no funcionamento de máquinas mecânicas e eletrônicas. Os resultados dos pesquisadores do PEAR despertaram a curiosidade do astrônomo Carl Sagan (1934-1996), que em seu livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios" diz que as afirmações dos estudiosos de Princeton mereciam ser avaliadas.

E foram. Das conclusões não saiu nada que pudesse validar algo parecido com a lei da atração. "Os estudos indicam que o grau de influência do pensamento sobre os eventos seria muito pequeno, da ordem de 0,3%", diz João Bernardes. Ou seja, as chances de obter algum resultado favorável aplicando o pensamento intencionalmente sobre uma situação específica seriam mínimas.

Mas isso não desestimula os autores de auto-ajuda interessados em unir suas idéias a conceitos científicos. Pelo contrário. Desde o final do século 19, esse tipo de literatura já fazia referências a idéias tiradas de disciplinas científicas ou de avanços tecnológicos. A então recente chegada do telefone fertilizava o terreno sobre o qual os autores da época semeavam suas idéias. Afinal, se a voz podia ser transmitida à distância, por que não os pensamentos?

Apesar da passagem dos anos e da aceleração do desenvolvimento tecnológico, uma característica une os leitores do século 19 com os atuais consumidores de "O Segredo". Tanto naquele tempo quanto hoje, há uma categoria de céticos que gostariam de acreditar numa mudança possível, mas para quem o lado esotérico da religião não fornece as respostas mais convenientes. Para chegar a eles, alguns autores queriam - e continuam querendo - mostrar que a auto-ajuda pode não ser uma questão de fé, mas sim algo diferente e que pode ser comprovado objetivamente, o que explica parte do ovo de Colombo de Rhonda.

Outro efeito curioso no fenômeno "O Segredo" é o fato de o leitor, seduzido pela embalagem científica da lei da atração, estar levando para casa, sem saber, um discurso mágico. "As ciências sociais fazem uma distinção entre religião e magia", afirma Antônio Pierucci, professor titular de ciências sociais da USP e especialista em sociologia da religião. "Um ato religioso é, por exemplo, fazer uma prece a Deus. Mesmo sem ter grandes garantias de que Ele vá atender, o fiel continua pedindo, numa atitude humilde e de respeito", diz. Mas a magia inverte a relação com o sagrado por meio de um gesto ou de uma palavra mágicos.

E isso tem um apelo tão sedutor quanto divertido para aqueles que acreditam no poder da magia. Afinal, ela enche a realidade de seres e torna o mundo mais interessante. Crédulos ou não, para tornar a vida moderna menos chata precisamos povoá-la com a imaginação. Para isso servem as novelas, os filmes, a música, a poesia. Nesse campo, entram também a magia e a religião. A ciência fica de fora, pois pertence à esfera da técnica. Apesar disso, não tem a pretensão de liquidar o imaginário.

Melhor que liquidar é estudar. Só assim para decifrar a relação entre a magia e o divino. No caso de "O Segredo", ela pode ser explicada usando como exemplo a lenda árabe de "Ali Babá e os 40 Ladrões". Na história, um personagem diz: "Abre-te, Sésamo", e assim faz com que um espírito obedeça ao seu comando e abra uma porta. "Aqui é o mago quem comanda. A magia é um ato de coerção do divino", afirma o professor Pierucci.



Revista Galileu

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